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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Outubro é sinónimo de Outono, mas nesta edição ainda vos escrevo durante o Verão e no preciso dia em que deveria estar a voltar a ser mãe pela segunda vez, segundo os entendidos que se baseiam na ciência das ecografias e de calendários menstruais, e não no das luas (já passei pela mudança de duas e “desta é que é!”). Pois é, o meu segundo rapaz não quer saber da sabedoria popular e está a sentir-se bem no seu T0 com ar condicionado sempre na temperatura certa, a fazer o pino há 12 semanas e a dançar sapateado nas minhas costelas... para quê ter pressa com estas excelentes condições, certo?! Claro que, se ele não quiser escolher uma data a seu gosto, foi já escolhida uma à disponibilidade de terceiros, que ainda querem aproveitar férias, mesmo com um ar condicionado sem regulador automático...

Assim, achei por bem escrever-vos já, pois não sabemos qual o humor daquele que pode vir a agraciar-nos com a sua presença de forma não voluntária... quem sabe não gosta do Verão cá fora e, não sabendo falar, se manifeste com um choro mal disposto castrador de inspirações de escrita...!

Deixo a descrição da aventura materna na ilha verde para o próximo número, e ofereço ainda um resquício de Verão nas páginas outonais da nossa Inominável. Tinha-vos falado de festas a que ainda iria assistir, certo? E assim foi! Garanti até a alcunha carinhosa da minha cara-metade de “bucha techno”, depois de ter estado a dançar até madrugada ao ar livre, ao som de um DJ bem inspirado, confortável com a minha barriga enorme e devorando o calor de uma noite tropical, privando-me apenas de saltar junto com as centenas de pessoas que vibravam com a batida. A este DJ precedeu o Paulo Gonzo e, embora fosse um concerto de entrada livre, o recinto é fechado e toda a gente é revistada na entrada como forma de prevenção de desacatos estimulados pelo álcool inevitavelmente ingerido nestes eventos. E todas as saídas que vão dar à via rápida têm carros-patrulha para se certificarem de que os condutores são cool, embora grande parte dos festivaleiros dormissem já ali ao lado no parque de campismo, que fica sobrelotado nesta altura do ano.

A festa mais badalada foi em Ponta Delgada, intitulada “White Ocean” - ou “Festa Branca”, mas prefiro a versão inglesa. “Festa Branca” faz-me sempre pensar numa festa cheia de gente a aproveitar os prazeres proibidos de drogas ilegais, embora na verdade assim se chame por (quase) toda a gente ir vestida de branco. Cumpri a tradição com um dos poucos vestidos que ainda me servem, e lá fomos até à capital da ilha, apinhada de palcos (150 para ser precisa), bares e restaurantes a vibrar com música, roulotes de comes e bebes, imensos turistas bronzeados e a maioria embriagados, e pessoas pela rua fora a comerem onde calhava, com aquela descontração típica de quem não tem horas ou obrigações com que se preocupar. A noite bem quente, o mar sossegado, o cheiro a sal no ar, e aquela latente atmosfera de ilha tropical que seduz quem cá vem nesta época... Foi mais uma noite de música no pé e alegria no coração, onde não faltou o fogo-de-artifício!

 

Embora Ponta Delgada seja o centro de quase tudo na ilha, os festivais proliferam por todo o lado com cartazes ambiciosos, como é o caso da Ribeira Grande, que apostou em nomes internacionais no festival Monte Verde mas onde já não me atrevi a ir porque a afluência enorme era incompatível com a minha condição de rotunda humana com bexiga do tamanho de uma ervilha. Mas amigos que lá foram adoraram, o que me deixou o “bichinho” para o próximo ano... Ribeira Grande, para além de ser mais uma cidade da ilha, surpreendeu-me por uma característica que eu não imaginava por cá o que prova que, embora estejamos convencidos de que não temos ideias pré-concebidas, não é bem assim! Na Ribeira Grande existe uma grande comunidade gay, e não é nada invulgar vermos homens vestidos de mulher, e com mais empenho do que muitas! Certamente que nem todos são travestis, muitos estarão em processo de mudança de sexo, e outros tantos são simplesmente assumidos na sua tendência sexual mas confortáveis no seu género e na sua roupa masculina. Em Inglaterra era normalíssimo existir mais do que uma comunidade assim, mas não o esperava cá, talvez por ser uma ilha e as pessoas estarem mais expostas à crítica, natural num meio pequeno. Mas ainda bem que assim não é, e que as pessoas sentem a liberdade de viverem a sua vida e serem verdadeiras consigo mesmas!

