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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 31.10.18

2D 3D | Jogos sem fronteiras

Consigo adivinhar a imagem mental que vós tendes de mim: um viciado em videojogos horrivelmente obeso e com pouca atenção à higiene, que não faz mais nada na vida senão estar permanentemente colado a um monitor CRT na cave da casa dos pais frustrados. Tal diz o cliché.

Posso pelo menos dizer que não moro numa cave. Já é alguma coisa.

Este tipo de criatura que eu descrevi seria tipicamente uma pessoa provavelmente anti-social, pelo menos à superfície. No entanto, os videojogos podem ser ferramentas sociais com muitos paralelos às interacções presenciais, e um igual número de diferenças extremas.

Vou portanto falar de videojogos com suporte a mais do que um utilizador, os chamados multi-jogador, ou multiplayer, para o pessoal mais preguiçoso.

Admito que não tenho seguido o desenvolvimento desta área específica nestes últimos anos em que tem sofrido transformações substanciais. Contudo, acho que para o propósito deste texto, talvez este facto nem seja prejudicial. Outrossim, este é um tema bastante alargado, portanto vou falar nele de relance, só para poder riscá-lo da minha lista de temas a falar.

Poderiam pensar que os jogos multi-jogador começaram sincronizadamente com o aparecimento da internet, mas isso é porque a nossa noção destes modos de jogo está corrompida pelos avanços tecnológicos dos últimos 10 a 15 anos. Efectivamente, antigamente "multi-jogador" queria dizer duas pessoas a jogar uma com/contra a outra no mesmo local físico, conceito que entretanto foi substituído pelo termo "modo cooperativo local" (provavelmente inventado por um anarco-sindicalista).

Jogar através da internet era algo bastante raro, especialmente em comparação com a ubiquação do online dos dias de hoje ("ubiquação" é uma palavra gira, hem? Estive uns 20 minutos à procura dela no dicionário). Tendo em conta as limitações tecnológicas, jogar algo em tempo real com outras pessoas deve ter sido considerado revolucionário. Eu pessoalmente não sei, porque ainda via a Rua Sésamo quando esta transição de paradigma estava a ocorrer (algures no final do milénio). Agora sou mais fã dos Marretas.

O primeiro contacto a sério que tive com videojogos de multi-jogador online foi o absolutamente horrível Tibia, que eu jogava no computador de um familiar quando podia, porque eu só tive internet própria na altura que comecei a conseguir fazer a barba (ou seja, por volta dos meus 35 anos; sempre fui muito precoce; não, não dessa maneira...). Pode parecer que este videojogo tem algo a ver com o esqueleto humano, mas era na verdade um produto bastante inovador baseado num mundo de fantasia medieval jogado por dezenas e centenas de pessoas ao mesmo tempo.

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Um MMORPG.

Depressa, pensem numa música dramática, para dar um maior simbolismo a esta nefasta sigla! Sei lá, tipo aquela da Carmina Burana.

É claro que este Tibia, sendo um dos primeiros passos na longa escadaria de aprendizagem de que a indústria necessitava para evoluir, estava ingenuamente repleto de problemas de design de jogo, de fiabilidade de servidores e problemas mais... digamos... "sociais". Estes últimos são aqueles que mais difíceis têm sido de resolver.

Focando-me precisamente neles, todos sabemos que há sempre "aquele" tipo de pessoas que não gosta de seguir os conselhos do Patrick Swayze e fazem o possível para não serem simpáticas. Ora, eu não sou socialista, longe disso, essa agora, mas não discordo da premissa de que tudo funciona mais bem quando não tentamos lixar uns aos outros para proveito próprio. Infelizmente, o mesmo não é verdade em qualquer outra área de influência humana, e qualquer videojogo com pretensões online tem de estar preparado para lidar com batoteiros, burlões, abusadores e nazis.

Os batoteiros são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e arranjam programas para enviar mensagens erradas aos servidores de um qualquer videojogo, com o propósito de se tornarem omnipotentes e invencíveis e fazerem um pobre coitado no outro lado da Europa passar um mau bocado.

