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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 31.10.18

2D 3D | Jogos sem fronteiras

Consigo adivinhar a imagem mental que vós tendes de mim: um viciado em videojogos horrivelmente obeso e com pouca atenção à higiene, que não faz mais nada na vida senão estar permanentemente colado a um monitor CRT na cave da casa dos pais frustrados. Tal diz o cliché.

Posso pelo menos dizer que não moro numa cave. Já é alguma coisa.

Este tipo de criatura que eu descrevi seria tipicamente uma pessoa provavelmente anti-social, pelo menos à superfície. No entanto, os videojogos podem ser ferramentas sociais com muitos paralelos às interacções presenciais, e um igual número de diferenças extremas.

Vou portanto falar de videojogos com suporte a mais do que um utilizador, os chamados multi-jogador, ou multiplayer, para o pessoal mais preguiçoso.

Admito que não tenho seguido o desenvolvimento desta área específica nestes últimos anos em que tem sofrido transformações substanciais. Contudo, acho que para o propósito deste texto, talvez este facto nem seja prejudicial. Outrossim, este é um tema bastante alargado, portanto vou falar nele de relance, só para poder riscá-lo da minha lista de temas a falar.

Poderiam pensar que os jogos multi-jogador começaram sincronizadamente com o aparecimento da internet, mas isso é porque a nossa noção destes modos de jogo está corrompida pelos avanços tecnológicos dos últimos 10 a 15 anos. Efectivamente, antigamente "multi-jogador" queria dizer duas pessoas a jogar uma com/contra a outra no mesmo local físico, conceito que entretanto foi substituído pelo termo "modo cooperativo local" (provavelmente inventado por um anarco-sindicalista).

Jogar através da internet era algo bastante raro, especialmente em comparação com a ubiquação do online dos dias de hoje ("ubiquação" é uma palavra gira, hem? Estive uns 20 minutos à procura dela no dicionário). Tendo em conta as limitações tecnológicas, jogar algo em tempo real com outras pessoas deve ter sido considerado revolucionário. Eu pessoalmente não sei, porque ainda via a Rua Sésamo quando esta transição de paradigma estava a ocorrer (algures no final do milénio). Agora sou mais fã dos Marretas.

O primeiro contacto a sério que tive com videojogos de multi-jogador online foi o absolutamente horrível Tibia, que eu jogava no computador de um familiar quando podia, porque eu só tive internet própria na altura que comecei a conseguir fazer a barba (ou seja, por volta dos meus 35 anos; sempre fui muito precoce; não, não dessa maneira...). Pode parecer que este videojogo tem algo a ver com o esqueleto humano, mas era na verdade um produto bastante inovador baseado num mundo de fantasia medieval jogado por dezenas e centenas de pessoas ao mesmo tempo.

1_tibia.jpg

Um MMORPG.

Depressa, pensem numa música dramática, para dar um maior simbolismo a esta nefasta sigla! Sei lá, tipo aquela da Carmina Burana.

É claro que este Tibia, sendo um dos primeiros passos na longa escadaria de aprendizagem de que a indústria necessitava para evoluir, estava ingenuamente repleto de problemas de design de jogo, de fiabilidade de servidores e problemas mais... digamos... "sociais". Estes últimos são aqueles que mais difíceis têm sido de resolver.

Focando-me precisamente neles, todos sabemos que há sempre "aquele" tipo de pessoas que não gosta de seguir os conselhos do Patrick Swayze e fazem o possível para não serem simpáticas. Ora, eu não sou socialista, longe disso, essa agora, mas não discordo da premissa de que tudo funciona mais bem quando não tentamos lixar uns aos outros para proveito próprio. Infelizmente, o mesmo não é verdade em qualquer outra área de influência humana, e qualquer videojogo com pretensões online tem de estar preparado para lidar com batoteiros, burlões, abusadores e nazis.

Os batoteiros são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e arranjam programas para enviar mensagens erradas aos servidores de um qualquer videojogo, com o propósito de se tornarem omnipotentes e invencíveis e fazerem um pobre coitado no outro lado da Europa passar um mau bocado.

Os burlões são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e que usam qualquer sistema de troca de mercadorias do videojogo para venderem gato por lebre. É claro que é necessário apanharem alguém distraído para levarem a sua avante, mas se acontece com os velhotes por esse país fora, como não haveria de acontecer com um pré-adolescente que nunca viu o Ocean's Eleven?

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Os abusadores são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e não se importam de usar alguma falha técnica do jogo para estragar a vida a alguém. São diferentes dos batoteiros no sentido em que não estão realmente a fazer algo que mais ninguém possa fazer. Vem-me à mente um exemplo que ocorreu num MMORPG chamado World of Warcraft (que mereceria um artigo por si só) em que um génio conseguiu atrair um monstro extremamente mortífero para o meio da cidade mais movimentada. Este monstro curava-se por cada jogador que matava, e tendo em conta que a cidade estava recheada de jogadores de nível muito baixo, o monstro era basicamente um padre na Irlanda. Reza a lenda que numa destas ocasiões (eu cheguei a presenciar uma) o monstro só foi removido da cidade ao fim de três dias de combate constante, e mesmo assim só com a intervenção de um administrador oficial.

Os nazis são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e pensam que podem veicular impunemente os seus pensamentos tipicamente nacionalistas como o racismo, xenofobia e até misoginias (esta última é menos importante porque toda a gente sabe que as mulheres não jogam videojogos e portanto elas nem teriam possibilidade de ver tais comentários antipáticos) nas secções dedicadas à conversação neste tipo de jogos (vulgo: chat). Pessoalmente não tenho tanto problema com estas pessoas como tenho com os três grupos anteriores, porque mesmo o racismo e a xenofobia são aplicações de liberdade de expressão e só acredita nessas parvoíces quem quer. A maior parte dos videojogos tem uma opção de ignorar explicitamente um outro jogador, portanto seria suficiente na maioria das situações. No entanto, alguns videojogos vão muito mais longe, como uma anedota bastante recente em que o videojogo Rainbow Six Siege começou a banir jogadores automaticamente por escreverem palavras contextualmente inocentes. O exemplo mais absurdo foi um jogador paquistanês que foi banido ao descrever a sua própria nacionalidade como "paki".

Eu nem sabia que eles têm internet no Paquistão.

Eu tive uma carreira online muito ligeira. Quando jogava jogos deste género fazia-o apenas com pessoal conhecido porque não queria ter de lidar com as parvoíces das outras pessoas. Adicionalmente, nunca gostei do factor "não se pode fazer pausa num jogo online", especialmente porque o meu contexto doméstico na altura não o permitia. Digo "na altura", porque desde então perdi completamente o interesse em videojogos online, devido a muitos dos factores cuja superfície arranhei neste texto.

Adicionalmente, gosto de ter controlo sobre a minha forma de entretenimento. Gosto de saber o que esperar de um adversário virtual e gosto de aprender com os meus erros quando sou aniquilado por uma inteligência artificial. Mesmo quando as situações podem ocorrer aleatoriamente, eu sei que consigo preparar-me para todas as contingências. Contra um humano não posso fazer isso, e apesar do meu fervor por videojogos, não posso dizer que seja realmente bom a jogá-los. Sou o suficiente para obter a minha injecção diária de hormonas positivas, mas não para derrotar consistentemente um inimigo que, como eu, está sempre a aprender com o adversário.

Para competir com outros basta-me a vida real.

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Publicado em Inominável nº 16

por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

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