Existe até mesmo uma ilha que é conhecida pela sua particularidade: São Jorge, a “ilha dos hippies”! Faz-me imaginar uma ilha com pessoas ao estilo rastafari, vivendo em comunas e envergando calças coloridas de linho, enquanto crianças correm descalças à sua volta, a música de Bob Marley no ar... Claro que não será nada disto, existirá talvez uma maior casualidade na maneira de estar das pessoas em geral, mas a grande magia das coisas reside em imaginá-las! E algumas inspiram-nos na vida real, como por exemplo o simples facto de existir um parque de merendas mesmo ao lado da minha casa e do caminho que desce até ao farol e onde está agora, durante o Verão, uma roulote onde se pode beber um café, comer uma sandes ou um bolo, beber uma cerveja ou comer um gelado. A este parque vem parar todo o tipo de pessoas de diferentes nacionalidades - a muitas das quais servimos de centro de informação turístico - com maneiras de estar e de reagir ao ambiente à volta bastante distintas. Há poucos dias estava um grupo que bem podia ter vindo da minha ilha imaginária, rastafaris a praticarem números circenses, rodeados de verde e azul, oferecendo-nos um espectáculo gratuito enquanto bebíamos o nosso café.

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Mas nem tudo no Paraíso é uma maravilha, e vivi uma experiência que me entristeceu bastante. Existe uma grande taxa de depressão e também de suicídios na ilha, e desde que existe a via rápida que liga a ilha quase de uma ponta à outra muitas pessoas desesperadas têm optado por parar o carro junto a uma das muitas pontes aqui do Nordeste, e saltar para aquilo que consideram ser a libertação do que as atormenta. E foi assim, num fim de dia em que vínhamos da Ribeira Grande, que nos deparámos com este tipo de situação: o carro estava parado com os quatro piscas ligados, e um jovem aparentemente pouco mais velho que o meu filho estava inclinado na barreira de segurança, com um sapato na mão e com os ombros e a cabeça descaídos como se carregasse neles todas as dores do mundo. Posso afirmar que senti o meu coração partir-se perante aquela imagem desoladora, tamanha tristeza a contrastar com a beleza da natureza...! Parámos o carro mais à frente e imediatamente ligámos para as autoridades. O meu filho, no seu fervor dos 20 anos, queria sair do carro e segurar no rapaz, mas a sua vontade foi refreada devido à minha condição de grávida (embora honestamente fosse também esse o meu impulso, o de tentar ir demover o jovem da sua intenção. Mas os 43 anos trazem alguma ponderação…). Muito pouco tempo depois passaram os bombeiros, numa resposta rápida e já habituada a estas ocorrências, infelizmente. Uma amiga nossa que é bombeira voluntária disse que ele não conseguiu, nesse dia, terminar com a sua vida. Mas dois dias depois tentou de novo... e não sabemos se o concretizou, mas com tamanha determinação conseguirá (ou conseguiu) levar a sua avante. O meu filho ficou a pensar nesta e noutras situações semelhantes, com um misto de revolta e tristeza, não entendendo a ausência da nossa intervenção física - pelo menos a do meu companheiro que, tendo já sido comandante de bombeiros e tendo resgatado cadáveres em vários cenários, em mar e em terra, mantém uma aparente frieza e auto-controle que um jovem ainda não consegue entender. Mas esta revolta fê-lo pensar que a prevenção devia começar em entender o porquê da taxa elevada de depressão na ilha, e que um estudo a fundo devia ser realizado. Aconselhei-o a arranjar uma forma activa de contribuir para uma possível solução, e a transformar a sua energia numa força positiva...!

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E assim me despeço, com esta reflexão que pode ser aplicada a vários aspectos da nossa existência... das festas à depressão falei-vos de temas opostos mas que fazem parte da vida, seja em que lugar do mundo for, até mesmo nos sítios a que chamam paraíso... Mas na próxima edição falarei de Vida e Esperança certamente, especialmente porque será também dedicada a uma época particularmente direccionada para as nossas melhores emoções. Mas, até chegar essa altura, desejo-vos um Outono inspirador!

 

Com amor, da ilha.

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Publicado em Inominável nº 16

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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(continuação)

Em relação a atendimento médico humano, dou por mim a comparar com a experiência em Inglaterra, de que também já vos falei; a nível de simpatia, humanismo e tempo de espera para o atendimento temo que fiquemos aquém, mas em termos de rigor nas análises e exames e na eficiência os pontos ficam do nosso lado. O ideal era a fusão das duas realidades, mas a ter de escolher prefiro a eficiência! A minha gravidez é vigiada no centro de saúde e no hospital, com umas caras mais simpáticas que outras, mas tenho ao meu dispor o acesso a todos os tratamentos e exames necessários, e também o esclarecimento de dúvidas, que são muitas, pois passados vinte anos as coisas são diferentes e eu sinto-me novamente mãe de primeira viagem! Felizmente não preciso de assistência especial, pois apesar dos incómodos inerentes a uma gravidez, estou saudável, e o meu rapazinho tem sido um “inquilino” muito bem comportado! O calor não tem sido nosso aliado, e sei agora ao fim de 43 anos de vida o que é ter pés inchados, ou “chispes”, como carinhosamente aqui por casa se referem aos meus pés outrora esguios e leves...

