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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 14.10.15

Colunista Acidental nº 0

Dizem que o homem é descendente do macaco e eu não duvido. Há uma grande preocupação geral em evoluir. E eu não questiono. Estudam-se as diferentes formas da evolução do homem. E eu aceito. Mas, permitam-me a questão, se o homem é descendente do macaco, se há uma grande preocupação em evoluir procurando-se diferentes formas de evolução do homem... Por que razão ninguém se preocupa com a evolução do macaco?

Dir-me-ão os mais cépticos: Mas o macaco não evoluiu! Ou os mais desinteressados: Mas o que interessa isso agora? Ou ainda os que não têm preocupações neste enquadramento: Deixem lá os macacos e concentrem-se noutras coisas mais importantes...

O bom de tudo isto é que todos têm razão! Cada um terá a sua forma de ver o "caso" e uma opinião diferenciada pela vivência académica, pessoal ou profissional. E isso, curiosamente, não deixa de ser uma evolução. Se fôssemos todos macacos e não tivéssemos liberdade de acção, de expressão ou outra qualquer, não estaria aqui a escrever e, provavelmente, não estaria a ler-me.

Também os macacos têm objectivos como nós. Uma banana pode ser um dos mais aliciantes. E a vida não se vive sem objectivos.

Deixem-me ser, aqui, e metaforicamente, o vosso macaco para exemplificar.

Cresci com o sonho da escrita. Enquanto outros sonhos foram morrendo ou adiados, este esteve sempre presente em mim e tinha uma vantagem sobre todos os outros sonhos... Escrever dependia, apenas e só, da minha vontade e da minha criatividade. Não precisava de ninguém.

E a escrita foi crescendo em mim. Um dia chegou a hora de transformar este sonho em objectivo – o livro – e as coisas passaram a depender de outros. Será um dos preços da evolução? Na verdade, para publicar um livro já não dependia exclusivamente de mim. Precisava de uma editora que aceitasse entrar no meu sonho e que pudesse dar vida ao meu objectivo. Consegui. Tive os meus livros publicados. Chamar-lhe-ia evolução. "Como o macaco gosta de bananas" eu gosto de livros...

E o que parecia inatingível depressa começou a parecer curto. Evolução? E se o sonho estava cumprido precisava de outro. Ou também se a vida é construída por objectivos, eu, homem descendente do macaco, precisava de novos objectivos... E como eu gosto de livros, não sei qual é a explicação, mas sei que fascinam-me desde muito novo. Fazem-me perder a noção do tempo e do espaço. São fantásticos.

Mais tarde, quase por acaso, surgiu a ideia de ser editor... Eu? Logo eu? Mas porquê? Foram as três primeiras perguntas que assaltaram a minha cabeça.

Dúvidas e medos para trás e a editora nasceu. Importa dizer-vos que nasceu de cesariana e num parto devidamente assistido. Quase como uma criança cresceu saudável e teve uma infância feliz até que, já crescida, quis ter vida própria casando e deixando os pais... Deixando-me. Quero que seja feliz onde estiver. Mas, o sonho, o objectivo e a paixão ficaram comigo. E desse amor incondicional nasceu, de parto natural, a minha Lua de Marfim Editora.

Sou pai e mãe de uma filha luminosa que brilha no meu coração. O amor aos livros ficou mais consolidado, mais etéreo...

Agora, naturalmente e sem preconceitos, já podia editar os meus livros, concretizar os sonhos dos outros e trabalhar em algo que me deixava e continua a deixar em êxtase. Realizar os sonhos dos outros é um dos grandes prazeres da vida que descobri. Outro grande prazer é decidir o livro, criá-lo de base até à sua forma de objecto que chega às suas mãos.

A evolução é terrível porque aumenta as responsabilidades e não nos deixa parar. Por isso, pensei em evoluir um pouco mais, acreditei que era capaz de fazer novas coisas, unir e criar novos objetivos sempre com a realização de algum sonho e a ideia foi evoluindo... A Lua teria uma irmã!

Estava decidido! Se os livros são a maior paixão, se já escrevi livros e se sou editor por que não uma aventura no mercado livreiro abrindo a Lua de Marfim II na forma envolvente e intimista de livraria física?

Se assim foi pensado melhor foi feito e a livraria abriu as suas portas no dia 7 de fevereiro de 2015 na Av. Conde Castro de Guimarães 22 A (Reboleira – em frente à Academia Militar) na Amadora.

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Agora o mundo era maior e melhor. O desafio também. A responsabilidade, a par com a evolução, era efectiva e óbvia. Mas sempre de uma alegria fantástica. Agora já não eram só os meus livros, nem eram só os livros da Lua de Marfim Editora, eram todos os livros possíveis do mercado... Para quem como eu gosta de livros pode imaginar, mais facilmente, qual é a entrada do paraíso. Aquele lugar mágico que nos deixa suspensos no tempo... Na verdade, e por falar em verdade, não sendo de facto um macaco, a evolução para mim tem sido o trajecto no mundo dos livros que tanto amo.

Provavelmente, se perguntarem aos meus amigos de infância como me imaginavam quando fosse adulto, admito que vão ficar surpreendidos com a resposta... Ou não.

E se perguntarem aos amigos e conhecidos mais recentes, a resposta já será mais óbvia; mas, se gosto muito de livros também gosto de macacos – em especial daqueles que estão em liberdade como eu – e gosto da evolução das pessoas.

Evoluir é de bom gosto. Gostar de macacos também. Amar os livros é uma loucura positiva.

E se um dia perguntarem de que é que mais gostei nesta vida, direi sem pudor que foi do caminho. O caminho de perceber algumas origens do ser humano, a compreensão de as aceitar e a vontade de conseguir evoluir um pouco mais de cada vez. Talvez se os macacos tivessem as mesmas oportunidades que o homem fossem mais civilizados e cultos, porque inteligência eles têm.

Agora, e para terminar, pegue num livro e veja o seu formato. Já viu? Cheire. Estude o seu conteúdo a começar pela forma como se apresenta (design) desde a capa ao seu interior (miolo), o tipo de letra e a história. Sinta o prazer que deu escrevê-lo, editá-lo e partilhá-lo. Sentiu?

E da próxima vez que entrar numa livraria sinta a paixão do espaço e da pessoa que atende. Converse sobre livros ou sobre as personagens. Deixe-se levar para este sempre novo mundo dos livros e desfrute. O melhor de tudo é desfrutar...

 

Texto de Paulo Afonso Ramos e publicado na revista nº 0