Os burlões são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e que usam qualquer sistema de troca de mercadorias do videojogo para venderem gato por lebre. É claro que é necessário apanharem alguém distraído para levarem a sua avante, mas se acontece com os velhotes por esse país fora, como não haveria de acontecer com um pré-adolescente que nunca viu o Ocean's Eleven?

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Os abusadores são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e não se importam de usar alguma falha técnica do jogo para estragar a vida a alguém. São diferentes dos batoteiros no sentido em que não estão realmente a fazer algo que mais ninguém possa fazer. Vem-me à mente um exemplo que ocorreu num MMORPG chamado World of Warcraft (que mereceria um artigo por si só) em que um génio conseguiu atrair um monstro extremamente mortífero para o meio da cidade mais movimentada. Este monstro curava-se por cada jogador que matava, e tendo em conta que a cidade estava recheada de jogadores de nível muito baixo, o monstro era basicamente um padre na Irlanda. Reza a lenda que numa destas ocasiões (eu cheguei a presenciar uma) o monstro só foi removido da cidade ao fim de três dias de combate constante, e mesmo assim só com a intervenção de um administrador oficial.

Os nazis são aqueles que se consideram mais espertos do que os outros e pensam que podem veicular impunemente os seus pensamentos tipicamente nacionalistas como o racismo, xenofobia e até misoginias (esta última é menos importante porque toda a gente sabe que as mulheres não jogam videojogos e portanto elas nem teriam possibilidade de ver tais comentários antipáticos) nas secções dedicadas à conversação neste tipo de jogos (vulgo: chat). Pessoalmente não tenho tanto problema com estas pessoas como tenho com os três grupos anteriores, porque mesmo o racismo e a xenofobia são aplicações de liberdade de expressão e só acredita nessas parvoíces quem quer. A maior parte dos videojogos tem uma opção de ignorar explicitamente um outro jogador, portanto seria suficiente na maioria das situações. No entanto, alguns videojogos vão muito mais longe, como uma anedota bastante recente em que o videojogo Rainbow Six Siege começou a banir jogadores automaticamente por escreverem palavras contextualmente inocentes. O exemplo mais absurdo foi um jogador paquistanês que foi banido ao descrever a sua própria nacionalidade como "paki".

Eu nem sabia que eles têm internet no Paquistão.

Eu tive uma carreira online muito ligeira. Quando jogava jogos deste género fazia-o apenas com pessoal conhecido porque não queria ter de lidar com as parvoíces das outras pessoas. Adicionalmente, nunca gostei do factor "não se pode fazer pausa num jogo online", especialmente porque o meu contexto doméstico na altura não o permitia. Digo "na altura", porque desde então perdi completamente o interesse em videojogos online, devido a muitos dos factores cuja superfície arranhei neste texto.

Adicionalmente, gosto de ter controlo sobre a minha forma de entretenimento. Gosto de saber o que esperar de um adversário virtual e gosto de aprender com os meus erros quando sou aniquilado por uma inteligência artificial. Mesmo quando as situações podem ocorrer aleatoriamente, eu sei que consigo preparar-me para todas as contingências. Contra um humano não posso fazer isso, e apesar do meu fervor por videojogos, não posso dizer que seja realmente bom a jogá-los. Sou o suficiente para obter a minha injecção diária de hormonas positivas, mas não para derrotar consistentemente um inimigo que, como eu, está sempre a aprender com o adversário.

Para competir com outros basta-me a vida real.

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Publicado em Inominável nº 16

por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

Sex | 26.10.18

Viagens | Um roteiro na Madeira #3

(continuação)

Dia 5 – Cabo Girão – Fajã dos Padres – Ribeira Brava – Ponta do Sol – Madalena do Mar – Mudas (Calheta) – Jardim do Mar – Paul do Mar – Ponta do Pargo

O dia de hoje será dedicado a percorrer a costa sul da ilha para oeste do Funchal, e a primeira paragem é no famoso Cabo Girão, um dos cabos mais altos da Europa: são 589 metros a pique sobre as fajãs e o mar, que desde há uns anos também podemos observar por baixo dos nossos pés através da plataforma de vidro construída no miradouro. Escusado será dizer que a vista que dali temos é fascinante. Sugiro depois descer até à Fajã dos Padres de teleférico, para conhecer este cantinho tranquilo e cheio de histórias.