Outra comparação que acabei inevitavelmente por fazer entre os dois países foi a dos preços da roupa, especialmente a de criança, e confesso que a saudade aí bateu forte! Mas como tenho amizades e família em terras de Rei Artur, nada como encomendar umas quantas peças para o bebé, e também para mim, já que estamos ambos com um alto percentil de crescimento! Na verdade, pelo preço de um trapinho cá compro dois ou três lá, e ainda compensa os portes de envio... Uma opção aqui bastante utilizada é a compra de artigos em segunda mão, embora cá mesmo estes não saiam tão em conta. Mas, já munida da grande experiência que trouxe comigo, consegui excelentes negócios, entre eles destacando-se um berço em mogno, feio como tudo mas de qualidade, barato e já com colchão incluído, que eu personalizei com uma boa pintura e desenhos de motivos marinhos, ou não fosse o pai da criança um amante do mar!

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Concluindo: nesta vida tudo passa, os pés inchados e o Verão, do qual ainda irei aproveitar coisas boas certamente, como tenho feito até agora apesar do peso extra: umas braçadas nas piscinas naturais aqui perto de casa, rodeada de peixinhos que vêm com as ondas, almoços nos parques florestais, e passeios na marina...

Com a partida dos cagarros e a chegada do Outono, chegará também uma nova rotina – bem mais atarefada! – da qual vos falarei neste nosso espaço. Mas por agora despeço-me com carinho, sentindo-me redonda como uma rotunda enquanto vos teclo, e faço votos de um excelente resto de Verão, cheio de boas energias!

 

Com amor, da ilha

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Publicado em Inominável nº 15

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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(continuação)

Os estorninhos estão presentes durante todo o ano mas os cagarros, ave mais ou menos da envergadura da gaivota, chegam na Primavera e o seu canto é algo impossível de descrever em palavras e de difícil reprodução, pois o seu som quase se assemelha ao de um desenho animado. Neste momento em que vos escrevo isto. alguns deles estão a fazer voos rasantes junto à minha casa e parece que os ouço aqui na minha janela... é maravilhoso! Lembro-me de uma noite, já quente, em que o único som era o da sua canção de encantamento, e havia um luar maravilhoso no céu estrelado a reflectir-se no mar aqui mesmo em frente, que por sua vez reflectia a dança circular da luz do farol... a verdadeira festa da natureza!

A minha vida mudou bastante em menos de um ano; depois da mudança de casa já aqui referida, o meu filho concluiu uma formação que era dada a 40km daqui, o que nos obrigou diariamente até ao inicio do Verão a fazer 80km, e a esperar pacientemente por três horas que a aula acabasse, valendo-nos para o fim o bom tempo e a praia para passear. Não foi bom para a minha azia e enjoos constantes, que ainda tenho até hoje, e deixo aqui o agradecimento público a quem inventou os maravilhosos comprimidos que aliviam esta última maleita, e com os quais não fui abençoada vinte anos atrás! Mas felizmente concluímos esta etapa com sucesso, e que teve de ser feita com sacrifício devido ao facto de o sistema de transportes não ser de todo o ideal, inviabilizando a independência de quem não tem a carta de condução... portanto aqui fica um conselho para quem se queira aventurar como nós aqui: se não tem carta e carro, nem previsão para tal, mude-se para Ponta Delgada (se puder suportar as rendas exorbitantes), ou para a Ribeira Grande que também é cidade. A menos, claro, que queiram levar uma vida absolutamente zen e stress free, com pouca agitação! Portanto o próximo e óbvio passo para o meu filho será a carta de condução, a bem da sanidade da família toda!

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O princípio do Verão trouxe também uma nova mudança para nós: acabámos por adoptar uma cadela que encontrámos na beira de uma estrada, e na iminência de ser atropelada. Assim, veio para casa dentro de uma mochila uma bolinha de pêlo com menos de 1kg, que quase causou uma apoplexia à gata que nos tinha adoptado e pilhava toda a comida das redondezas (lembram-se dela?). A chegada da pequena cadela foi uma bênção e um susto, porque passados poucos dias começou a sofrer ataques de epilepsia, e quase morreu nas nossas mãos num cenário de partir o coração, alterando ainda mais a minha montanha-russa hormonal. Felizmente conseguiu ser tratada, reagiu bem, e de uma bolinha com 1kg passou a uma cadela enérgica e estouvada que já vai nos seus 7kgs. A veterinária foi eficiente e atenta, e os preços praticados aqui são muito mais baixos que no continente, surpresa agradável no meio da aflição! Nós tivemos de ser enfermeiros em casa, e consideramos a experiência das noites mal dormidas e dos dias agitados um treino prévio à chegada do bebé, que já tem uma amiga sem o saber. Estrela é o seu nome, gosta de colo ainda, e de vez em quando abraça a barriga que acolhe o membro mais novo da “matilha”... trazendo consigo uma energia feminina para equilibrar a família, que vai ser abençoada com mais um elemento masculino!

 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 15

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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Primeiro Verão na ilha, primeiro Verão que passo em estado de graça, que é como quem diz, grávida... e transtornada com este calor húmido! Eu sei, não parece o retrato idílico digno de quem mora no paraíso, mas até neste existem problemas de pés inchados e hormonas em polvorosa. Mas já lá vamos!

