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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 29.03.18

Por terras nascidas do mar | Vacas, Curiosidades, e o Inverno que não chega

 

Ao sabor de uma temperatura amena de Inverno vou escrever-vos sobre mais do que um assunto, onde se incluem curiosidades da vida do dia-a-dia, e também da vida animal... ou não estivesse eu nos Açores!

 

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Passou mais um Natal pelas nossas vidas. E sim, este foi mais um bem diferente, apesar de ter tido como habitual a presença materna (à beira dos 80 anos apanhou o gostinho de viajar). Aqui as coisas passam-se a um ritmo mais lento e menos consumista: as luzes de Natal ainda acendem de acordo com a tradição, a 8 de Dezembro, os presépios a embelezarem a natureza, sendo o mais atractivo o das furnas, imagens da bíblia envolvidas na bruma mística do fumo das caldeiras… e assim, respeitando os hábitos em muitos sítios já esquecidos, o Natal vive-se e sente-se na sua plenitude, sem o desgaste da antecipação desenfreada, técnica de marketing em época de alguns tostões a mais na carteira e um mais apurado sentido de generosidade. E de obrigação, muitas vezes! Quem nunca ofereceu uma prenda porque sentiu a obrigatoriedade da retribuição? Pois esse mal aqui não me assistiu, embora já não o praticasse há muitos natais.

 

Desde que cheguei não passei apenas pelo Natal: foi a descoberta de um novo mundo, resumido a uma ilha que é mais do que isso, sempre atenta ao mundo lá fora, e foi também uma mudança inesperada de casa. Mas uma coisa de cada vez!

 

Comecemos pelas pessoas: afáveis, conversadoras e acolhedoras, dispostas a ajudar. Sorrisos abertos e um jeito de falar meio “afrancesado”, mas que afinal compreendo perfeitamente. Bem, excepto uma pessoa com quem já convivi... dei por mim à mesa de um café a pôr a minha concentração à prova numa tentativa de não me perder no contexto da conversa. Felizmente foi caso único! E por todo o lado as pessoas estão dispostas a conversar, dão o bom dia na rua, e são muito curiosos ao verem um carro com o volante à direita. Mas sem maldade, de uma forma quase ingénua, já chegaram a vir ter connosco a perguntar de onde vinha o carro; se tens dúvidas, pergunta! Parece ser o lema aqui, o que acho bem pois não há margem para mal entendidos.

 

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Vivo numa vila, e de início o meu corpo e mente entraram em ressaca: descobri que era viciada em stress, horários e correrias!

 

Incríveis as coisas que descobrimos sobre nós mesmos quando não temos de nos dispersar em futilidades e temos realmente tempo para desfrutar a vida... e com qualidade! Claro que, como em todas as ressacas, tive dias mais difíceis. Mas não duraram muito, primeiro porque não tenho o hábito nem a paciência para isso. E segundo, porque tudo o que me rodeia não o permitiu. A energia da natureza derruba as resistências que trazemos connosco. A presença do mar mesmo em frente a nós limpa a alma e qualquer negatividade, por mais antiga que seja. A presença do verde, dos tantos e tão intensos tons de verde, da vida animal, da força da Terra e do Mar que se encontram numa presença constante... Passada a fase inicial, a curiosidade aguçou-se mais em relação à forma de estar na vida aqui pela ilha. De forma geral, o respeito pela natureza é bastante consciente, pois dela depende a maior parte das pessoas. Por exemplo, quando o anúncio publicitário fala em vacas felizes, é mesmo verdade! Vivem livres, e têm muito mais particularidades que aquelas que conhecemos (o que no meu caso era quase nada): sabiam que viram o traseiro para a chuva? Se queremos saber a direcção dela antes de começar a cair, é só observá-las; e elas deitam-se somente em terreno inclinado, porque se ficarem de patas para cima transformam-se numa espécie de tartaruga, não se viram para cima...? Ou que são muito territoriais e mazinhas umas para as outras? Se uma sentir o seu espaço ameaçado empurra a vizinha, nem que ela caia de um penhasco abaixo, como já aconteceu! Vida mais fácil é a do touro, que tem como missão de vida espalhar a sua semente, mas não pensem que é pêra doce! Certo Verão, um belo exemplar pertencente aos serviços florestais teve de cobrir dezenas e dezenas de vacas: missão impossível. Ao fim de dois meses estava a cair para o lado, magro como um cão que não era! Há quem quase morra por falta de amor, mas este não foi o caso!