Alguns quilómetros mais à frente, a Ribeira Brava é uma vila pacata e simpática. Tem ruas estreitas, uma área de esplanada junto à praia e ao forte – que se resume a uma torre circular –, uma igreja matriz, e um museu etnográfico que merece a visita.

 

Siga para a Ponta do Sol, famosa pelas suas temperaturas amenas mas também – e sobretudo! – por dela se falar na popular e divertida canção de Max, ele mesmo um madeirense. Por ser o local que beneficia de mais horas de sol na Madeira, é bastante escolhida como lugar de “veraneio”, apesar de a praia não ter qualquer tipo de areia mas sim enormes calhaus rolados.

Madalena do Mar (que é para mim a localidade com o nome mais bonito do país) é uma vila ainda mais pequena do que as suas vizinhas, mas tem um extensíssimo passeio marítimo ao longo da estreita faixa de pedras a que chamam praia, excelente para caminhar. É também a região da ilha onde se produz em maior quantidade a célebre banana da Madeira.

Desde que construíram uma marina e uma praia de areia clara na Calheta que esta localidade passou a atrair mais visitantes, mas a minha sugestão é que se dirija directamente para o Mudas – Museu de Arte Contemporânea da Madeira. Equilibrado numa falésia abrupta sobre o Atlântico, este edifício concebido pelo arquitecto madeirense Paulo David tem um ambiente muito especial onde imperam o sossego e a sobriedade, e é um exemplo feliz de como a arquitectura e a paisagem podem fundir-se e em conjunto contribuírem para a valorização de um local. Pela sua situação geográfica privilegiada, é também um miradouro de excelência sobre a Calheta e o mar.

Seguindo sempre junto à costa, a estrada leva-nos até Jardim do Mar e depois a Paul do Mar, duas localidades piscatórias que ainda preservam alguma da tranquilidade de quando eram de difícil acesso.

Se ainda lhe sobrar tempo e quiser sentir-se como que no fim do mundo, faça-se à estrada sinuosa que segue para a Fajã da Ovelha e vai até à Ponta do Pargo, o extremo oeste da ilha da Madeira, assinalado a rigor pelo farol que dá pelo mesmo nome.

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Dia 6 – Encumeada – Paul da Serra –Levada do Risco e das 25 Fontes – Porto Moniz – Véu da Noiva – São Vicente

A minha sugestão para o último dia deste roteiro é percorrer um dos trilhos pedestres mais bonitos da ilha da Madeira, ao qual deram o nome de Levada do Risco e das 25 fontes. Para lá chegar, escolha a estrada que passa pela Encumeada e pelo Paul da Serra, e aproveite para parar quando e onde puder. Vai ter oportunidade de ver vacas a pastar nas encostas verdejantes – e quem sabe até encontrá-las trotando calmamente pelo meio da estrada – talvez ocultadas por vezes por farrapos de nuvens brancas que vão passando abaixo do nível da estrada, empurrados pela brisa.

Estacione no miradouro do Rabaçal e depois desça (dois quilómetros em estrada asfaltada) até à casa de abrigo onde tem início o trilho pedestre. Na realidade, a Levada do Risco e das 25 fontes inclui dois percursos devidamente assinalados, que totalizam 10 km de comprimento e nos levam até duas espectaculares quedas de água passeando ao lado de canais de cimento, criados pelo engenho humano para neles aprisionar a água das nascentes e levá-la até onde é mais precisa.

 

Depois de conhecer estas belezas do interior da Madeira, é altura de conhecer outras, bem diferentes, na costa norte da ilha. Do Rabaçal até Porto Moniz não vai demorar muito mais de meia hora, e depois vai poder descansar dentro de água nas esplêndidas piscinas naturais (já “remodeladas” para o efeito) alimentadas pela água do mar que salta sobre as rochas. Passeie pela marginal e pela outra zona de pequenas piscinas aninhadas entre as formações rochosas. Se for com crianças, o Centro de Ciência Viva é uma excelente opção para elas se divertirem, tal como o Aquário da Madeira, instalado no actual Forte de São João Baptista, reconstruído à imagem e com a pedra do anterior.

