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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sab | 31.03.18

Histórias de Arte | à margem da Bienal - parte 2

 

Ir a Veneza em ano de Bienal é uma experiência inesquecível para qualquer pessoa que aprecie arte – e aqui, obviamente, estou a referir-me a quem não faça distinções de gosto entre arte moderna e arte dita “clássica”, porque este evento se destina essencialmente a celebrar e mostrar o que de melhor se faz no mundo de hoje (sendo que o hoje, neste caso, pode também abarcar algumas décadas atrás, mas não mais do que isso). Mesmo não indo ao recinto da exposição propriamente dita, é como se “tomássemos um banho” de arte, e vimos de lá com os olhos e o espírito cheios de contentamento, e os horizontes mais abertos. Mesmo que não se aprecie tudo o que se vê, mesmo que não se ache “piada nenhuma” a certas obras, mesmo que só se consiga perceber a intenção e a finalidade de alguns trabalhos depois de ler o respectivo folheto ou painel explicativo, ainda assim vale a pena ver tudo o que for possível.

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Depois dos projectos de que falei na revista de Dezembro, aqui estão mais alguns que vi na minha viagem do ano passado a Veneza, e de que gostei particularmente.

 

Personal Structures – open borders

O Giardino della Marinaressa foi um dos locais desta exposição promovida pela GAA Foundation com o apoio do European Cultural Centre.

 

Entre os vários escultores em exposição neste jardim, as obras hiper-realistas de Carole Feuerman tiveram um destaque especial: foram exibidas nove esculturas de bronze pintado, na sua maioria pertencentes à série “Swimmers”. A artista é reconhecida como umas das pioneiras da escultura hiper-realista, com trabalhos em tamanho real ou monumental que se assemelham à realidade até aos mais pequeninos detalhes.

O rinoceronte era um animal adorado na civilização chinesa antiga, e esta foi a inspiração da escultura “King Kong Rhino 5” de Li-Jen Shih. O escultor usa a linguagem contemporânea para revelar temas tradicionais ou antigos. Ao geometrizar e “mecanizar” o seu rinoceronte, Shih exprime metaforicamente a história da evolução humana.

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As obras mais recentes de Roland Höft inspiram-se na temática dos nós, mas o escultor dá igual importância ao espaço que circunda as suas peças, pondo a realidade em confronto com a ilusão. A escultura “Space Knot” data de 2015 e foi criada a partir de um único bloco de mármore.

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A forma como as “Dancing Stones” de Gerard Kuijpers estão equilibradas sobre finas estacas de metal é absolutamente surpreendente. O visitante é convidado a tocar-lhes e elas movem-se e “dançam”, mas não caem. Um desafio à gravidade, e ao mesmo tempo uma ode ao toque humano e à nossa interacção com os elementos naturais.

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A instalação “Evil Eye” concebida por Tobi Möhring é constituída por duas partes distintas: uma enorme mão com um orifício ao centro, e duas figuras humanas escondidas atrás dela. Remete-nos, por um lado, para as superstições relacionadas com o mau-olhado, em que a mão é um símbolo protector – mas neste caso essa protecção está subvertida porque o orifício deixa ver as figuras por trás da mão, como se elas fossem um alvo; por outro lado, sugere que talvez seja o observador a estar “protegido” das duas figuras – numa alusão subtil à transexualidade e às fobias sociais de que muitos grupos humanos são vítima.

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Na participação das Seicheles, 16 artistas a que foi dado o nome colectivo de Group Sez personalizaram outras tantas esculturas de fibra de vidro em tamanho real do animal mais representativo daquelas ilhas: a tartaruga gigante. Apesar de o modelo de base ser idêntico para todos os artistas, no resultado final não existem dois trabalhos iguais ou mesmo vagamente parecidos. Tal como estas tartarugas, cada ser vivo é único na sua especificidade.

