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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 05.09.18

Por terras nascidas do mar | Comparações inevitáveis e montanha-russa hormonal #1

Primeiro Verão na ilha, primeiro Verão que passo em estado de graça, que é como quem diz, grávida... e transtornada com este calor húmido! Eu sei, não parece o retrato idílico digno de quem mora no paraíso, mas até neste existem problemas de pés inchados e hormonas em polvorosa. Mas já lá vamos!

Verão nos Açores é sinónimo de muitas mais pessoas a circular, muitos carros alugados, e muitos cruzeiros – que trazem ainda mais gente – dando uma nova vida à vida insular. Os fins-de-semana têm outro sabor, nem que seja o de saborear uma francesinha ou um hamburguer proveniente de vacas que já foram felizes, numa das esplanadas da avenida de Ponta Delgada, ou até mesmo um gelado na marina. O mercado municipal fervilha, e lá vamos habitualmente comprar a fruta, comercializada pelo próprio produtor, um senhor com um talento natural para lidar com os clientes, oferecendo-me sempre uma peça de fruta para logo a seguir, como por magia e enquanto atende outro cliente, me estender um lenço de papel quando me encontro na fase final de degustação e me pergunto onde vou limpar as minhas mãos besuntadas de fruta da época. Legumes já pouco compro no mercado porque os vizinhos dão-me de tudo um pouco, desde alfaces até carne do porco caseiro, ofertas que retribuímos com o peixe que a minha cara-metade caça no fim-de-semana, nesta época em mais variedade, tendo eu predilecção até agora pelo lírio na grelha e pelos filetes de peixe-porco, fritos com farinha de milho e ovo. É o exercício da troca de géneros e do sentido de comunidade!

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Proliferam as festividades, com especial nota para as festas do Espírito Santo, onde servem sopa à população em mesas dispostas na rua, assim como carne, batatas e/ou inhame, legumes e enchidos, numa espécie de cozido que eu considero divinal. Quanto às sopas não fiquei fã, pelo menos em relação a esta de São Miguel – cada ilha tem uma forma diferente de as fazer – porque o caldo tem hortelã, que eu “farejo” à distância e cujo sabor não aprecio, e leva também pão e couves. Uma ressalva ao pão de milho, que é delicioso! Nestas festas e noutras é dada mais importância à comida que à bebida, e formam-se filas para comer a bela sandes do porco assado que ainda vai rodando no espeto. As marchas populares têm por cá também o seu lugar, ou não fôssemos todos portugueses na nossa essência. As festas que não são religiosas incluem sempre um cartaz com nomes conhecidos do panorama musical nacional e internacional – este ano Pedro Abrunhosa, Paulo Gonzo, Calema, James e James Arthur, que eu espero conseguir ver antes da estadia no hospital – e prolongam-se pelas ruas até às cinco da manhã com o estímulo de um DJ de serviço para miúdos e graúdos, basta haver a energia suficiente para estar presente até ao fim. A meteorologia ajuda bastante, uma vez que as noites são pouco mais frescas que os dias, proporcionando fantásticas noites de Verão. Existem também festas espontâneas, em que umas quantas pessoas que vivem na mesma rua decidem juntar-se e cozinhar pratos variados, convidando os vizinhos e confraternizando ao som da música da moda. Foi assim na minha rua o Santo António, nas mesas do miradouro com vista para o mar!

Mas nem só de festas se vive o Verão: este é marcado pela beleza natural da paisagem florida e pela migração de aves em época de procriação, oferecendo-nos um espectáculo visual. Aqui em frente à minha casa existe uma árvore que, ao fim do dia, é o palco de centenas de estorninhos que cantam a plenos pulmões. Os ramos cedem um pouco com tanto peso, voltando à sua forma original quando eles levantam voo numa debandada sincronizada, maravilhando-nos.

(continua)

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Publicado em Inominável nº 15

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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