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Revista Inominável

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Ter | 04.09.18

Na Desportiva | Compreender os mitos do desporto: Reflexos

Como é possível que um atleta de alta competição seja capaz de tomar decisões e executar movimentos específicos em apenas fracções de segundo? Como é possível que um ser humano, em tantas coisas igual a todos nós, tenha um cérebro capaz de reagir àquela velocidade? Na verdade, não tem.

 

OS GRANDES ATLETAS SÃO HUMANOS, COMO NÓS

Durante anos, a resposta intuitiva e generalizada a esta pergunta é que os grandes atletas têm a incríveis tempos de reacção, reflexos sobrenaturais, dons genéticos que partilham com poucos outros seres humanos e que lhes permitem aceder à elite do desporto. Descobertas recentes demonstram que não é aí que está a solução para este problema. Num estudo levado a cabo pela Universidade de Waynesburg dos EUA, foram testados os tempos de atletas (numa única medição) e de não-atletas ao longo de 3 semanas, com dois treinos semanais; os resultados demonstram que, apesar de os atletas profissionais terem, em média, melhores tempos de reacção, os não-atletas conseguem facilmente atingir e até fazer melhor do que esses valores.

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Outros estudos revelam que, quando testado o tempo de reacção visual das mais variadas pessoas – incluindo atletas de alta competição – não parece ser possível quebrar a barreira dos 200 milissegundos (1/5 de segundo, pouco mais do que um piscar de olhos). Esse é o tempo mínimo que demora para a informação recebida pela retina do olho ser transmitida ao córtex visual no cérebro e para o cérebro processar essa informação e enviar mensagens aos músculos para se mexerem.

Num serviço de ténis, a bola demora 600 milisegundos a atravessar o campo. No baseball, 400 milissegundos é o tempo que a bola demora desde que sai da mão do lançador até chegar à zona de contacto do batedor. Pelos padrões humanos, nunca seria possível acertar-lhe apenas reagindo à bola. Então como?

Para acertar numa bola a essa velocidade, é preciso conseguir ver o futuro.

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VER O FUTURO

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 Em 2004 e 2005, Jennie Finch, lançadora de softball, viajou até vários campos de treinos das equipas de baseball da divisão principal norte-americana como parte de um programa do canal televisivo FOX. Ao longo desses dois anos, Finch enfrentou quase todos os grandes batedores do país: Albert Pujols, talvez o maior da sua geração, Barry Bonds, sete vezes MVP, Mike Piazza, Mike Cameron, todos menos Alex Rodriguez, o MVP na altura em que ambos se encontraram – Rodriguez recusou-se a enfrentar Finch em campo. Nenhum deles conseguiu acertar na bola, nem mesmo quando Finch lhes dizia que tipo de lançamento ia fazer.

No softball, o lançamento é feito de mais perto do que no baseball. A bola é lançada por baixo e não como num lançamento normal, o que faz com que seja mais lenta e, por isso, demore sensivelmente o mesmo tempo a chegar ao batedor em ambos os casos. Para além disso, a bola de softball é maior e, claro, mais fácil de bater. Qual é razão pela qual Albert Pujols e todos os outros All-Stars se transformam em batedores banais quando frente a Jennie Finch? Porque um batedor de baseball, em frente a uma lançadora de softball, perde a capacidade de ver o futuro.

 

O CÉREBRO VERTIGINOSO DOS ATLETAS

As primeiras grandes descobertas neste campo concluíram que, em fracções de segundo, os melhores e mais experientes atletas dos vários desportos são capazes de extrair muito mais informação e detalhe do que atletas com menos experiência, ou não-atletas. Num estudo focado no volleyball, atletas e não-atletas tinham 16 milissegundos para determinar se a bola estava ou não presente numa fotografia de uma situação de jogo; os atletas foram muito mais rápidos a responder acertadamente apesar de, quando testada a velocidade de reacção visual, os resultados não terem sido muito diferentes.

No xadrez, foi pedido a jogadores de quatro níveis de habilidade diferentes que observassem uma situação de jogo durante três segundos, após os quais teriam de reconstruir o tabuleiro; o Grande Mestre conseguiu as quatro reconstruções, o Mestre duas em quatro, e os outros dois jogadores conseguiram 70 e 50% das peças no total. No entanto, quando o mesmo teste foi feito mas com uma situação de jogo irreal e impossível de acontecer, os resultados foram idênticos entre os jogadores. Enquanto os jogadores com menos experiência tentam observar peça a peça e lembrar-se do seu posicionamento, um jogador com mais experiência consegue ver e memorizar muito melhor de uma perspectiva mais alargada, agrupando conjuntos de peças, espaços livres e movimentos realizados ou por realizar, com base em padrões que viu repetidos várias vezes.