Para regressar ao Funchal siga pela estrada que acompanha a costa norte, entre túneis interrompidos por troços a céu aberto e com vista para o mar. Cerca de 11 km depois, pare no estacionamento junto ao miradouro para apreciar o Véu da Noiva, uma cascata que jorra abundante e directamente para o mar.

Antes do destino final, pare em São Vicente, localidade que também não é escassa em motivos de interesse, desde as grutas vulcânicas ao Núcleo Museológico Rota da Cal, passando pelo Jardim Indígena.

Este roteiro que sugiro é apenas um de tantos roteiros possíveis para conhecer as belezas naturais e construídas da encantadora ilha da Madeira. Muitos outros lugares há na ilha que não estão aqui mencionados e são igualmente merecedores de visita, por isso na sua viagem reserve tempo suficiente para apreciar com calma todas as surpresas – esperadas e inesperadas – que a Madeira vai certamente proporcionar-lhe.

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Publicado em Inominável nº 16

por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

Qui | 25.10.18

Viagens | Um roteiro na Madeira #2

(continuação)

 

Dia 3 – Machico – Prainha (Caniçal) – Ponta de S. Lourenço – Porto da Cruz – Santana – Ribeiro Frio

 

Do Funchal siga para leste até à cidade de Machico, primeira capital da Madeira e actualmente a segunda cidade mais populosa da ilha. O centro histórico é acolhedor e a zona junto ao mar é deveras agradável, com particular destaque para a praia de areia que foi criada há alguns anos.

Continuando para leste, a paisagem muda depois da passagem pelo Caniçal, trocando o verde pelas cores da terra árida. Vale a pena parar no miradouro da Prainha e descer até àquela que é uma das poucas praias de areia natural da Madeira, e uma das mais bonitas. A areia é muito escura, como é típico das areias de origem vulcânica, mas a praia está bem abrigada dos ventos fortes que normalmente assolam este extremo da ilha.

A estrada termina na Ponta de São Lourenço, zona que constitui reserva natural. O vento e o mar esculpiram aqui belíssimas formações rochosas, cujas cores quentes contrastam com o fantástico tom verde-azul escuro do mar. A vista mais fabulosa será provavelmente a que se tem do miradouro da Ponto do Rosto: vários ilhéus pontiagudos em dégradés de cinza e ferrugem, rodeados por um anel branco espumoso, projectando-se das águas encarquilhadas pela ventania.

Voltando para trás pela mesma estrada, o destino seguinte fica também na costa, mas já mais para norte. Porto da Cruz reconhece-se facilmente de longe pelos 580 metros de altura da Penha d’Águia, a escarpa inconfundível que limita a localidade pelo lado oeste. Tranquila, quase sonolenta, tem uma praia de calhau rolado que é sobretudo apreciada para a prática do surf, já que para nadar é mais convidativa a piscina do Complexo Balnear quase ali ao lado. Nos arredores cultiva-se cana-de-açúcar, transformada em mel de cana no engenho que funciona em Porto da Cruz desde 1927.

Continue para norte até Santana. Não sendo uma cidade particularmente atraente no seu todo – na minha opinião, claro… – é aqui que ainda podemos ver algumas “palhaças”, as casas triangulares com tecto de colmo tradicionais da Madeira, hoje mantidas apenas para fins turísticos. É também aqui que fica o Parque Temático da Madeira, bem concebido e interessante tanto para miúdos como para graúdos, onde se passam algumas horas agradáveis. Outro motivo de interesse é o Caminho para Todos, um percurso pedestre largo e protegido de apenas 2 km (mais outro tanto para voltar), acessível à maioria das pessoas, que começa no Pico das Pedras e vai até às Queimadas.

 Regresse ao Funchal pela estrada que passa por Ribeiro Frio. Este parque natural é mais uma das jóias da Madeira, um oásis verde e fresco com milhares de árvores diferentes. A primeira paragem obrigatória nesta estrada é para percorrer a Vereda dos Balcões, com menos de 3 km no total e de cujo miradouro é possível observar os vários picos da Madeira (incluindo o Ruivo e o do Areeiro). A segunda paragem faz-se um pouco mais abaixo, para conhecer o viveiro de trutas.