Verão nos Açores é sinónimo de muitas mais pessoas a circular, muitos carros alugados, e muitos cruzeiros – que trazem ainda mais gente – dando uma nova vida à vida insular. Os fins-de-semana têm outro sabor, nem que seja o de saborear uma francesinha ou um hamburguer proveniente de vacas que já foram felizes, numa das esplanadas da avenida de Ponta Delgada, ou até mesmo um gelado na marina. O mercado municipal fervilha, e lá vamos habitualmente comprar a fruta, comercializada pelo próprio produtor, um senhor com um talento natural para lidar com os clientes, oferecendo-me sempre uma peça de fruta para logo a seguir, como por magia e enquanto atende outro cliente, me estender um lenço de papel quando me encontro na fase final de degustação e me pergunto onde vou limpar as minhas mãos besuntadas de fruta da época. Legumes já pouco compro no mercado porque os vizinhos dão-me de tudo um pouco, desde alfaces até carne do porco caseiro, ofertas que retribuímos com o peixe que a minha cara-metade caça no fim-de-semana, nesta época em mais variedade, tendo eu predilecção até agora pelo lírio na grelha e pelos filetes de peixe-porco, fritos com farinha de milho e ovo. É o exercício da troca de géneros e do sentido de comunidade!

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Proliferam as festividades, com especial nota para as festas do Espírito Santo, onde servem sopa à população em mesas dispostas na rua, assim como carne, batatas e/ou inhame, legumes e enchidos, numa espécie de cozido que eu considero divinal. Quanto às sopas não fiquei fã, pelo menos em relação a esta de São Miguel – cada ilha tem uma forma diferente de as fazer – porque o caldo tem hortelã, que eu “farejo” à distância e cujo sabor não aprecio, e leva também pão e couves. Uma ressalva ao pão de milho, que é delicioso! Nestas festas e noutras é dada mais importância à comida que à bebida, e formam-se filas para comer a bela sandes do porco assado que ainda vai rodando no espeto. As marchas populares têm por cá também o seu lugar, ou não fôssemos todos portugueses na nossa essência. As festas que não são religiosas incluem sempre um cartaz com nomes conhecidos do panorama musical nacional e internacional – este ano Pedro Abrunhosa, Paulo Gonzo, Calema, James e James Arthur, que eu espero conseguir ver antes da estadia no hospital – e prolongam-se pelas ruas até às cinco da manhã com o estímulo de um DJ de serviço para miúdos e graúdos, basta haver a energia suficiente para estar presente até ao fim. A meteorologia ajuda bastante, uma vez que as noites são pouco mais frescas que os dias, proporcionando fantásticas noites de Verão. Existem também festas espontâneas, em que umas quantas pessoas que vivem na mesma rua decidem juntar-se e cozinhar pratos variados, convidando os vizinhos e confraternizando ao som da música da moda. Foi assim na minha rua o Santo António, nas mesas do miradouro com vista para o mar!

Mas nem só de festas se vive o Verão: este é marcado pela beleza natural da paisagem florida e pela migração de aves em época de procriação, oferecendo-nos um espectáculo visual. Aqui em frente à minha casa existe uma árvore que, ao fim do dia, é o palco de centenas de estorninhos que cantam a plenos pulmões. Os ramos cedem um pouco com tanto peso, voltando à sua forma original quando eles levantam voo numa debandada sincronizada, maravilhando-nos.

(continua)

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Publicado em Inominável nº 15

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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(continuação)

 

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O nosso hóspede deliciou-se com a gastronomia, tornando-se fã dos nossos pastéis e pataniscas de bacalhau, mas acima de tudo da tão usada massa de pimentão açoriana, com a qual quase tudo se tempera. Ele, adepto da versão mais picante, aplicava-a em tudo o que comia, de tal forma que eu deixei de me preocupar com os meus dotes de cozinheira, já que todos os pratos que ele comia acabavam pintalgados de vermelho, rectificando eventualmente qualquer potencial erro de tempero! Temi pelo tracto intestinal dele, mas sendo adepto da culinária indiana enquanto morava em Inglaterra, suponho que ganhou forte resistência a tudo quanto é picante e as suas consequências! Almoçámos também nos miradouros que por aqui abundam, onde éramos imediatamente rodeados pelos gatos que por ali proliferam, em busca de um snack ou algo mais, com uma paciência canina e rapidez felina.

 

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Finda a visita, lá foi ele com massa de pimentão bem acondicionada na mochila, e nós regressámos a uma rotina a três: eu à minha escrita dirigida a vós e não só, e também a alguns projectos de recuperação de móveis; o meu filho a frequentar uma formação enquanto se decide qual o futuro que quer seguir por estas novas paragens; e a minha cara-metade dividido entre o trabalho de polícia florestal e a sua paixão pelo mar... entre estas duas actividades ele traz sempre ofertas gentilmente feitas por alguns dos funcionários do serviço florestal para casa, tais como abóboras, alfaces e queijos de cabra caseiros... mas traz também de vez em quando histórias com as quais eu me delicio e inspiro.Têm a particularidade de serem reais e parecerem saídas de algum filme de comédia negra, e vou partilhá-las com vocês!