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A maneira como os jogadores, ou peças, estão posicionados, ou movimentos subtis no corpo dos adversários e colegas de equipa, permitem aos atletas de elite retirarem muita informação e, com base nela, anteciparem intuitivamente o futuro de cada jogada. Mesmo movimentos que parecem ser apenas instintivos têm por base a experiência sensorial e visual de cada jogador, conhecimento que pode ser treinado e melhorado com treino e horas de imersão no desporto. Albert Pujols, frente a Jennie Finch, tem praticamente zero horas de treino e observação do movimento específico da lançadora, e apenas isso basta para que não consiga acertar uma bola. Sem esse conhecimento, Pujols pode apenas contar com o seu tempo de reacção, e isso não chega – quando comparado o seu tempo de reacção com o de um grupo de estudantes universitários, o tempo de reacção de Pujols era apenas ligeiramente melhor que a média. O que distingue, então, os grandes batedores não é um tempo de reacção visual puro melhor que o da maioria dos mortais, mas a quantidade de informação que conseguem descobrir antes sequer de a bola sair da mão do lançador.

 

UM GRANDE TALENTO PODE SER TREINADO

Desde 1992, um grupo de investigadores que vem testando a capacidade visual de mais de 1500 atletas de baseball descobriu que há algo em que eles se distinguem do resto da população: eles têm uma visão excelente. O que é considerado como normal, ou médio, é aquilo a que se chama a visão 20/20, segundo a tabela de Snellen. 81% dos atletas estudados tinham visão superior a 20/15, com 2% a atingirem os 20/9.2 (o melhor, humanamente possível, ronda os 20/7.5). Resultados semelhantes foram obtidos nos testes de percepção de profundidade e sensibilidade ao contraste. Ainda assim, avisam, a capacidade física nestes parâmetros não é suficiente: sem a capacidade mental para interpretar o que está a ser visto, através da análise repetida dos mesmos padrões de movimento, não conseguirão formar a imagem mental que lhes permite ver o futuro.

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Portanto, a capacidade genética não garante uma carreira brilhante no desporto. Um grupo de investigadores da Universidade de Cincinnati, EUA, argumenta que o inverso também é verdade: a falta dessas capacidades não afasta obrigatoriamente um atleta da elite, porque elas podem ser treinadas. Em 2010 e 2011, estes investigadores aplicaram um processo de treino da visão aos atletas da Universidade, e comparando as estatísticas dos batedores em cada época com a época anterior foram identificadas melhorias tangíveis nos resultados. Em 2014, na Universidade da California Riverside, foram aplicados treinos semelhantes a um grupo de jogadores, com outro grupo a servir de controlo, e depois testadas novamente as suas capacidades visuais: 7 dos 19 jogadores terão atingido o nível de 20/7.5 na escala de Snellen para a acuidade visual e descreveram melhorias como “melhor capacidade em distinguir contrastes”, “melhor visão ao longe” e “os olhos estão mais fortes, não ficam cansados”.

Apesar de ainda não se saber ao certo o que se melhora com este tipo de treino, se a capacidade física do olho e dos sistemas da visão, se a capacidade do cérebro para interpretar a informação recebida, parece que estamos cada vez mais longe dos atletas mitológicos e a entrar numa era em que, com o treino e o foco certos, qualquer um pode ser um grande atleta. Ninguém nasce com as habilidades premonitórias de um atleta de elite; à medida que um indivíduo pratica qualquer técnica ou movimento, desde o desporto a conduzir um carro, o processo mental envolvido na acção deixa de acontecer nas áreas de consciência superior do cérebro, no lobo frontal, e passa para zonas mais primitivas de controlo automático e subconsciente – passam a ser acções que fazemos sem pensar. Tal como diz David Epstein no seu livro The Sports Gene, “pensar sobre uma acção é o sinal de um novato no desporto, ou a chave para transformar um atleta experiente de novo num amador”. 

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Publicado em Inominável nº 15

por Alexandre Alvaro, autor do blog Jogo do Sério

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