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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 05.01.16

À procura do Natal

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Era uma vez uma menina pequenina de cabelos cor de abóbora que tinha tantas sardas na cara quantas estrelas há no céu, e cujo nome era doce e pequeno, como ela: Ana.

A Ana, tal como todas as crianças, adorava a época natalícia e todas as coisas maravilhosamente divertidas que se fazem nessa altura e nos fazem ficar muito felizes. Vocês sabem do que estou a falar, não sabem? Enfeitar o pinheiro, decorar a casa, brincar na neve, fazer doces, escrever a carta ao pai Natal, embrulhar prendas, preparar surpresas, observar o céu… Sim. Observar o céu. A Ana fazia-o todas as noites, na esperança de avistar o trenó e as renas do Pai Natal nos seus treinos para a grande noite. Elas tinham que treinar, não acham? Para não se cansarem demasiado quando tivessem de dar a volta ao mundo em apenas 24 horas!

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Contudo, este ano algo de muito estranho se passava em casa da Ana. Faltava apenas um dia para o Natal, mas todos pareciam esquecer-se disso!

A árvore, montada a um canto da sala, estava nua, nua, despidinha da Silva, sem um único enfeite para a aquecer! Também não havia presépio, luzes nas janelas, azevinho sobre a lareira, nem coroa de Natal na porta.

Lá fora, no jardim, a neve que tinha caído há duas semanas começava a derreter e não havia um único boneco a alegrar o quintal, tal como o pai lhe tinha prometido que fariam os dois. E no ar não havia cheiro a doces, nem se ouviam cânticos natalícios. Nada de nada. Aquilo parecia os seus piores pesadelos, em que o Natal desaparecia da face da Terra!

Foi então que, decidida a mudar aquela situação, a Ana foi à procura da mãe.

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A mãe estava na sala, agarrada ao seu tablet, e mal olhou para a filha quando ela entrou.

- Mãe, não encontro o Natal aqui em casa. - disse a menina - Podes ajudar-me a procurá-lo?

- Agora não posso, querida. Estou a encomendar uns doces e prendas pela internet. Não teremos trabalho com nada. Não é maravilhoso?

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A Ana ficou triste. Não, não era nada maravilhoso! Ela queria fazer doces com a mãe e escolher o papel, cortar a fita-cola, fazer laços e postais de Boas Festas para enviar aos amigos. Doces encomendados e prendas que já vinham embrulhadas não tinham nada de Natal!

A Ana foi à procura do pai.

O pai estava no escritório, a falar para o ecrã do computador, enquanto agitava muito os braços, no ar.

- Pai, não encontro o Natal aqui em casa. - disse a Ana - Podes ajudar-me a procurá-lo?

O pai espreitou por cima do ecrã e disse:

- Podes esperar, querida? Agora estou a tratar de negócios.

A Ana não gostava nada da palavra “negócios”. “Negócios” era uma palavra que deixava os adultos doidos e muito parecidos com os piratas das histórias que ela gostava de ouvir. Se havia uma palavra contrária a “Natal”, era “negócios”.

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- Mas prometeste que fazias um boneco de neve comigo!

- Talvez mais tarde, fofinha. Talvez mais tarde. - respondeu o pai, que continuou a falar para o ecrã, como se Ana nem estivesse ali.

Cabisbaixa, ela foi à procura do irmão.

O irmão estava no quarto a jogar Playstation.

- Mano, não encontro o Natal cá em casa. Podes ajudar-me a procurá-lo?

- Agora não posso, Ana. Estou a tentar passar um nível importante! - disse ele, mordendo a língua, agarrado ao comando.

- Mas amanhã é Natal e nem temos a nossa árvore enfeitada! - reclamou a menina.

Sem lhe responder, o irmão continuou a jogar e ela saiu do quarto, sentindo-se muito zangada.

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Como era possível que ninguém quisesse enfeitar a árvore com ela, ou brincar na neve, ou preparar a ceia?! A mãe, o pai e o irmão conseguiam estar mais perdidos que o próprio Natal! Se houvesse alguma maneira de os trazer de volta… Foi então que naquele momento o vento começou a soprar forte nas árvores do jardim, nuvens escuras surgiram no céu e trovoadas ressoaram como mil tambores. Lá fora, uma enorme tempestade de neve ameaçava cobrir tudo de branco e foi então que um milagre aconteceu. A luz apagou-se! Nada acendia, nada ligava, nada respondia.

Sem saber o que fazer, toda a família se reuniu na sala.

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- E agora? O que vamos fazer? - perguntou a mãe.

- Tinha tanta coisa para tratar! - lamentou-se o pai.

- E eu estava mesmo a chegar ao fim daquele jogo! - reclamou o irmão.

- Podíamos procurar o Natal, todos juntos! - sugeriu a Ana.

Eles olharam para ela, confusos, e ela foi buscar um caixote de onde tirou fitas, laços e bolas douradas e vermelhas.

- Vamos começar a enfeitar a árvore! – sugeriu, e todos concordaram.

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Quando começaram a pendurar enfeites, ela começou a cantarolar músicas natalícias e todos a acompanharam.

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Não tardou a estarem todos na cozinha, a fazer filhoses e rabanadas, e a rirem-se das maluquices do pai. Como o fogão era a única coisa que funcionava, depressa a casa se inundou com o cheiro a fritos e canela – e toda a gente sabe que o cheiro a fritos de Natal é o único que faz toda a gente sorrir de contente.

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No fim, foram pendurar a coroa de azevinho na porta, e verificaram que a tempestade já tinha ido embora, deixando o jardim coberto de branco.

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- Vamos fazer um boneco de neve! - exclamou a Ana, com o coração a rebentar de alegria.

E assim foi. Era o boneco de neve mais torto de sempre, mas também o mais bonito, pois tinha sido feito pelos quatro.

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- Esta está a ser a melhor véspera de Natal de sempre! - disse ela, agarrada às pernas da mãe e do pai. Todos concordaram com ela. Há muito tempo que não se divertiam tanto, e naquele momento prometeram que nunca mais se iam perder dentro daqueles aparelhos que os levavam para longe uns dos outros, e nunca mais esqueceriam o Natal.

Quando se sentaram à mesa para cear, a Ana apenas lamentou a ausência de uma pessoa. Alguém de quem tinha muitas saudades. Foi então que ouviu uma batida na porta e levantou-se imediatamente, correndo para a abrir. Assim que a abriu, viu o sorriso mais caloroso de sempre e o que mais desejara ver naquela noite.

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- Avó! - e saltou-lhe para o colo.

- Minha querida Ana! - abraçou-a a avó - Ainda bem que cheguei a tempo de te abraçar e dar a tua prenda.

- A minha prenda?!

- Sim. Uma prenda especial, para uma menina especial, feita pela tribo das neves, Xirihbitatá.

- Oh! E o que é? - perguntou a Ana, curiosa e com um brilhozinho no olhar.

A avó sorriu e acariciou-lhe as sardas da cara, que eram tantas quanto as estrelas que pintalgavam o céu naquela noite.

E querem saber o que era, amiguinhos? Pois bem… isso fica para outra história, que um dia vos irei contar.

:)

 

História de Marta A. autora do blog Um dia acabo o Livro e publicado na Inominável nº 1

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