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Nem todas são daqui da ilha de São Miguel. Esta da qual vou falar em primeiro lugar ocorreu há uns anos na ilha do Corvo quando um homem, construtor civil vindo de uma outra ilha, achava graça lançar piropos às senhoras casadas daquelas paragens, o que não foi do agrado dos homens – que consideravam isso um insulto, fossem dirigidos às suas mulheres ou às dos vizinhos. Assim, lançaram-lhe um aviso no café que todos frequentavam, deixando claro que não tolerariam tal comportamento. O audacioso ignorou o aviso mantendo o comportamento, e foi avisado uma segunda vez, onde lhe foi aconselhado partir da ilha no próximo barco porque seria castigado pelo comportamento. Ficou ofendido, dizendo alto e bom som que a ele ninguém dava ordens! Castigo épico aplicado, e digno de um filme algures entre o sinistro e o cómico: foi decidido que o forasteiro iria partir no barco do dia seguinte e, para terem a certeza de que ele não o perdia nem se esquecia da lição, ataram-no a um poste no porto, todo peladinho, despido das roupas e da dignidade. Certamente que ele nunca mais lá pôs os pés e a líbido deve ter sofrido um abalo nos tempos seguintes! Parece-vos novelesco?

(continua)

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Publicado em Inominável nº 14

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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O tempo voa, e de repente já estamos no Verão! Por terras açorianas isso traduz-se em mais cor e movimento e festas pelas ruas. Cada vez mais vêem-se cruzeiros em Ponta Delgada, e poucos dias antes de vos escrever estiveram lá três atracados, o que fez com que fôssemos agraciados com a presença de 13 mil turistas num só dia. O sol a ajudar com a sua gloriosa aparição e os comerciantes a esfregarem as mãozinhas de contentes! O bom tempo traz muitas coisas boas, e o verde por aqui nunca foi tão verde, a começar pelos pastos e a acabar nas notas trazidas pelos veraneantes cheios de vontadinha de o gastar, trazendo uma nova dinâmica à economia regional.

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005.pngUm amigo nosso, dos tempos das Terras de Rei Artur, também contribuiu para as estatisticas do aumento do turismo que se verifica a cada ano que passa. É o mesmo amigo de quem aqui já falei, tendo sido o fotógrafo da nossa troca de votos em Glastonbury, lembram-se? Sim, foi há algum tempo, mais exactamente em Dezembro de 2016. Parece hoje em dia que já foi uma vida atrás... mas, se essa foi outra vida bem diferente, certas amizades mantiveram-se intactas e a deste amigo romeno foi um desses casos. Também ele deixando de viver em Inglaterra, optou por regressar ao seu país natal, com uma paragem pelo caminho: São Miguel! Teve algum azar com a metereologia, apanhou uma procissão de tempestades, depressões e afins, mas ainda foi a banhos na famosa Poça da Dona Beija, esse spa dos deuses em que pomos o rabiosque de molho em água naturalmente quente a 39 graus, em troca de apenas 4€, e com excelentes condições para além de uma paisagem sem preço. Levámo-lo também a conhecer o parque natural da Ribeira dos Caldeirões, um verdadeiro paraíso em vários tons de verde, com cascatas naturais, moinhos de água, fauna florestal rica e diversificada, espaço de merenda com churrasqueira e lavatórios (aliás como é habitual por toda a ilha), e onde nos abrigos das mesas ficam escritos a carvão os nomes e datas de quem por lá passa... Não faltam naturalmente a loja de souvenirs e o pequeno bar com uma esplanada deliciosa, onde podemos ouvir conversas em vários idiomas. É definitivamente, o meu parque florestal preferido!

(continua)

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Publicado em Inominável nº 14

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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(continuação)

No momento presente, com a minha mãe já de volta ao continente (com muita pena dela), fazemos passeios mais arrojados, por caminhos mais sinuosos e desafiantes, vantagens de viver com alguém que conhece os segredos da ilha e faz da natureza o seu ambiente de trabalho: percorri pontos tão altos que podemos ver o lado norte e sul da ilha, embrenhei-me na natureza no mais lindo parque florestal que já vi, e fui visitar o farol fazendo um caminho tão íngreme que a subida deve ser bastante semelhante a uma via sacra! Tenho também treinado o olho para ver as aves, como os estorninhos, que cobrem o telhado da minha casa - e cantam como se estivessem na audição do “The Voice” -, as corujas e as águias de asa redonda que por aqui abundam, e que nesta altura começam a mudar de comportamento, a prepararem-se para o ritual de acasalamento.

 

A aparição inusitada de animais já começa a ser corriqueira; um destes dias, estava eu a beber um café no terraço a aproveitar o sol, apareceu-me um pombo-correio identificado com a respectiva anilha. Não trazia nenhuma mensagem, mas suponho que estava cansado e achou que ali era um bom sítio para recuperar energias. Ficou no chão, curioso, e foi literalmente a andar para dentro da minha cozinha. Deu uma voltinha, observou tudo, e saiu pelas suas próprias patas, subindo um a um os degraus que levavam ao portão que gentilmente lhe foi aberto... e lá foi ele a caminhar e a aproveitar o sol de sábado à tarde! Excesso de confiança pombalina cheia de graça...