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Dia 4 – Teleférico Funchal-Monte – Jardim Tropical Monte Palace – Senhora do Monte – Pico do Areeiro

O passeio de hoje começa novamente no Funchal e o primeiro destino é essa maravilha que dá pelo nome de Jardim Tropical Monte Palace. Em alternativa ao carro, sugiro que faça a subida no teleférico que parte do extremo leste da Avenida do Mar: 15 minutos de viagem à suavíssima velocidade de 4 metros por segundo, vendo a cidade a desfilar sob os nossos pés, substituída depois pelo verde da encosta, e sempre com o mar como cenário de fundo. Já no Jardim, prepare-se para passar várias horas a percorrer os 70.000 m2 daquele que é considerado um dos mais belos jardins do mundo, entre veredas, estufas e lagos, obras de arte, exposições, peixes e aves aquáticas, painéis de azulejo e um sem-fim de outros motivos de interesse e prazer para os sentidos.

Quando finalmente decidir (relutantemente, tenho a certeza) sair deste jardim, passe pela Igreja da Nossa Senhora do Monte, erigida ali mesmo ao lado no cimo de uma escadaria, cruze o parque e depois espreite o fontanário neoclássico de mármore com a pequena imagem da santa que se encontra abrigado sob as árvores do Largo da Fonte.

Para voltar ao Funchal pode optar novamente pelo teleférico, apanhar um autocarro perto do Largo da Fonte, ou então descer até ao Livramento nos célebres carrinhos de cesto (se achar que a experiência compensa o valor que pedem e a longa espera na fila) e depois fazer a pé ou de autocarro o resto do caminho. 

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Aproveite o que lhe sobrar do dia para ir conhecer outro local emblemático da Madeira: o Pico do Areeiro. Com 1818 metros de altitude, é o terceiro pico mais alto da ilha, e o mais facilmente acessível de carro. Em dias de atmosfera limpa é possível ver dezenas de quilómetros da fabulosa paisagem em redor, e é também daqui que partem os famosos trilhos que nos levam ao Pico das Torres e ao Pico Ruivo. Antes de ir, convém perceber como é que está o tempo lá por cima, o que se consegue espreitando o link da webcam instalada no local: http://www.netmadeira.com/webcams-madeira/pico-do-arieiro.

 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 16

por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

Qua | 24.10.18

Viagens | Um roteiro na Madeira #1

Da primeira vez que estive na Madeira, a sensação ao sair do aeroporto foi de estranheza. Era Novembro, uma hora e meia antes em Lisboa estava praticamente Inverno mas no Funchal fazia sol, o ar estava ameno e o mar extremamente calmo. Havia vegetação por todo o lado, encostas cobertas de verde com salpicos de casas pelo meio, grandes folhas de bananeiras e palmeiras agitadas pela brisa suave, um ambiente a fazer lembrar os trópicos. E no entanto os carros tinham matrícula portuguesa, as placas de sinalização e os letreiros estavam em português, a maioria das casas tinham a traça das nossas casas… Estava em Portugal, mas ao mesmo tempo parecia-me que não estava.

Com o passar dos dias e o avolumar do encantamento em que a ilha me foi enredando, essa sensação começou a desvanecer-se – talvez porque me habituei, ou talvez porque fui reconhecendo a alma portuguesa em tantos pequenos pormenores – mas nunca desapareceu por completo. Nem nesses dias, nem quando voltei para uma estadia maior, e decerto continuará presente quando lá regressar. A Madeira é uma dose de beleza concentrada em forma de ilha, onde a paisagem e o clima variam a cada meia dúzia de quilómetros, por vezes drasticamente: já saí do Funchal com um sol radioso para ir encontrar montículos de neve no Pico do Areeiro, já quase voei com a ventania na Ponta de São Lourenço, para depois encontrar uma tarde quente e calma em Santana, e precisar de vestir um casaco na frescura de Ribeiro Frio.

Apesar dos seus meros 740 km2, não se pense que é possível conhecer toda a ilha em dois ou três dias. É verdade que vamos do Funchal a Porto Moniz em 50 minutos, por oposição às 4 horas que a viagem demorava até finais do século passado. A construção de dezenas de túneis a partir dos anos 80 – até essa década os 28 túneis construídos somavam cerca de 5 km de extensão; actualmente atingem um total de 100 km, distribuídos pelo impressionante número de 180 túneis – deu tanto aos habitantes locais como aos visitantes a possibilidade de ignorarem a orografia acidentada da ilha e moverem-se de um lado para o outro com mais facilidade e maior rapidez. Mesmo assim, a Madeira tem demasiados pontos de interesse, demasiada beleza para ser vista a correr. Por isso, fica aqui uma sugestão de roteiro por alguns dos lugares imperdíveis desta ilha.

