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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

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ra uma vez uma menina pequenina de cabelos cor de abóbora que tinha tantas sardas na cara quantas estrelas há no céu, e cujo nome era doce e pequeno, como ela:Vocês sabem de quem é quem eu estou a falar, não sabem? Exactamente. Da Ana! Na noite de Natal, a sua avó surpreendeu-a com a prenda mais especial que ela já alguma vez recebera. Uma prenda feita pela misteriosa tribo das neves, Xirihbitatá, e que desde essa noite a Ana nunca mais largou.

Lembrava-se de quando a avó a colocara sobre os seus ombros, fizera um laço com os atilhos e depois lhe tapara a cabeça com o carapuço, puxando-lhe os cabelos cor de abóbora para a frente. “Perfeita! Eu sabia que ias ficar linda com ela!”. Naquele momento, Ana sentiu-se muito quentinha e confortável, e uma felicidade imensa apoderou-se dela. 

 

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Aquela era a capa mais bonita que ela já vira na vida! Era azul, da cor dos mirtilos, e para seu espanto, cheirava a bosque, a chuva e frutos silvestres. Cheiro esse que não desaparecia nunca, nem depois de a mãe a lavar com sabão azul e branco, detergentes e amaciadores. Também a protegia tanto do calor como do frio, podendo usá-la o ano inteiro, e ao contrário de todas as outras roupas que ficavam curtas à medida que ela ia crescendo, a capa azul mirtilo ia-se adaptando à sua dona e crescendo com ela, para que nunca deixasse de lhe servir. E à noite, quando ela pendurava a capa na cadeira e se enfiava na cama, um doce aroma a floresta, chuva e frutos silvestres invadia o seu quarto, ela fechava os olhos e sonhava com lugares mágicos e nunca antes visitados. Em todos eles trajava o seu capuchinho azul mirtilo e com ele sentia-se invencível. 

A Ana e a sua capa eram de tal maneira inseparáveis que já toda a gente lhe chamava Ana Mirtilo. Mas ela não era a única a adorá-la...

 

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A Tina Rabina era a miúda mais insuportável da turma da Ana. Desde o infantário que lhe atazanava a paciência. Eram pastilhas elásticas nos cabelos, lagartixas na mochila, pioneses na cadeira, bombinhas de mau cheiro nos bolsos do casaco… As maldades da Tina Rabina não conheciam limites. Ela não era apenas chata ou travessa. Ela era uma sugadora de alegria. Era como se trouxesse sempre consigo nuvens negras para tapar os dias de sol, e transformasse qualquer arco-íris num borrão triste e indefinido, apenas porque lhe apetecia.

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A próxima tropelia que a Tina Rabina estava a planear era inimaginavelmente cruel, pois o que ela mais ambicionava, nos últimos tempos, era ter uma capa azul mirtilo, igualzinha à da Ana. Igualzinha, não. Ela queria a da Ana! Ela queria-a, mais que tudo. Por isso, num dia em que a Ana a pendurou no bengaleiro para ir à casa de banho, a Tina Rabina roubou-a sem ninguém ver. Abraçou-se a ela, sentindo o maravilhoso odor a bosque, a chuva e frutos vermelhos e imaginou o quanto a Ana choraria quando visse que ela tinha desaparecido. Mas, estranhamente, em vez de sentir orgulho na sua maldade – como era costume – ela começou a sentir-se culpada. Quanto mais se abraçava à capa em busca de conforto, pior se sentia.

- Mas o que é isto?! - exclamou, irritada, sem perceber aqueles sentimentos que nunca a tinham visitado antes.
Como não queria que ninguém a visse com ela, escondeu-a no cacifo, fechada a sete chaves, pensando em como iria sair da escola com o capuchinho azul mirtilo.

 

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A Ana chorou. Chorou muito. Em casa, nem o pai, a mãe ou o irmão a conseguiam consolar. Ela nunca se sentira tão triste em toda a sua vida e naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, não viajou para terras distantes nos seus sonhos, acompanhada do maravilhoso aroma a florestas do norte.

  

 

 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 2
por  Marta A. autora do blog Um dia acabo o Livro

 

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Era uma vez uma menina pequenina de cabelos cor de abóbora que tinha tantas sardas na cara quantas estrelas há no céu, e cujo nome era doce e pequeno, como ela: Ana.

A Ana, tal como todas as crianças, adorava a época natalícia e todas as coisas maravilhosamente divertidas que se fazem nessa altura e nos fazem ficar muito felizes. Vocês sabem do que estou a falar, não sabem? Enfeitar o pinheiro, decorar a casa, brincar na neve, fazer doces, escrever a carta ao pai Natal, embrulhar prendas, preparar surpresas, observar o céu… Sim. Observar o céu. A Ana fazia-o todas as noites, na esperança de avistar o trenó e as renas do Pai Natal nos seus treinos para a grande noite. Elas tinham que treinar, não acham? Para não se cansarem demasiado quando tivessem de dar a volta ao mundo em apenas 24 horas!

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Contudo, este ano algo de muito estranho se passava em casa da Ana. Faltava apenas um dia para o Natal, mas todos pareciam esquecer-se disso!

A árvore, montada a um canto da sala, estava nua, nua, despidinha da Silva, sem um único enfeite para a aquecer! Também não havia presépio, luzes nas janelas, azevinho sobre a lareira, nem coroa de Natal na porta.

Lá fora, no jardim, a neve que tinha caído há duas semanas começava a derreter e não havia um único boneco a alegrar o quintal, tal como o pai lhe tinha prometido que fariam os dois. E no ar não havia cheiro a doces, nem se ouviam cânticos natalícios. Nada de nada. Aquilo parecia os seus piores pesadelos, em que o Natal desaparecia da face da Terra!

