Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sab | 31.03.18

Histórias de Arte | à margem da Bienal - parte 2

 

Ir a Veneza em ano de Bienal é uma experiência inesquecível para qualquer pessoa que aprecie arte – e aqui, obviamente, estou a referir-me a quem não faça distinções de gosto entre arte moderna e arte dita “clássica”, porque este evento se destina essencialmente a celebrar e mostrar o que de melhor se faz no mundo de hoje (sendo que o hoje, neste caso, pode também abarcar algumas décadas atrás, mas não mais do que isso). Mesmo não indo ao recinto da exposição propriamente dita, é como se “tomássemos um banho” de arte, e vimos de lá com os olhos e o espírito cheios de contentamento, e os horizontes mais abertos. Mesmo que não se aprecie tudo o que se vê, mesmo que não se ache “piada nenhuma” a certas obras, mesmo que só se consiga perceber a intenção e a finalidade de alguns trabalhos depois de ler o respectivo folheto ou painel explicativo, ainda assim vale a pena ver tudo o que for possível.

Viva Arte Viva.jpg

 

Depois dos projectos de que falei na revista de Dezembro, aqui estão mais alguns que vi na minha viagem do ano passado a Veneza, e de que gostei particularmente.

 

Personal Structures – open borders

O Giardino della Marinaressa foi um dos locais desta exposição promovida pela GAA Foundation com o apoio do European Cultural Centre.

 

Entre os vários escultores em exposição neste jardim, as obras hiper-realistas de Carole Feuerman tiveram um destaque especial: foram exibidas nove esculturas de bronze pintado, na sua maioria pertencentes à série “Swimmers”. A artista é reconhecida como umas das pioneiras da escultura hiper-realista, com trabalhos em tamanho real ou monumental que se assemelham à realidade até aos mais pequeninos detalhes.

O rinoceronte era um animal adorado na civilização chinesa antiga, e esta foi a inspiração da escultura “King Kong Rhino 5” de Li-Jen Shih. O escultor usa a linguagem contemporânea para revelar temas tradicionais ou antigos. Ao geometrizar e “mecanizar” o seu rinoceronte, Shih exprime metaforicamente a história da evolução humana.

#12 arte Li-Jen Shih (1).JPG

  

As obras mais recentes de Roland Höft inspiram-se na temática dos nós, mas o escultor dá igual importância ao espaço que circunda as suas peças, pondo a realidade em confronto com a ilusão. A escultura “Space Knot” data de 2015 e foi criada a partir de um único bloco de mármore.

#12 arte Personal Structures Roland Höft.JPG

 

A forma como as “Dancing Stones” de Gerard Kuijpers estão equilibradas sobre finas estacas de metal é absolutamente surpreendente. O visitante é convidado a tocar-lhes e elas movem-se e “dançam”, mas não caem. Um desafio à gravidade, e ao mesmo tempo uma ode ao toque humano e à nossa interacção com os elementos naturais.

#12 arte Personal Structures Gerard Kuijpers.JPG

 

A instalação “Evil Eye” concebida por Tobi Möhring é constituída por duas partes distintas: uma enorme mão com um orifício ao centro, e duas figuras humanas escondidas atrás dela. Remete-nos, por um lado, para as superstições relacionadas com o mau-olhado, em que a mão é um símbolo protector – mas neste caso essa protecção está subvertida porque o orifício deixa ver as figuras por trás da mão, como se elas fossem um alvo; por outro lado, sugere que talvez seja o observador a estar “protegido” das duas figuras – numa alusão subtil à transexualidade e às fobias sociais de que muitos grupos humanos são vítima.

#12 arte Personal Structures Tobi Möhring.JPG

 

Na participação das Seicheles, 16 artistas a que foi dado o nome colectivo de Group Sez personalizaram outras tantas esculturas de fibra de vidro em tamanho real do animal mais representativo daquelas ilhas: a tartaruga gigante. Apesar de o modelo de base ser idêntico para todos os artistas, no resultado final não existem dois trabalhos iguais ou mesmo vagamente parecidos. Tal como estas tartarugas, cada ser vivo é único na sua especificidade.

