"Desde os períodos nebulosíssimos da Idade da Pedra habitam os homens as terras de Alcobaça"
Manuel Vieira Natividade
Conta-nos a História que muito do trabalho dos nossos antepassados é pedra angular da nossa actual condição. Por vezes, por desconhecimento, desinteresse ou simplesmente porque o passado é “passado” e como tal não determinante para o amanhã, não entendemos o que somos, como somos e porque somos. De outra forma, quiçá mais sublime, quem devia entender a História muitas vezes não tem a chave para a descodificar, e ao olhar apenas se apercebe do material que a compõe, que muitas vezes é apenas pedra amorfa e inerte: os olhos não vêem o que o coração não sente; aquilo de que nos privam pela incompreensão não se alimenta de emoção.
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Normalmente vivemos sobre um passado que muitas vezes desconhecemos ou ignoramos em parte, mas que será sempre uma herança que nos acompanhará, muitas vezes de forma dissimilada ou invisível. É sobre uma dessas dádivas que vos quero deixar alguns apontamentos, nomeadamente sobre a zona de Alcobaça que, tal como muitas outras localidades, deve o seu topónimo à passagem dos Árabes pela Península Ibérica, que ocorreu no início do século VIII.
Em meados do século XII, D. Afonso Henriques conquista Alcobaça. Se para a conquista e defesa destas terras contou sobretudo com a colaboração das Ordens Religiosas Militares, nomeadamente os Templários, para as povoar e desenvolver economicamente recorreu aos monges beneditinos da Ordem de Cister. Nesse sentido, D. Afonso Henriques fez carta de doação e couto (terreno com gestão própria, imune à administração central) ao abade de Claraval, D. Bernardo, com fins económicos e políticos. Se no primeiro aspecto D. Afonso Henriques pretendia promover o desenvolvimento agrícola da região, aproveitando os vastos conhecimentos e experiência dos monges de Cister nesse campo, no segundo visava o reconhecimento papal do título de rei, que já usava oficialmente. Atendendo ao enorme prestígio que o abade Bernardo de Claraval tinha junto do Papa Eugénio III, de quem era conselheiro, a doação à Ordem de Cister de um território com as dimensões dos Coutos de Alcobaça não deixaria de causar boa imagem ao chefe da Igreja Católica.
Após a chegada dos primeiros monges da Ordem de Cister vindos da abadia de Claraval (França), deu-se início à construção do Mosteiro, que viria a ser o maior e mais belo exemplar da arquitectura religiosa cisterciense medieval em toda a Europa.
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A tarefa empreendida pelos monges de Cister no seu vastíssimo domínio, que abrangia treze vilas e três portos de mar e que, mais tarde, foi conhecido pela designação de Coutos de Alcobaça, realizou-se em várias vertentes, nomeadamente, no chamamento de colonos vindos de fora, na assistência e protecção dos habitantes da região, no cultivo da terra e na criação de gado, na abertura de estradas e na construção de pontes que facilitassem a comunicação com a costa atlântica. O desenvolvimento de pequenas indústrias, para além da construção do Mosteiro, foram também tarefas prioritárias.
Para além das terras, a Ordem de Cister era frequentemente contemplada com importantes doações em dinheiro e jóias, como verificamos nos testamentos de D. Afonso Henriques, D. Afonso III, D. Dinis e D. Pedro I.
Assim, nos finais do século XIII estes Coutos abrangiam toda a região que vai de S. Pedro de Moel à Lourinhã e, para o interior, até à Serra dos Candeeiros e Rio Maior, ocupando a totalidade dos seus domínios, no nosso país, uma extensão superior a 60 mil hectares.
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Os Coutos de Alcobaça ocupavam então as vilas de Alcobaça, Alfeizerão, Aljubarrota, Alvorninha, Cela, Évora de Alcobaça, Maiorga, Paredes, Pederneira, Salir de Matos, Santa Catarina, São Martinho do Porto e Turquel, sendo quatro destas vilas portos de mar, nomeadamente, Salir, Pederneira, Cós e Alfeizerão.
No século XIV, as terras de Alcobaça eram as que se encontravam mais povoadas e com um maior desenvolvimento económico. O período que decorre até ao reinado de D. João I foi o mais rico e mais feliz de toda a sua história, apesar da violenta crise económica social e política que se instalou no nosso país a partir de meados do século XIV. Esta crise, em contraste com a crescente riqueza e poderio dos Coutos, leva à alteração do comportamento moral e social dos monges, cada vez mais afastados dos antigos princípios de pureza, trabalho e humildade. Tal atitude contribuiu para que se tornassem impopulares e sobretudo incómodos, sob o ponto de vista da administração real.
Em 1495, aproveitando a crescente fraqueza do Mosteiro de Alcobaça – os monges deixaram de cultivar as terras, ficando estas ao cuidado dos colonos e, para fazerem face às despesas exorbitantes da vida luxuosa que levavam, desbarataram as riquezas do mosteiro – e a nova política tendente à centralização do poder real, as vilas dos Coutos começaram a reivindicar a sua autonomia municipal. Assim, em 1514 sete vilas recebem Foral Real do rei D. Manuel I, nomeadamente Alfeizerão, Alvorninha, Évora de Alcobaça, Cós, Pederneira, Maiorga e Cela, ficando os domínios da Ordem de Cister reduzidos praticamente à “cerca” do Mosteiro.
Mais tarde, para acabar com os abusos dos abades perpétuos, o rei D. João III passou o governo do Mosteiro para os chamados Abades Comendatários (estes eram nomeados pelo rei, e portanto estranhos à Ordem). Apesar desta alteração, a maioria destes Abades desejava apenas enriquecer às custas do Mosteiro, não revelando qualquer outro interesse pelo futuro da Ordem de Cister em Portugal. Por isso, retomaram a política de extorsão e violência, o que levou muitos colonos a abandonar a região, deixando os próprios frades reduzidos à miséria. Os nobres e as outras Ordens Religiosas vão, a pouco e pouco, conseguindo do Rei a doação de muitas terras pertencentes aos Coutos, doação esta originada num descontentamento geral.
(continua)
Publicado em Inominável nº 16
por Eliseu Pimenta