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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 16.02.18

Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

"I guess my point is, in this day and age, you can see the respect women have from men". Palavras de Nancy Lieberman, primeira mulher a treinar uma equipa profissional de basquetebol nos EUA. Referia-se aos cada vez mais constantes elogios às ligas desportivas femininas. E tem razão. Sobretudo quem está dentro do mundo do desporto percebe a enorme evolução que tem havido nas competições e na qualidade das equipas e dos valores individuais femininos. E ainda assim, mesmo em quem representa esse respeito, continua a haver uma aura de distanciamento. Elas jogam, literalmente, noutra liga - e não pode haver misturas. O desporto "a sério" é para os homens.

 

A DIFERENÇA DE FORÇA

O argumento principal continua a ser o de que os homens simplesmente são mais capazes fisicamente do que as mulheres. E isso é verdade, mas é verdade em média. Pablo Aimar, um dos jogadores mais influentes de sempre no Benfica e um dos mais bonitos de ver jogar também, mede 1,70 m e pesa 60 kg. O Neymar tem 1,75 m e pesa 68 kg, o Messi 1,70 m e 72 kg. Todos nós conhecemos mulheres com uma capacidade física superior.

 

Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

Pam Reed, Badwater Ultramarathon

 

Talvez uma mulher não consiga jogar na linha de uma equipa de futebol americano (em média, um jogador de linha da NFL mede 1,93 m e pesa 140 kg), mas isso não quer dizer que não possa jogar futebol americano. Muitos treinadores da NFL já disseram que as mulheres podem jogar como kickers (cuja única função é chutar a bola) mas com certeza que existem mulheres com capacidade física para aguentar - e dar - umas valentes porradas noutras posições. Basta ver um jogo da Legends Football League, liga feminina principal do desporto (incrivelmente chamada de Lingerie Football League quando foi fundada, em 2009, nome que foi alterado quatro anos depois).

 

Os atletas paralímpicos têm questões físicas que perturbam a prática de certas modalidades, e no entanto ninguém pensaria em proibi-los de participar nas ligas principais. Vejamos: seria como proibir atletas brancos de participar nas provas de velocidade ou de fundo do atletismo porque as suas capacidades físicas são menores, em média, que as dos atletas negros, ou os atletas negros de participarem nas provas de natação e ciclismo porque são piores que os atletas brancos. Been there, done that.

 

AS DIFERENÇAS SEM JUSTIFICAÇÃO

Se a principal razão para segregar homens e mulheres no desporto tem a ver com a capacidade do corpo, por que razão se separam rapazes e raparigas muito antes de essas diferenças se começarem a sentir? Nos EUA, uma rapariga de 12 anos num torneio sancionado de golfe joga 9 buracos; um rapaz da mesma idade joga 18. E como explicar a existência de ligas separadas em desportos onde o poderio físico não interessa para nada? Porque raio existe uma liga para mulheres e outra para homens no bilhar, ou no xadrez? Jogos como o poker, jogos de cartas e videojogos são historicamente competições mistas, mas devido à vontade de serem reconhecidos como desportos a sério, começaram também a segregar géneros. Em 2014, no Campeonato do Mundo organizado pela International e-Sports Federation, houve pela primeira vez uma separação entre competições masculinas e femininas, uma alteração que os membros da IeSF defendiam ser pedida pelas autoridades internacionais, para que a competição de e-Sports fosse reconhecida como qualquer outro desporto.

 

"É UMA QUESTÃO DE IGUALDADE DE OPORTUNIDADES"

A outra razão que se costuma apontar é que se misturarmos homens e mulheres nas mesmas ligas, uma mulher nunca poderá aspirar a vencer um Grand Slam no ténis, por exemplo, ou a Volta à França. No entanto, vetar as actuais ligas masculinas às mulheres também é igual a dizer a qualquer rapariga que comece um desporto, nunca será tão bem paga como um homem, nunca terá tanta gente a ver os seus jogos e nunca sentirá na pele a atmosfera de competições como, lá está, os Grand Slams ou a Volta à França, o Campeonato do Mundo de Futebol ou a NBA. A verdade é que, actualmente, as competições femininas têm menos adeptos, menos apoios, menos participantes e menos espectacularidade. E isso afasta algumas raparigas que estão a começar porque sabem que dificilmente poderão sonhar mais alto. Se há menos gente a entrar, perde-se competitividade e algumas atletas fantásticas nunca começarão sequer a competir. E se se perde competitividade e qualidade, perdem-se adeptos, apoios, espectacularidade – percebem aonde quero chegar.