Tenho também, a nível gastronómico, provado uma maior variedade de peixe - embora haja uma época para determinadas espécies, tendo ainda muito para descobrir - o que me faz sentir exoticamente saudável, até que compro um pão alentejano (pão alentejano é pão alentejano!) e o despacho com uma boa camada de manteiga açoriana...

Fiquei a par de algumas tradições típicas de cá; uma delas é bastante curiosa, chama-se “o menino mija” e consiste em, na época das festas natalícias, irmos a casa dos vizinhos que aguardam visitas a qualquer momento, tendo bebida à disposição, tal como algo para comer. Assim nos aconteceu e acabámos por entrar na casa de um casal que eu nunca vira, apesar de vivermos relativamente próximos e os nossos maridos serem colegas de trabalho; de repente desfilavam bebidas e doces à minha frente...”coma e beba, esteja à vontade!”. O meu filho não se fez de rogado - não conhecer as pessoas era apenas um pormenor - mantendo a descontracção típica de adolescente permanentemente esfomeado. Já uma amiga minha, que passava uns dias de férias em nossa casa na altura, não conseguia disfarçar o espanto, nem o receio de parecer lambona/continental abusadora, até que lhe foi explicado que esta hospitalidade e naturalidade fazem mesmo parte da essência açoriana. Foram de uma hospitalidade enternecedora, e ainda trouxe para casa um saco de tangerinas tão doces como o licor que se tinha bebido. Assim me estreei na tradição, mas apenas como visita, não tendo sido anfitriã, até porque estava ocupada a fazer de guia turística para a minha hóspede.

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(Nota: foto dos romeiros retirada da página http://secretariadobiblico-sm.blogspot.pt)

Uma outra tradição é a dos romeiros na época da Páscoa: vários grupos constituídos por homens das mais diversas idades, incluindo bastante jovens, caminham quilómetros de distância, faça chuva ou sol, de cajado na mão e manto pelas costas, cantando as suas orações. É uma tradição tão séria que os romeiros têm direito a dispensa do trabalho pelos dias que forem necessários para cumprirem a sua missão. As vozes juntas têm uma excelente projecção, e de vez em quando ouvia-os a passar, dando-me a momentânea sensação de viver num lugar sem Tempo... A devoção está tão enraizada que a comunidade de emigrantes micaelenses no Canadá mantém viva a tradição, sendo transmitida para as novas gerações.

Entretanto a Primavera já chegou e haverá algo mais para descobrir! Assim como novidades da nossa vida na terra das vacas felizes, ilustradas com fotos mais floridas certamente! Aguardem o próximo número!

 

Com amor, da ilha.

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Publicado em Inominável nº 13

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

 

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Começo a escrever estas linhas ao som de assobios... mas não daqueles de cantarolar uma melodia engraçada e descontraída, não não... São assobios do vento que passa pelas frinchas das portas e janelas, a desvantagem de viver numa casa sem vizinhos do lado sul, com uma paisagem absolutamente maravilhosa... e exposta aos caprichos de um vento vindo desse quadrante, dando boleia a uma chuva sem piedade, que não nos permite pôr nem a ponta de uma unha do lado de fora da porta sem corrermos o risco de ficar sem ela! Quase me sinto a personagem feminina do “Monte dos Vendavais”, mas em modo menos poético porque ela não tinha de sair para ir à mercearia, ver o correio, pôr na rua o caixote da reciclagem, nem lutar contra umas portadas que não se queriam fechar... Aqui há montes, há vendavais, e neste momento uma depressão tropical - nome adequado de facto - pois é deprimente não poder sair de casa sem sentir que é uma ida não desejada ao ginásio para um treino de força.

Da mesma forma que o tempo aqui é generoso com as temperaturas, mesmo no Inverno, quando lhe dá para a má disposição não é para brincadeiras. Bem me avisaram que agora é que eu ia saber o que era vento... e é mesmo verdade! No entanto, prefiro isso às temperaturas gélidas que assolam a Europa...a meteorologia aqui por vezes sofre de alguma bipolaridade, mas ainda não endoideceu de todo! Não obstante o dia de hoje e outros semelhantes que dão o ar da sua graça de repente, temos sido abençoados com sol e temperaturas de Primavera. Esses momentos foram aproveitados para descobrir o (muito) que ainda há para descobrir. Enquanto tinha a visita materna fizemos o incontornável roteiro turístico pelas míticas lagoas e pelo mercado municipal, recheado de ananases regionais que, sem dúvida, têm uma outra doçura - o que acaba por ser uma desvantagem no sentido de que quando compramos um daqueles vulgarzitos vindos do Equador, e dos quais eu tanto gostava, agora não têm grande graça. Outra desvantagem é que estes são muito mais baratos que os da ilha, e de vez em quando lá temos que fazer uma opção pouco patriótica.

