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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 03.07.18

Por terras nascidas do mar | Histórias de touros sem cornos e festas tradicionais #2

(continuação)

 

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O nosso hóspede deliciou-se com a gastronomia, tornando-se fã dos nossos pastéis e pataniscas de bacalhau, mas acima de tudo da tão usada massa de pimentão açoriana, com a qual quase tudo se tempera. Ele, adepto da versão mais picante, aplicava-a em tudo o que comia, de tal forma que eu deixei de me preocupar com os meus dotes de cozinheira, já que todos os pratos que ele comia acabavam pintalgados de vermelho, rectificando eventualmente qualquer potencial erro de tempero! Temi pelo tracto intestinal dele, mas sendo adepto da culinária indiana enquanto morava em Inglaterra, suponho que ganhou forte resistência a tudo quanto é picante e as suas consequências! Almoçámos também nos miradouros que por aqui abundam, onde éramos imediatamente rodeados pelos gatos que por ali proliferam, em busca de um snack ou algo mais, com uma paciência canina e rapidez felina.

 

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Finda a visita, lá foi ele com massa de pimentão bem acondicionada na mochila, e nós regressámos a uma rotina a três: eu à minha escrita dirigida a vós e não só, e também a alguns projectos de recuperação de móveis; o meu filho a frequentar uma formação enquanto se decide qual o futuro que quer seguir por estas novas paragens; e a minha cara-metade dividido entre o trabalho de polícia florestal e a sua paixão pelo mar... entre estas duas actividades ele traz sempre ofertas gentilmente feitas por alguns dos funcionários do serviço florestal para casa, tais como abóboras, alfaces e queijos de cabra caseiros... mas traz também de vez em quando histórias com as quais eu me delicio e inspiro.Têm a particularidade de serem reais e parecerem saídas de algum filme de comédia negra, e vou partilhá-las com vocês!

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Nem todas são daqui da ilha de São Miguel. Esta da qual vou falar em primeiro lugar ocorreu há uns anos na ilha do Corvo quando um homem, construtor civil vindo de uma outra ilha, achava graça lançar piropos às senhoras casadas daquelas paragens, o que não foi do agrado dos homens – que consideravam isso um insulto, fossem dirigidos às suas mulheres ou às dos vizinhos. Assim, lançaram-lhe um aviso no café que todos frequentavam, deixando claro que não tolerariam tal comportamento. O audacioso ignorou o aviso mantendo o comportamento, e foi avisado uma segunda vez, onde lhe foi aconselhado partir da ilha no próximo barco porque seria castigado pelo comportamento. Ficou ofendido, dizendo alto e bom som que a ele ninguém dava ordens! Castigo épico aplicado, e digno de um filme algures entre o sinistro e o cómico: foi decidido que o forasteiro iria partir no barco do dia seguinte e, para terem a certeza de que ele não o perdia nem se esquecia da lição, ataram-no a um poste no porto, todo peladinho, despido das roupas e da dignidade. Certamente que ele nunca mais lá pôs os pés e a líbido deve ter sofrido um abalo nos tempos seguintes! Parece-vos novelesco?

(continua)

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Publicado em Inominável nº 14

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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