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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 04.07.18

Por terras nascidas do mar | Histórias de touros sem cornos e festas tradicionais #3

(continuação)

E se eu vos contar que um homem, numa localidade aqui de São Miguel, decidiu assaltar um banco na sua área de residência? Ensaiou o assalto, entrando no banco todos os dias e deixando o seu carro estacionado à porta, criando uma rotina já de si pouco subtil. Até que chegou o dia em que se sentiu preparado e, de acordo com as regras da etiqueta do assalto bancário, entrou no edifício de rosto tapado com uma meia e de caçadeira na mão, deixando o carro – o seu carro de uso diário, aquele com que fazia os ensaios de assalto – à porta, de motor ligado. Tudo bem planeado não fosse o facto de ele coxear de uma perna... e ser o único coxo da zona a conduzir aquele carro! Quando fugiu, na sua corrida hesitante, as pessoas surpreendidas exclamavam “Olha o coxo!”, e foi facilmente capturado pelas autoridades ao fim de umas horas. Se mau é o cego que não quer ver, pior ainda é o coxo que não se manca...

Por fim, uma outra história curiosa é a de um gigante gentil, com força de Hércules. Trabalha com o pai no negócio das vacas, na ilha das Flores, e numa das vezes em que faziam a muda de gado de uma terra para a outra o pai deu-lhe a indicação de não deixar passar o boi, que estava em modo teimoso. Não obstante os seus esforços, o animal levou a sua avante e o pai, atrapalhado, perguntou-lhe “Não te disse para segurares o boi desse por onde desse?!”. E o gigante gentil respondeu: “O boi passou, mas os cornos ficaram!”. Ou seja, segurou o animal com tal força pelos cornos que ficou com eles nas mãos! Isto provou a força daquele homem e deu certamente uma dor de cabeça colossal ao boi durante os dias seguintes! Outro dos feitos deste Hércules açoriano foi o de levantar uma garrafa de gás com os dedos mindinhos, um de cada lado... não sei se é do leite ou da carne da vaca,mas seja aquilo que for que ele come ou bebe devia ser bem explorado!

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São histórias assim que marcam as particularidades desta terra feita de caprichos do vento, de gente voluntariosa habituada a intempéries e tendo na sua memória cultural as invasões e pirataria de que tinham de ser defender em tempos idos, e com tradições bem enraízadas e ainda vivas. Brevemente começam por aqui as festividades religiosas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, onde em cada freguesia é feita sopa e carne assada para distribuir gratuitamente por todas as pessoas que vão à festa. Com o aumento do turismo não sei se não vão começar a cobrar pelo prato, porque como sabemos mudam-se os tempos e as vontades, e a 010.pngadaptação é o trunfo do sobrevivente. Seja como for, os residentes têm sempre mais vantagens, e eu vou conhecê-las em primeira mão este ano. Das muitas festividades que tenciono assistir aguardo especialmente a da Ribeira Quente, localidade linda a fazer lembrar Sesimbra. É conhecida como Festa do Chicharro, pois este nobre peixe será pescado, assado e distribuído por toda a gente, enquanto se assiste ao festival de música já ali perto da praia. O ano passado foi frequentado por 12 mil pessoas, número constituído pelos locais, emigrantes com saudades de casa e, claro, turistas! Este ano vou contribuir também com dois pézinhos de dança e chicharro pela mão!

 

Brevemente regressarei para falar um pouco mais de um Verão que irá ser memorável para mim e para a minha familia, pois estas terras feitas de verde e mar abençoaram-nos com a promessa de uma nova vida que nos irá enriquecer em Agosto, ajudando a sarar feridas que vieram connosco na bagagem!

Até lá, aproveitem a chegada do Verão que eu cá estarei, como é habitual, para vos contar as novidades!

Com amor, da ilha.

 

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Publicado em Inominável nº 14

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

 

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