Tivemos também o fenómeno sísmico, mais de 300 abalos num dia em que foram sentidos poucos mais de 20. Nesse dia recebi bastantes telefonemas para saber se estava tudo bem, e foi assim que fiquei a saber do fenómeno, pois aqui não dão grande relevância a certos caprichos da natureza. Ia eu de carro a caminho de Ponta Delgada e nada sentira, nada ouvira, e as vacas continuavam deitadas e refasteladas, tranquilamente a ruminar a erva e – quem sabe? – alguns pensamentos sobre a actividade sísmica. Fui depois informada de que esta é de frequência diária e só muito raramente se faz sentir à superfície... acho bem! Agora que vim agraciar a ilha com a minha presença, acontecer um tsunami ou alguma má disposição vulcânica seria um péssimo sentido de humor por parte da Mãe Natureza!

(continua)

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Publicado em Inominável nº 13

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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Ao sabor de uma temperatura amena de Inverno vou escrever-vos sobre mais do que um assunto, onde se incluem curiosidades da vida do dia-a-dia, e também da vida animal... ou não estivesse eu nos Açores!

 

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Passou mais um Natal pelas nossas vidas. E sim, este foi mais um bem diferente, apesar de ter tido como habitual a presença materna (à beira dos 80 anos apanhou o gostinho de viajar). Aqui as coisas passam-se a um ritmo mais lento e menos consumista: as luzes de Natal ainda acendem de acordo com a tradição, a 8 de Dezembro, os presépios a embelezarem a natureza, sendo o mais atractivo o das furnas, imagens da bíblia envolvidas na bruma mística do fumo das caldeiras… e assim, respeitando os hábitos em muitos sítios já esquecidos, o Natal vive-se e sente-se na sua plenitude, sem o desgaste da antecipação desenfreada, técnica de marketing em época de alguns tostões a mais na carteira e um mais apurado sentido de generosidade. E de obrigação, muitas vezes! Quem nunca ofereceu uma prenda porque sentiu a obrigatoriedade da retribuição? Pois esse mal aqui não me assistiu, embora já não o praticasse há muitos natais.

 

Desde que cheguei não passei apenas pelo Natal: foi a descoberta de um novo mundo, resumido a uma ilha que é mais do que isso, sempre atenta ao mundo lá fora, e foi também uma mudança inesperada de casa. Mas uma coisa de cada vez!

 

Comecemos pelas pessoas: afáveis, conversadoras e acolhedoras, dispostas a ajudar. Sorrisos abertos e um jeito de falar meio “afrancesado”, mas que afinal compreendo perfeitamente. Bem, excepto uma pessoa com quem já convivi... dei por mim à mesa de um café a pôr a minha concentração à prova numa tentativa de não me perder no contexto da conversa. Felizmente foi caso único! E por todo o lado as pessoas estão dispostas a conversar, dão o bom dia na rua, e são muito curiosos ao verem um carro com o volante à direita. Mas sem maldade, de uma forma quase ingénua, já chegaram a vir ter connosco a perguntar de onde vinha o carro; se tens dúvidas, pergunta! Parece ser o lema aqui, o que acho bem pois não há margem para mal entendidos.

 

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Vivo numa vila, e de início o meu corpo e mente entraram em ressaca: descobri que era viciada em stress, horários e correrias!

 

Incríveis as coisas que descobrimos sobre nós mesmos quando não temos de nos dispersar em futilidades e temos realmente tempo para desfrutar a vida... e com qualidade! Claro que, como em todas as ressacas, tive dias mais difíceis. Mas não duraram muito, primeiro porque não tenho o hábito nem a paciência para isso. E segundo, porque tudo o que me rodeia não o permitiu. A energia da natureza derruba as resistências que trazemos connosco. A presença do mar mesmo em frente a nós limpa a alma e qualquer negatividade, por mais antiga que seja. A presença do verde, dos tantos e tão intensos tons de verde, da vida animal, da força da Terra e do Mar que se encontram numa presença constante... Passada a fase inicial, a curiosidade aguçou-se mais em relação à forma de estar na vida aqui pela ilha. De forma geral, o respeito pela natureza é bastante consciente, pois dela depende a maior parte das pessoas. Por exemplo, quando o anúncio publicitário fala em vacas felizes, é mesmo verdade! Vivem livres, e têm muito mais particularidades que aquelas que conhecemos (o que no meu caso era quase nada): sabiam que viram o traseiro para a chuva? Se queremos saber a direcção dela antes de começar a cair, é só observá-las; e elas deitam-se somente em terreno inclinado, porque se ficarem de patas para cima transformam-se numa espécie de tartaruga, não se viram para cima...? Ou que são muito territoriais e mazinhas umas para as outras? Se uma sentir o seu espaço ameaçado empurra a vizinha, nem que ela caia de um penhasco abaixo, como já aconteceu! Vida mais fácil é a do touro, que tem como missão de vida espalhar a sua semente, mas não pensem que é pêra doce! Certo Verão, um belo exemplar pertencente aos serviços florestais teve de cobrir dezenas e dezenas de vacas: missão impossível. Ao fim de dois meses estava a cair para o lado, magro como um cão que não era! Há quem quase morra por falta de amor, mas este não foi o caso!