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Dia 1 – Santa Cruz – Lido – Funchal

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 O ideal é alugar carro logo a partir do aeroporto de Santa Cruz e aproveitar para ir conhecer esta pequena mas bem simpática cidade e as suas ruas divididas entre a calçada à portuguesa e a típica calçada madeirense, feita de seixos e calhaus rolados. A praia das Palmeiras e a Igreja Matriz de São Salvador, a segunda maior igreja da ilha, são de visita obrigatória.

Se ficar na zona do Funchal onde se situa a maior parte dos hotéis, conhecida como Lido, depois de se instalar no hotel aproveite para dar um passeio a pé no parque junto ao complexo balnear, com os seus miradouros que oferecem diferentes perspectivas do mar e do ilhéu Gorgulho, o ex libris da zona.

Desça depois até ao centro da cidade. De caminho, no jardim do Casino Park Hotel cumprimente a estátua da Imperatriz Sissi, esculpida por Lagoa Henriques, e continue até chegar ao próprio Casino, que foi construído segundo uma ideia original de Oscar Niemeyer. Cruze o Parque de Santa Catarina, entre na Avenida Arriaga e vá conhecer o pequeno mas luxuriante Jardim Municipal. Siga até ao fundo da avenida para ver a Sé Catedral e depois faça uma pausa para comer um absolutamente de-li-ci-o-so e tenríssimo prego em bolo do caco (que, como toda a gente sabe, não é um bolo mas sim um tipo de pão) na esplanada do Apolo, ali mesmo ao lado. A seguir percorra a habitualmente movimentada Avenida do Mar até ao fundo e vire à esquerda para entrar na zona velha do Funchal, agora transformada em bairro trendy, cheio de restaurantes e bares e portas coloridas. Um óptimo sítio para terminar o dia.

 

Dia 2 – Mercado dos Lavradores – Jardim Botânico da Madeira – Eira do Serrado – Curral das Freiras

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Comece este dia de passeio num dos lugares mais emblemáticos do Funchal: o Mercado dos Lavradores. Os preços praticados são definitivamente só mesmo para turistas, mas o ambiente é um verdadeiro prazer para os sentidos, invadidos pela luz, cores, sons e cheiros deste espaço tão peculiar. Ainda na cidade, siga para o Jardim Botânico, outro local onde os sentidos vão continuar em festa. São 50.000 m2 de área ajardinada para percorrer entre cerca de 3.000 espécies vegetais, originárias de muitos pontos do globo e divididas em várias zonas distintas, com particular destaque para os jardins coreografados. Situado a uma cota que vai dos 150 aos 300 metros de altitude, o jardim oferece ainda a quem o visita algumas das vistas mais bonitas sobre a cidade do Funchal e o Atlântico.

O destino seguinte, apenas 12 quilómetros mais a norte, também nos oferece uma vista impressionante mas não sobre o mar. Imprópria para quem tiver vertigens, a varanda do miradouro da Eira do Serrado ergue-se no vazio a mais de 500 metros de altura sobre o vale onde se abriga a aldeia do Curral das Freiras, no coração montanhoso da ilha da Madeira. A paisagem é absolutamente soberba. Depois desça até à povoação, e se o tempo estiver convidativo aproveite para se refrescar na mais recente “descoberta” da ilha: o Poço dos Chefes, uma espécie de piscina natural criada na ribeira que passa junto à aldeia.