 

Quem entra num desporto entrega-se por várias razões: o gosto pela competitividade, o espírito de equipa, pelas vitórias, mas sobretudo pelo sonho de ser maior, de ser o maior. E esse sonho não existirá para as mulheres enquanto as competições não forem universais.

 

Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

Danica Patrick, Japan Indy 300 

 

"ENTÃO E O BALNEÁRIO?"

Aquela que talvez seja a razão mais incontornável será a da gestão da equipa com a inclusão de mulheres. A harmonia de uma equipa faz-se da confiança que se tem em quem está ao nosso lado e essa confiança vem da proximidade. A estranheza de ter uma mulher num mundo que até agora foi de homens pode afectar o funcionamento do balneário, o à-vontade e o entrosamento da equipa; pode, nalguns casos piores, dificultar a união. E depois há o escrutínio a que essa equipa estaria sujeita se tivesse "a primeira mulher" de qualquer desporto. E infelizmente nenhum dirigente quer isso para a sua equipa.

 

Em 1980, Ann Meyers foi a primeira mulher a receber um contrato de uma equipa da NBA. Ganhava 50 mil dólares anuais (o ordenado máximo na liga feminina era 20 mil), mesmo assim muito abaixo da média na liga masculina – 200 mil dólares. Apesar de nunca ter tido problemas em acompanhar os homens, Ann não chegou a jogar pelos Pacers. O treinador, Bob Leonard, perguntou-lhe directamente porque é que ela queria causar embaraço para a equipa, e dispensou-a na primeira semana.

 

Mas isso só acontece porque não há mulheres a jogar com homens. É a mesma razão pela qual "não há" gays nas ligas profissionais e não havia gays (ou mulheres) no exército. Rapidamente, como tem acontecido entre os militares, essa diferença desaparece. Basta que os dirigentes tenham essa coragem.

 

Bruna Costa, actualmente na equipa feminina sénior de futebol do Sporting, foi capitã das camadas jovens do Futebol Clube São Luís até aos 17 anos, nas equipas masculinas. Equipava-se num balneário à parte, mas na altura de trocar de camisola depois do aquecimento fazia-o junto com os colegas de equipa. Sobre ela, o Expresso tem uma reportagem muito boa, disponível online e que aconselho a ler, mas fica aqui o comentário de um colega de equipa quando questionado sobre a diferença de género da capitã: “Dizem que ela é gira, mas ninguém tem de achar nada. Ela joga como nós.”

 

Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

Bruna Costa, no balneário dos juvenis do São Luís

 

"MAS ENTÃO E A DIFERENÇA DE QUALIDADE QUE ESTÁ À VISTA DE TODOS?"

O argumento que geralmente acaba com a discussão é o de que as ligas masculinas são sempre disputadas a nível superior. Nenhum recorde mundial de atletismo masculino foi superado por uma mulher. Nos desportos de equipa e noutros, como o ténis, a diferença de qualidade é óbvia. Pois. Mas quantas mulheres existem a praticar esse desporto? E quantos homens? Quanto tempo passaram essas mulheres, sobretudo na fase mais importante que é o início, a praticar e a pensar nesse desporto? Há muito mais coisas que determinam a capacidade que um atleta tem num determinado desporto. O físico é uma delas, mas a imersão nesse desporto - quantidade de tempo investida, motivação pessoal, incentivo dos pais, amigos ou treinadores, qualidade e condições dos treinos, etc. - é tão ou mais importante. As mulheres que hoje vemos no desporto tiveram menos incentivos, menos condições e, provavelmente, menos motivação (porque, mesmo que inconscientemente, sabem que não podem sonhar tão alto) para treinarem e lutarem por uma posição no topo.

 

Felizmente, hoje em dia assistimos à criação de leis (por exemplo, o Title IX nos EUA) que tentam eliminar as diferenças de tratamento, programas de educação desportiva cujos fundadores e educadores estão cientes destas questões e, talvez mais importante do que tudo o resto, vemos uma geração de pais que já não pensa em menino>bola e menina>barbie.