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Bem, mas curiosidades à parte, voltemos aos seres humanos e ao seu estilo de vida. Socializar aqui é um pouco diferente. É uma questão de conhecer alguém e haver uma química, a chama de uma potencial amizade. Aí somos acolhidos no grupo e convidados para qualquer coisa, desde uma reunião de amigos a um simples café. E então inicia-se a bola de neve, e passamos a ter acesso a uma série de actividades que nos poderiam passar ao lado. Assim, a nossa primeira passagem de ano por estas terras vai ser na companhia de amizades que por aqui florescem! No aspecto prático, há coisas que me deliciam, como por exemplo ter de manhã o pão na porta, saudosas carcaças estaladiças devoradas por vezes com algum sentimento de culpa e um olhar de esguelha para o espelho. Fornecemo-nos de batatas caseiras que um senhor vende numa localidade perto, 20 kg de bom produto por 6€, basta lá ir bater à porta sem hora marcada e ir às compras no quintal das traseiras. Com os ovos a mesma coisa, já aqui na casa da vizinha, uma dúzia de ovos caseiros, numerados com um marcador para se saber a ordem da recolha, por apenas 1€... para fazer um negócio aqui basta garantir a qualidade do produto e passar a palavra, que os clientes vêm ter connosco! Passa a carrinha da carne, apitando à porta, onde nos fornecemos de deliciosos bifes de vaca, a carrinha das frutas e legumes, e também a do peixe, apanhado horas antes. Claro que fazemos as compras semanais no hipermercado do centro comercial em Ponta Delgada, mas durante a semana para uma coisa ou outra vamos aos minimercados perto de casa, o que serve de pretexto para um passeio com uma vista maravilhosa.

 

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Fui abençoada com uma paisagem deslumbrante ao fazer a mudança de casa, mudança esta forçada pela intenção de venda do senhorio, mas que se veio a revelar a melhor coisa que nos aconteceu, pois para além da casa em si ser melhor em termos de espaço, arrumação e equipamento, está virada para o mar, assim como também para as montanhas, oferecendo-nos todos os dias o espectáculo inigualável do nascer do sol. De noite podemos ver a luz circular do farol mais abaixo, e enquanto bebo o meu café na varanda e assisto a tudo isto, de noite ou de dia, sinto-me em casa...

 

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No centro da vila naturalmente existem as suas particularidades: a senhora que fala sozinha e tem uma relação estreita com o vinho de temperar a carne, embora não me pareça que cozinhe grande coisa; a loja chinesa, cujos proprietários são, naturalmente, um casal de chineses, mas que falam correctamente o português com um sotaque açoriano; o senhor Padre, que mais parece o presidente da Junta, pois está envolvido em imensas actividades que nada têm a ver com a missa, sendo inclusivamente o director da escola profissional; as muitas lojinhas que vendem de tudo um pouco, os “cafés atascados” onde se reúnem os mais idosos, normalmente à porta do estabelecimento, e os cafés onde vai a malta mais nova e a malta assim-assim. Eu já faço parte deste último grupo (embora os 40 sejam os novos 30!), e vou a um estabelecimento virado para o mar, com uma esplanada maravilhosa e todo envidraçado, mas onde abunda o calor humano e a boa disposição diária; a farmácia cheia de produtos modernos expostos nas prateleiras antigas, e um centro de saúde com capacidade para internamentos, oferecendo um serviço a que eu não estava habituada no continente, nem sequer em Inglaterra...

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Ouvi já dizer que no Verão a vila fica sobrelotada com tanta afluência turística, e acho isso mais que natural, porque mesmo em época baixa vemo-los de mochila às costas de um lado para o outro, o que nos permite treinar o inglês quando nos abordam!

 

Por enquanto vou descobrindo o que me rodeia, e ainda tanto há para ver! Por todo o lado existem miradouros e parques naturais com zona de merendas, onde temos à disposição mesas, bancos e churrasqueiras com lenha.

  

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Casas-de-banho existem até nos sítios mais improváveis, e sempre impecavelmente limpas! A reciclagem é uma coisa comum aqui, é recolhida porta-a-porta pelos funcionários da Junta de Freguesia, mas também aplicada em pequenos pormenores: por exemplo, muitos pneus pintados fazem de canteiros, e de árvores que entretanto morrem fazem esculturas lindas, como podemos ver na lagoa das furnas. 

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Visitei recentemente a fábrica de chá Gorreana, pois aqui é o único sítio da Europa a produzir chá, e fiquei surpreendida, pois para além de fazermos a visita ao museu da fábrica é-nos oferecido chá na loja, onde vendem as típicas lembranças dos Açores, café, pastelaria, gelados, etc. É um ambiente intimista e relaxante, com uma vista privilegiada para os imensos campos de cultivo. Estou desejosa de lá voltar num bom dia de Inverno que aqui, até ao fim de 2017, ainda não se fez sentir, rondando a temperatura entre os 19 graus de dia e os 17 durante a noite. Na antevéspera de Natal os homens cá de casa andavam de t-shirt e óculos escuros! Eu não chego a tanto, não dispensando a malha típica da meia-estação, que é o que temos de momento por cá...

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Que venha o verdadeiro Inverno e as novas experiências deste novo ano tão recente, que eu cá estarei de caneta em riste para tudo vos contar!

 

Com amor, da ilha.

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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