Foi então que, decidida a mudar aquela situação, a Ana foi à procura da mãe.

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A mãe estava na sala, agarrada ao seu tablet, e mal olhou para a filha quando ela entrou.

- Mãe, não encontro o Natal aqui em casa. - disse a menina - Podes ajudar-me a procurá-lo?

- Agora não posso, querida. Estou a encomendar uns doces e prendas pela internet. Não teremos trabalho com nada. Não é maravilhoso?

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A Ana ficou triste. Não, não era nada maravilhoso! Ela queria fazer doces com a mãe e escolher o papel, cortar a fita-cola, fazer laços e postais de Boas Festas para enviar aos amigos. Doces encomendados e prendas que já vinham embrulhadas não tinham nada de Natal!

A Ana foi à procura do pai.

O pai estava no escritório, a falar para o ecrã do computador, enquanto agitava muito os braços, no ar.

- Pai, não encontro o Natal aqui em casa. - disse a Ana - Podes ajudar-me a procurá-lo?

O pai espreitou por cima do ecrã e disse:

- Podes esperar, querida? Agora estou a tratar de negócios.

A Ana não gostava nada da palavra “negócios”. “Negócios” era uma palavra que deixava os adultos doidos e muito parecidos com os piratas das histórias que ela gostava de ouvir. Se havia uma palavra contrária a “Natal”, era “negócios”.

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- Mas prometeste que fazias um boneco de neve comigo!

- Talvez mais tarde, fofinha. Talvez mais tarde. - respondeu o pai, que continuou a falar para o ecrã, como se Ana nem estivesse ali.

Cabisbaixa, ela foi à procura do irmão.

O irmão estava no quarto a jogar Playstation.

- Mano, não encontro o Natal cá em casa. Podes ajudar-me a procurá-lo?

- Agora não posso, Ana. Estou a tentar passar um nível importante! - disse ele, mordendo a língua, agarrado ao comando.

- Mas amanhã é Natal e nem temos a nossa árvore enfeitada! - reclamou a menina.

Sem lhe responder, o irmão continuou a jogar e ela saiu do quarto, sentindo-se muito zangada.

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Como era possível que ninguém quisesse enfeitar a árvore com ela, ou brincar na neve, ou preparar a ceia?! A mãe, o pai e o irmão conseguiam estar mais perdidos que o próprio Natal! Se houvesse alguma maneira de os trazer de volta… Foi então que naquele momento o vento começou a soprar forte nas árvores do jardim, nuvens escuras surgiram no céu e trovoadas ressoaram como mil tambores. Lá fora, uma enorme tempestade de neve ameaçava cobrir tudo de branco e foi então que um milagre aconteceu. A luz apagou-se! Nada acendia, nada ligava, nada respondia.

Sem saber o que fazer, toda a família se reuniu na sala.

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- E agora? O que vamos fazer? - perguntou a mãe.

- Tinha tanta coisa para tratar! - lamentou-se o pai.

- E eu estava mesmo a chegar ao fim daquele jogo! - reclamou o irmão.

- Podíamos procurar o Natal, todos juntos! - sugeriu a Ana.

Eles olharam para ela, confusos, e ela foi buscar um caixote de onde tirou fitas, laços e bolas douradas e vermelhas.

- Vamos começar a enfeitar a árvore! – sugeriu, e todos concordaram.

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Quando começaram a pendurar enfeites, ela começou a cantarolar músicas natalícias e todos a acompanharam.

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Não tardou a estarem todos na cozinha, a fazer filhoses e rabanadas, e a rirem-se das maluquices do pai. Como o fogão era a única coisa que funcionava, depressa a casa se inundou com o cheiro a fritos e canela – e toda a gente sabe que o cheiro a fritos de Natal é o único que faz toda a gente sorrir de contente.

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No fim, foram pendurar a coroa de azevinho na porta, e verificaram que a tempestade já tinha ido embora, deixando o jardim coberto de branco.

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- Vamos fazer um boneco de neve! - exclamou a Ana, com o coração a rebentar de alegria.

E assim foi. Era o boneco de neve mais torto de sempre, mas também o mais bonito, pois tinha sido feito pelos quatro.

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- Esta está a ser a melhor véspera de Natal de sempre! - disse ela, agarrada às pernas da mãe e do pai. Todos concordaram com ela. Há muito tempo que não se divertiam tanto, e naquele momento prometeram que nunca mais se iam perder dentro daqueles aparelhos que os levavam para longe uns dos outros, e nunca mais esqueceriam o Natal.

Quando se sentaram à mesa para cear, a Ana apenas lamentou a ausência de uma pessoa. Alguém de quem tinha muitas saudades. Foi então que ouviu uma batida na porta e levantou-se imediatamente, correndo para a abrir. Assim que a abriu, viu o sorriso mais caloroso de sempre e o que mais desejara ver naquela noite.

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- Avó! - e saltou-lhe para o colo.

- Minha querida Ana! - abraçou-a a avó - Ainda bem que cheguei a tempo de te abraçar e dar a tua prenda.

- A minha prenda?!

- Sim. Uma prenda especial, para uma menina especial, feita pela tribo das neves, Xirihbitatá.

- Oh! E o que é? - perguntou a Ana, curiosa e com um brilhozinho no olhar.

A avó sorriu e acariciou-lhe as sardas da cara, que eram tantas quanto as estrelas que pintalgavam o céu naquela noite.

E querem saber o que era, amiguinhos? Pois bem… isso fica para outra história, que um dia vos irei contar.

:)

 

História de Marta A. autora do blog Um dia acabo o Livro e publicado na Inominável nº 1

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