 

Eileen McDonagh, psicóloga e co-autora do livro Playing With the Boys, diz mesmo que "estas questões são profecias que se cumprem a si próprias. É mau para as mulheres serem excluídas. O processo de discriminação faz com que mesmo as mulheres se sintam inferiores". Há ainda o estigma de que uma rapariga que pratique desporto é menos feminina, uma maria-rapaz, ficando ali no limbo que hoje em dia separa um género e outro na juventude e poucas raparigas, ou poucos pais, estarão dispostos a ir contra a corrente.

 

Por fim, temos também questão de que os desportos mais jogados no mundo foram inventados por homens e para serem jogados por homens. A maioria das regras dos desportos modernos foi sedimentada numa altura em que as mulheres estavam postas de parte e, naturalmente, foram alinhadas segundo capacidades que os homens naturalmente disputam, como “quem é o mais rápido”, “quem é que consegue empurrar mais”, etc. Imaginem que, quando James Naismith inventou o basquetebol, ele tinha fixado a altura do cesto em 2 metros, em vez de 3 metros; o resultado seria uma NBA que não é completamente dominada por gigantes; a altura seria importante, como é em quase todos os desportos, mas não seria dominante. Agora considerem todas as diferenças que existiriam se os desportos fossem criados tendo em conta capacidades diferentes – flexibilidade, agilidade, comunicação ou longevidade.

 

E mesmo assim há mulheres que chegam ao topo. Na equitação (a única modalidade olímpica mista) as mulheres já foram medalhadas em todas as categorias nos Jogos Olímpicos: em 2004 levaram todas as medalhas da competição individual. No wrestling, Michaela Hutchinson foi a primeira rapariga a vencer um torneio estadual, em 2006. No Bowling, Kelly Kullic venceu um Major nos EUA, em 2010. Danica Patrick já fazia parte dos pilotos mais famosos dos EUA quando venceu o Japan Indy 300. Lynn Hill, na escalada, foi a primeira pessoa a subir em modo free climb uma das mais famosas montanhas nos EUA. Em 1926, Gertrude Ederle foi a primeira mulher a atravessar o Canal da Mancha a nado e bateu o record masculino por mais de duas horas. Pamela Reed venceu a Ultramaratona de Badwater por duas vezes, em 2002 (bateu o homem mais rápido por mais de 4 horas) e 2003; foi também a primeira pessoa a correr 300 milhas sem dormir - o vencedor da Ultramaratona de Badwater de 2004 tentou o mesmo feito por duas vezes e falhou.

 

Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

Gertrude Ederle, no Canal da Mancha

 

"ENTÃO QUAL É A TUA SOLUÇÃO?"

Manter a separação de ligas não é solução, mas acabar com as ligas femininas teria o efeito contrário ao pretendido: muitas mulheres, actualmente, não conseguirão acompanhar o ritmo das ligas masculinas e acabariam por desaparecer nas ligas inferiores. Eu defendo uma solução mista.

 

As ligas principais serão compostas por homens e mulheres. Paralelamente, existirão ligas femininas equivalentes à 2ª divisão, disputadas por mulheres que não participem nas competições mistas. Isto permitirá às mulheres, desde o início, sonhar o mais alto possível, ao mesmo tempo que podem tomar a decisão de não competir com atletas com maior capacidade física. Mas claro que isto seria só o início. As mulheres que entrem imediatamente nas ligas mistas abrirão as portas para que mais mulheres entrem, não só porque serão capazes de provar que o conseguem fazer mas também porque eliminam a estranheza inicial; ao mesmo tempo, as ligas femininas ganharão importância porque serão mais disputadas (estarão cheias de mulheres que querem passar para o patamar superior) e porque serão como ligas de prospecção, competições observadas por olheiros à procura de talento. Eventualmente as raparigas crescerão a pensar mais em desporto e a praticá-lo mais também, sonhando com os lugares mais altos.



Na Desportiva | Em defesa das ligas mistas

Brenda Frese, grávida de gémeos, precisou de uma cadeira para comandar a sua equipa da sideline. Ganharam na mesma. 

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Alexandre Alvaro, autor do blog Jogo do Sério

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