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Bem, mas curiosidades à parte, voltemos aos seres humanos e ao seu estilo de vida. Socializar aqui é um pouco diferente. É uma questão de conhecer alguém e haver uma química, a chama de uma potencial amizade. Aí somos acolhidos no grupo e convidados para qualquer coisa, desde uma reunião de amigos a um simples café. E então inicia-se a bola de neve, e passamos a ter acesso a uma série de actividades que nos poderiam passar ao lado. Assim, a nossa primeira passagem de ano por estas terras vai ser na companhia de amizades que por aqui florescem! No aspecto prático, há coisas que me deliciam, como por exemplo ter de manhã o pão na porta, saudosas carcaças estaladiças devoradas por vezes com algum sentimento de culpa e um olhar de esguelha para o espelho. Fornecemo-nos de batatas caseiras que um senhor vende numa localidade perto, 20 kg de bom produto por 6€, basta lá ir bater à porta sem hora marcada e ir às compras no quintal das traseiras. Com os ovos a mesma coisa, já aqui na casa da vizinha, uma dúzia de ovos caseiros, numerados com um marcador para se saber a ordem da recolha, por apenas 1€... para fazer um negócio aqui basta garantir a qualidade do produto e passar a palavra, que os clientes vêm ter connosco! Passa a carrinha da carne, apitando à porta, onde nos fornecemos de deliciosos bifes de vaca, a carrinha das frutas e legumes, e também a do peixe, apanhado horas antes. Claro que fazemos as compras semanais no hipermercado do centro comercial em Ponta Delgada, mas durante a semana para uma coisa ou outra vamos aos minimercados perto de casa, o que serve de pretexto para um passeio com uma vista maravilhosa.

 

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Fui abençoada com uma paisagem deslumbrante ao fazer a mudança de casa, mudança esta forçada pela intenção de venda do senhorio, mas que se veio a revelar a melhor coisa que nos aconteceu, pois para além da casa em si ser melhor em termos de espaço, arrumação e equipamento, está virada para o mar, assim como também para as montanhas, oferecendo-nos todos os dias o espectáculo inigualável do nascer do sol. De noite podemos ver a luz circular do farol mais abaixo, e enquanto bebo o meu café na varanda e assisto a tudo isto, de noite ou de dia, sinto-me em casa...

 

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No centro da vila naturalmente existem as suas particularidades: a senhora que fala sozinha e tem uma relação estreita com o vinho de temperar a carne, embora não me pareça que cozinhe grande coisa; a loja chinesa, cujos proprietários são, naturalmente, um casal de chineses, mas que falam correctamente o português com um sotaque açoriano; o senhor Padre, que mais parece o presidente da Junta, pois está envolvido em imensas actividades que nada têm a ver com a missa, sendo inclusivamente o director da escola profissional; as muitas lojinhas que vendem de tudo um pouco, os “cafés atascados” onde se reúnem os mais idosos, normalmente à porta do estabelecimento, e os cafés onde vai a malta mais nova e a malta assim-assim. Eu já faço parte deste último grupo (embora os 40 sejam os novos 30!), e vou a um estabelecimento virado para o mar, com uma esplanada maravilhosa e todo envidraçado, mas onde abunda o calor humano e a boa disposição diária; a farmácia cheia de produtos modernos expostos nas prateleiras antigas, e um centro de saúde com capacidade para internamentos, oferecendo um serviço a que eu não estava habituada no continente, nem sequer em Inglaterra...

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Ouvi já dizer que no Verão a vila fica sobrelotada com tanta afluência turística, e acho isso mais que natural, porque mesmo em época baixa vemo-los de mochila às costas de um lado para o outro, o que nos permite treinar o inglês quando nos abordam!

 

Por enquanto vou descobrindo o que me rodeia, e ainda tanto há para ver! Por todo o lado existem miradouros e parques naturais com zona de merendas, onde temos à disposição mesas, bancos e churrasqueiras com lenha.

  

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Casas-de-banho existem até nos sítios mais improváveis, e sempre impecavelmente limpas! A reciclagem é uma coisa comum aqui, é recolhida porta-a-porta pelos funcionários da Junta de Freguesia, mas também aplicada em pequenos pormenores: por exemplo, muitos pneus pintados fazem de canteiros, e de árvores que entretanto morrem fazem esculturas lindas, como podemos ver na lagoa das furnas. 

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Visitei recentemente a fábrica de chá Gorreana, pois aqui é o único sítio da Europa a produzir chá, e fiquei surpreendida, pois para além de fazermos a visita ao museu da fábrica é-nos oferecido chá na loja, onde vendem as típicas lembranças dos Açores, café, pastelaria, gelados, etc. É um ambiente intimista e relaxante, com uma vista privilegiada para os imensos campos de cultivo. Estou desejosa de lá voltar num bom dia de Inverno que aqui, até ao fim de 2017, ainda não se fez sentir, rondando a temperatura entre os 19 graus de dia e os 17 durante a noite. Na antevéspera de Natal os homens cá de casa andavam de t-shirt e óculos escuros! Eu não chego a tanto, não dispensando a malha típica da meia-estação, que é o que temos de momento por cá...

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Que venha o verdadeiro Inverno e as novas experiências deste novo ano tão recente, que eu cá estarei de caneta em riste para tudo vos contar!

 

Com amor, da ilha.

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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