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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 07.03.18

Lá vem a Noiva | Os Casamentos de Antes e de Agora

No passado mês de Janeiro os meus pais fizeram 40 anos de casados. São 40 anos da inevitabilidade de altos e baixos, mas se há algo que vi sempre neles foi o amor, o gostarem e preocuparem-se realmente um com o outro. Seria impossível, a pouco mais de seis meses do meu próprio casamento, de não comparar os casamentos de há 40 anos com os de agora.

Num dia frio de Janeiro, com alguma chuva à mistura, os meus pais deram o nó. Na igreja do antigo colégio da minha mãe, tendo como padre um primo do meu pai. A boda? Essa foi na casa de uma tia da minha mãe, em que algumas jovens da terra foram servir, em que uma quantidade enorme de convidados se sentou em mesas e bancos improvisados, e em que como decoração tinham as cestas das frutas e as toalhas brancas. O ramo da minha mãe apenas surgiu em casa no dia anterior, quando pela primeira vez os meus pais saíram sozinhos numa mota para o ir buscar. A minha mãe estava num vestido de noiva de manga comprida, botas castanhas que quase não se viam e o cabelo encaracolado feito em casa. Já o meu pai usava as típicas calças à boca-de-sino, o cabelo bem conhecido “à betinho” e uma camisola de gola alta. Assim foi o casamento de um casal modesto, pós 25 de Abril, há 40 anos. No que diz respeito à decoração de igreja, lembranças, cones de pétalas e arroz, photo-booth, vídeos de solteiros, o próprio vídeo do casamento e outros tantos afins, simplesmente não existiram. Existiram 1500 fotografias (que ainda hoje a minha mãe se arrepende de ter tantas fotografias de comida) e nada mais, nem fotografias com cada família, nem fotografias ao pôr-do-sol. Na hora de assinarem os papéis na igreja, a minha mãe não compreendeu a pergunta do padre e sem dar pela coisa ainda acrescentou o nome do meu pai aos 6 nomes que ela já possuía. Na altura, um casamento era simplesmente a igreja e a reunião da família e amigos em volta de mesas compridas para festejar esse momento.

Desde então, sem dúvida alguma que os casamentos evoluíram muito. Hoje as coisas não são tão simples quanto eu gostaria. Adorava o casamento debaixo de uma ramada, como muitos dos casamentos eram celebrados há muitos anos. Adorava um ambiente mais relaxado como o meu piquenique de sonho, mas a verdade é que o noivo quer acompanhar as novas tendências e lá vou eu atrás. Hoje em dia um casamento não é simplesmente um casamento, é um desfile de estilistas, uma combinação de pormenores, uma enchente de decoração, e até uma animação que faz a festa ganhar vida. Quando falamos em casamento, o primeiro pensamento que vem à mente é o vestido da noiva e a festa, o resto parece acabar por se perder no meio de tantos pormenores, tantas formalidades. E enquanto preparo o meu próprio casamento tenho-me apercebido cada vez mais disso; hoje há convites especiais para os padrinhos de casamento, há damas de honor e convites super catitas, e até há uma infinidade de meninos das alianças que levam extras para a entrada da noiva. O casamento hoje acaba por ser um bocadinho o “show-off”, e fica perdido o conceito de que o casamento é o momento de eternização do amor entre duas pessoas. Eu, enquanto pessoa que liga muito ao simbolismo, tenho-me preocupado mais com a igreja, a cerimónia, as músicas - quero escolher pormenorizadamente as leituras e até quero pensar em como posso personalizar a nossa cerimónia de casamento. Os outros pormenores? Esses ficam com o noivo, que gosta deles; sei que tenho de tratar das ofertas e das pétalas e de mais qualquer coisa, mas o que quero mesmo é casar-me. O que quero mesmo naquele dia é unir-me àquela pessoa que tão bem me faz, quero voltar atrás no tempo e ser como os meus pais, dar uma maior importância à cerimónia e fazer do resto cenário. Serei assim uma noiva tão estranha?

 

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Just Smile, autora do blog Just Smile

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