 

 

The Home of My Eyes / Shirin Neshat

Neste trabalho, a artista visual iraniana Shirin Neshat tenta fazer a ponte entre o seu país e o Azerbaijão, território que só na primeira metade do séc. XIX se separou do Irão. Interagindo sobriamente com apenas uns poucos objectos da colecção do Museo Correr, na Sala delle Quattro Porte estiveram expostos 26 (dos 55 que constituem a série completa) retratos frontais, em close-up, de homens e mulheres de diversas gerações, todos eles de nacionalidade azeri – com a particularidade de cada retrato conter, caligraficamente inscritos em tinta, textos compostos a partir das conversas que Neshat teve com cada retratado sobre a sua identidade cultural e a noção de terra-mãe, e poemas escritos no séc. XII por um poeta iraniano que viveu num território pertencente hoje ao Azerbaijão. A artista concebeu esta série como sendo “um retrato de um país que tem sido desde há tanto tempo um cruzamento de muitas etnicidades, religiões e linguagens diferentes”.

 

 

Flying Girls / Peju Alatise

Uma das obras mostradas na Scoletta dei Tiraoro e Battioro, onde se alojou a representação da Nigéria nesta Bienal, é uma (enganadoramente) encantadora instalação que conta a história de Sim, uma menina ioruba que vive em dois mundos alternativos: no mundo real é uma criança de nove anos que foi alugada como empregada doméstica na cidade de Lagos; no seu mundo de sonho, ela voa livremente entre borboletas e pássaros falantes. A escultora Peju Alatise dedicou este trabalho a todas as meninas da Nigéria, trazendo para a ribalta a discriminação, os maus-tratos e atrocidades, e a falta de protecção social e política de que as crianças do sexo feminino são alvo no seu país.

 

 

Man as Bird - Images of Journeys

O programa Pushkin Museum XXI (desenvolvido pelo museu russo com o mesmo nome) trouxe à Bienal deste ano um projecto que tenta ligar o clássico com o contemporâneo e expõe sobretudo artistas com trabalhos que se focam na visão do observador e nos novos meios tecnológicos ligados à imagem. No espaço com múltiplos ambientes do Palazzo Soranzo Van Axel, 14 artistas (russos e de outras nacionalidades) mostraram obras em variados suportes: instalações de som e luz, vídeo, fotografia e objectos artísticos – as últimas tendências da arte contemporânea, em que as tecnologias avançadas coexistem com as técnicas e os suportes tradicionais, expandindo os limites da expressão artística e da percepção visual.

 

Destaco especialmente o trabalho “Exploded Views 2.0” de Marnix de Nijs, uma instalação interactiva em que o visitante navega fisicamente através de uma paisagem citadina audiovisual constituída por nuvens de pontos e criada com uma técnica em 3D que cria uma atmosfera surreal e onírica. Interessante, engenhoso e divertido, e quase viciante.

 

Uma menção especial também para o filme em HD “Travel”, de David Claerbout, onde o movimento contínuo de uma câmara nos leva numa viagem que começa num parque e continua numa floresta escura, que afinal se revela, quando a câmara sobe até à altura do voo de um pássaro, ser apenas um pequeno pântano no meio de uma extensa planície.

 

  

Evocative surfaces / Beverly Barkat

O belíssimo Palazzo Grimani acolheu a exposição individual da pintora israelita Beverly Barkat, em que foi mostrado um extenso ciclo de trabalhos produzidos pela artista nos dez últimos anos, entre pinturas de grande formato, desenhos e instalações específicas criadas para o local. Barkat tem desenvolvido uma técnica única de pintura gestual a partir da sua ligação especial à história da arte e de uma contínua observação da tradição da pintura ocidental, mas inspirando-se nos movimentos artísticos da Arte Moderna, como o Cubismo e o Expressionismo Abstracto. Os seus trabalhos mais recentes versam a temática das paisagens imaginárias, que ela transporta para o domínio da abstracção.

 

 

Friendship Project

O projecto expositivo da República de San Marino alojou-se, entre outros locais, no magnífico Ateneo Veneto. A intenção subjacente a este projecto é ligar os trabalhos de artistas deste país – um dos mais pequenos do mundo – com outros de um dos maiores países do planeta: a China. No Ateneo foram expostas pinturas de Giancarlo Frisoni, Giovanni Giulianelli e Zhao Wumian.