 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 16

por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

Seg | 22.10.18

Por terras nascidas do mar | Relatos de um Verão no Outono e os extremos da Vida

Outubro é sinónimo de Outono, mas nesta edição ainda vos escrevo durante o Verão e no preciso dia em que deveria estar a voltar a ser mãe pela segunda vez, segundo os entendidos que se baseiam na ciência das ecografias e de calendários menstruais, e não no das luas (já passei pela mudança de duas e “desta é que é!”). Pois é, o meu segundo rapaz não quer saber da sabedoria popular e está a sentir-se bem no seu T0 com ar condicionado sempre na temperatura certa, a fazer o pino há 12 semanas e a dançar sapateado nas minhas costelas... para quê ter pressa com estas excelentes condições, certo?! Claro que, se ele não quiser escolher uma data a seu gosto, foi já escolhida uma à disponibilidade de terceiros, que ainda querem aproveitar férias, mesmo com um ar condicionado sem regulador automático...

Assim, achei por bem escrever-vos já, pois não sabemos qual o humor daquele que pode vir a agraciar-nos com a sua presença de forma não voluntária... quem sabe não gosta do Verão cá fora e, não sabendo falar, se manifeste com um choro mal disposto castrador de inspirações de escrita...!

Deixo a descrição da aventura materna na ilha verde para o próximo número, e ofereço ainda um resquício de Verão nas páginas outonais da nossa Inominável. Tinha-vos falado de festas a que ainda iria assistir, certo? E assim foi! Garanti até a alcunha carinhosa da minha cara-metade de “bucha techno”, depois de ter estado a dançar até madrugada ao ar livre, ao som de um DJ bem inspirado, confortável com a minha barriga enorme e devorando o calor de uma noite tropical, privando-me apenas de saltar junto com as centenas de pessoas que vibravam com a batida. A este DJ precedeu o Paulo Gonzo e, embora fosse um concerto de entrada livre, o recinto é fechado e toda a gente é revistada na entrada como forma de prevenção de desacatos estimulados pelo álcool inevitavelmente ingerido nestes eventos. E todas as saídas que vão dar à via rápida têm carros-patrulha para se certificarem de que os condutores são cool, embora grande parte dos festivaleiros dormissem já ali ao lado no parque de campismo, que fica sobrelotado nesta altura do ano.

A festa mais badalada foi em Ponta Delgada, intitulada “White Ocean” - ou “Festa Branca”, mas prefiro a versão inglesa. “Festa Branca” faz-me sempre pensar numa festa cheia de gente a aproveitar os prazeres proibidos de drogas ilegais, embora na verdade assim se chame por (quase) toda a gente ir vestida de branco. Cumpri a tradição com um dos poucos vestidos que ainda me servem, e lá fomos até à capital da ilha, apinhada de palcos (150 para ser precisa), bares e restaurantes a vibrar com música, roulotes de comes e bebes, imensos turistas bronzeados e a maioria embriagados, e pessoas pela rua fora a comerem onde calhava, com aquela descontração típica de quem não tem horas ou obrigações com que se preocupar. A noite bem quente, o mar sossegado, o cheiro a sal no ar, e aquela latente atmosfera de ilha tropical que seduz quem cá vem nesta época... Foi mais uma noite de música no pé e alegria no coração, onde não faltou o fogo-de-artifício!

 

Embora Ponta Delgada seja o centro de quase tudo na ilha, os festivais proliferam por todo o lado com cartazes ambiciosos, como é o caso da Ribeira Grande, que apostou em nomes internacionais no festival Monte Verde mas onde já não me atrevi a ir porque a afluência enorme era incompatível com a minha condição de rotunda humana com bexiga do tamanho de uma ervilha. Mas amigos que lá foram adoraram, o que me deixou o “bichinho” para o próximo ano... Ribeira Grande, para além de ser mais uma cidade da ilha, surpreendeu-me por uma característica que eu não imaginava por cá o que prova que, embora estejamos convencidos de que não temos ideias pré-concebidas, não é bem assim! Na Ribeira Grande existe uma grande comunidade gay, e não é nada invulgar vermos homens vestidos de mulher, e com mais empenho do que muitas! Certamente que nem todos são travestis, muitos estarão em processo de mudança de sexo, e outros tantos são simplesmente assumidos na sua tendência sexual mas confortáveis no seu género e na sua roupa masculina. Em Inglaterra era normalíssimo existir mais do que uma comunidade assim, mas não o esperava cá, talvez por ser uma ilha e as pessoas estarem mais expostas à crítica, natural num meio pequeno. Mas ainda bem que assim não é, e que as pessoas sentem a liberdade de viverem a sua vida e serem verdadeiras consigo mesmas!