 

 

The Home of My Eyes / Shirin Neshat

Neste trabalho, a artista visual iraniana Shirin Neshat tenta fazer a ponte entre o seu país e o Azerbaijão, território que só na primeira metade do séc. XIX se separou do Irão. Interagindo sobriamente com apenas uns poucos objectos da colecção do Museo Correr, na Sala delle Quattro Porte estiveram expostos 26 (dos 55 que constituem a série completa) retratos frontais, em close-up, de homens e mulheres de diversas gerações, todos eles de nacionalidade azeri – com a particularidade de cada retrato conter, caligraficamente inscritos em tinta, textos compostos a partir das conversas que Neshat teve com cada retratado sobre a sua identidade cultural e a noção de terra-mãe, e poemas escritos no séc. XII por um poeta iraniano que viveu num território pertencente hoje ao Azerbaijão. A artista concebeu esta série como sendo “um retrato de um país que tem sido desde há tanto tempo um cruzamento de muitas etnicidades, religiões e linguagens diferentes”.

 

 

Flying Girls / Peju Alatise

Uma das obras mostradas na Scoletta dei Tiraoro e Battioro, onde se alojou a representação da Nigéria nesta Bienal, é uma (enganadoramente) encantadora instalação que conta a história de Sim, uma menina ioruba que vive em dois mundos alternativos: no mundo real é uma criança de nove anos que foi alugada como empregada doméstica na cidade de Lagos; no seu mundo de sonho, ela voa livremente entre borboletas e pássaros falantes. A escultora Peju Alatise dedicou este trabalho a todas as meninas da Nigéria, trazendo para a ribalta a discriminação, os maus-tratos e atrocidades, e a falta de protecção social e política de que as crianças do sexo feminino são alvo no seu país.

 

 

Man as Bird - Images of Journeys

O programa Pushkin Museum XXI (desenvolvido pelo museu russo com o mesmo nome) trouxe à Bienal deste ano um projecto que tenta ligar o clássico com o contemporâneo e expõe sobretudo artistas com trabalhos que se focam na visão do observador e nos novos meios tecnológicos ligados à imagem. No espaço com múltiplos ambientes do Palazzo Soranzo Van Axel, 14 artistas (russos e de outras nacionalidades) mostraram obras em variados suportes: instalações de som e luz, vídeo, fotografia e objectos artísticos – as últimas tendências da arte contemporânea, em que as tecnologias avançadas coexistem com as técnicas e os suportes tradicionais, expandindo os limites da expressão artística e da percepção visual.

 

Destaco especialmente o trabalho “Exploded Views 2.0” de Marnix de Nijs, uma instalação interactiva em que o visitante navega fisicamente através de uma paisagem citadina audiovisual constituída por nuvens de pontos e criada com uma técnica em 3D que cria uma atmosfera surreal e onírica. Interessante, engenhoso e divertido, e quase viciante.

 

Uma menção especial também para o filme em HD “Travel”, de David Claerbout, onde o movimento contínuo de uma câmara nos leva numa viagem que começa num parque e continua numa floresta escura, que afinal se revela, quando a câmara sobe até à altura do voo de um pássaro, ser apenas um pequeno pântano no meio de uma extensa planície.

 

  

Evocative surfaces / Beverly Barkat

O belíssimo Palazzo Grimani acolheu a exposição individual da pintora israelita Beverly Barkat, em que foi mostrado um extenso ciclo de trabalhos produzidos pela artista nos dez últimos anos, entre pinturas de grande formato, desenhos e instalações específicas criadas para o local. Barkat tem desenvolvido uma técnica única de pintura gestual a partir da sua ligação especial à história da arte e de uma contínua observação da tradição da pintura ocidental, mas inspirando-se nos movimentos artísticos da Arte Moderna, como o Cubismo e o Expressionismo Abstracto. Os seus trabalhos mais recentes versam a temática das paisagens imaginárias, que ela transporta para o domínio da abstracção.

 

 

Friendship Project

O projecto expositivo da República de San Marino alojou-se, entre outros locais, no magnífico Ateneo Veneto. A intenção subjacente a este projecto é ligar os trabalhos de artistas deste país – um dos mais pequenos do mundo – com outros de um dos maiores países do planeta: a China. No Ateneo foram expostas pinturas de Giancarlo Frisoni, Giovanni Giulianelli e Zhao Wumian.

 

 

Este projecto incluiu também os “Migrant Aliens” de Fu Yuxiang, que fizeram furor em vários locais de Veneza. No espaço do centro cultural Don Orione Artigianelli, estes “aliens” foram colocados em frente aos trabalhos dos outros artistas, em igualdade de circunstâncias com os visitantes humanos, como se fossem também turistas maravilhados com exemplos de uma civilização desconhecida. Foi, mais uma vez, o tema da migração a ser abordado nesta Bienal.

 

#12 arte Frienship project Migrant aliens.JPG

 

__________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 12

Ana CB autora do blog  Viajar. Porque sim.

Siga-nos no Bloglovin