Existe até mesmo uma ilha que é conhecida pela sua particularidade: São Jorge, a “ilha dos hippies”! Faz-me imaginar uma ilha com pessoas ao estilo rastafari, vivendo em comunas e envergando calças coloridas de linho, enquanto crianças correm descalças à sua volta, a música de Bob Marley no ar... Claro que não será nada disto, existirá talvez uma maior casualidade na maneira de estar das pessoas em geral, mas a grande magia das coisas reside em imaginá-las! E algumas inspiram-nos na vida real, como por exemplo o simples facto de existir um parque de merendas mesmo ao lado da minha casa e do caminho que desce até ao farol e onde está agora, durante o Verão, uma roulote onde se pode beber um café, comer uma sandes ou um bolo, beber uma cerveja ou comer um gelado. A este parque vem parar todo o tipo de pessoas de diferentes nacionalidades - a muitas das quais servimos de centro de informação turístico - com maneiras de estar e de reagir ao ambiente à volta bastante distintas. Há poucos dias estava um grupo que bem podia ter vindo da minha ilha imaginária, rastafaris a praticarem números circenses, rodeados de verde e azul, oferecendo-nos um espectáculo gratuito enquanto bebíamos o nosso café.

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Mas nem tudo no Paraíso é uma maravilha, e vivi uma experiência que me entristeceu bastante. Existe uma grande taxa de depressão e também de suicídios na ilha, e desde que existe a via rápida que liga a ilha quase de uma ponta à outra muitas pessoas desesperadas têm optado por parar o carro junto a uma das muitas pontes aqui do Nordeste, e saltar para aquilo que consideram ser a libertação do que as atormenta. E foi assim, num fim de dia em que vínhamos da Ribeira Grande, que nos deparámos com este tipo de situação: o carro estava parado com os quatro piscas ligados, e um jovem aparentemente pouco mais velho que o meu filho estava inclinado na barreira de segurança, com um sapato na mão e com os ombros e a cabeça descaídos como se carregasse neles todas as dores do mundo. Posso afirmar que senti o meu coração partir-se perante aquela imagem desoladora, tamanha tristeza a contrastar com a beleza da natureza...! Parámos o carro mais à frente e imediatamente ligámos para as autoridades. O meu filho, no seu fervor dos 20 anos, queria sair do carro e segurar no rapaz, mas a sua vontade foi refreada devido à minha condição de grávida (embora honestamente fosse também esse o meu impulso, o de tentar ir demover o jovem da sua intenção. Mas os 43 anos trazem alguma ponderação…). Muito pouco tempo depois passaram os bombeiros, numa resposta rápida e já habituada a estas ocorrências, infelizmente. Uma amiga nossa que é bombeira voluntária disse que ele não conseguiu, nesse dia, terminar com a sua vida. Mas dois dias depois tentou de novo... e não sabemos se o concretizou, mas com tamanha determinação conseguirá (ou conseguiu) levar a sua avante. O meu filho ficou a pensar nesta e noutras situações semelhantes, com um misto de revolta e tristeza, não entendendo a ausência da nossa intervenção física - pelo menos a do meu companheiro que, tendo já sido comandante de bombeiros e tendo resgatado cadáveres em vários cenários, em mar e em terra, mantém uma aparente frieza e auto-controle que um jovem ainda não consegue entender. Mas esta revolta fê-lo pensar que a prevenção devia começar em entender o porquê da taxa elevada de depressão na ilha, e que um estudo a fundo devia ser realizado. Aconselhei-o a arranjar uma forma activa de contribuir para uma possível solução, e a transformar a sua energia numa força positiva...!

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E assim me despeço, com esta reflexão que pode ser aplicada a vários aspectos da nossa existência... das festas à depressão falei-vos de temas opostos mas que fazem parte da vida, seja em que lugar do mundo for, até mesmo nos sítios a que chamam paraíso... Mas na próxima edição falarei de Vida e Esperança certamente, especialmente porque será também dedicada a uma época particularmente direccionada para as nossas melhores emoções. Mas, até chegar essa altura, desejo-vos um Outono inspirador!

 

Com amor, da ilha.

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Publicado em Inominável nº 16

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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