 

 

Este projecto incluiu também os “Migrant Aliens” de Fu Yuxiang, que fizeram furor em vários locais de Veneza. No espaço do centro cultural Don Orione Artigianelli, estes “aliens” foram colocados em frente aos trabalhos dos outros artistas, em igualdade de circunstâncias com os visitantes humanos, como se fossem também turistas maravilhados com exemplos de uma civilização desconhecida. Foi, mais uma vez, o tema da migração a ser abordado nesta Bienal.

 

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Publicado em Inominável nº 12

Ana CB autora do blog  Viajar. Porque sim.

Sex | 30.03.18

Fotografia: A luz e o olhar | Hardware do fotógrafo: filtros

 

Depois de ter escrito no último artigo, embora superficialmente, sobre o software de edição de imagem, desta vez trago o tema do hardware.

 

Há uma grande variedade de acessórios e hardware: defletores, tripés, monopés, filtros, entre outros. É precisamente sobre os filtros que vou escrever. Não aqueles circulares que se colocam na frente da objetiva e que, além de tratamento UV, são usados também para dar uma proteção adicional ao vidro da lente, mas sim sobre o sistema modular de filtros de densidade neutra, gradientes de transição suave ou dura, e o Big Stopper.

 

Por vezes, para se conseguir obter o resultado idealizado não basta usar apenas a máquina fotográfica e ajustar as definições ao cenário. Como sabem, os sensores registam luz, e mediante as velocidades de obturação que escolhemos, congelamos ou arrastamos motivos ou elementos da composição.

 

Imaginem agora que pretendem, durante o dia, fotografar uma cascata de água ou uma paisagem em que o arrastamento dos elementos lhe daria uma sensação de movimento ou de calma. Têm um problema: a quantidade de luz existente é enorme e a vossa máquina não vai conseguir registar sem sobre-exposição de luz.

 

É, por exemplo, num cenário destes que vão necessitar dos filtros de densidade neutra (ND Filters).

 

O sistema tem uma arquitetura fácil de se explicar. Vão necessitar de um anel de diâmetro compatível com a vossa objetiva, um suporte com duas ou três ranhuras, e dos filtros que vão sobrepondo para obter o resultado final.

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Comecemos pelos filtros neutros, de aspeto uniforme.

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Estes filtros cortam a quantidade de luz que passa para o sensor em f-stops (um, dois ou três stops de luz) e permitem fotografar em plena luz do dia usando velocidades de obturação que podem ir até alguns segundos sem sobre-expor o resultado final.

 

Já os filtros gradientes permitem cortar a luz numa zona do frame, e criar uma transição suave ou dura entre a zonas das altas e das baixas luzes ou sombras. Por exemplo, o nascer ou pôr do sol, em que o céu terá uma exposição de luz inferior ao solo.

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Também estes filtros gradientes podem ser de um, dois ou três stops de luz (ND Grad Soft Transition & ND Grad Hard Transition).

 

E finalmente o rei dos filtros que cortam luz: o Big Stopper. O nome dispensa extensa explicação. Facilmente encontramos no mercado filtros de dez, treze, dezasseis ou mesmo vinte stops de luz.

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Imaginem que estão na praça de uma cidade, em plena tarde primaveril e querem registar essa praça com o menor número de elementos possível de forma a destacar, por exemplo, a arquitetura envolvente. Ao usarem um filtro de dezasseis stops vão ter alguns minutos de obturação. Esse tempo permitirá “retirar” algumas pessoas da vossa fotografia, pois o arrastamento será predominante e com alguma sorte, até podem ficar com a praça praticamente desimpedida. Mas como as longas exposições necessitam de imobilização da câmara, não se esqueçam do vosso tripé!

 

Parece confuso? E que tal uma saída com outros amigos interessados em fotografia para explorar as cidades, vilas ou aldeias deste recanto lusitano?

 

Ir para o terreno, perceber como as velocidades de obturação podem criar efeitos nos céus com nuvens, ou fotografar cascatas durante o dia?

 

Vão, carreguem as baterias das vossas câmaras, limpem os cartões de memória e não se privem de explorar, de dar largas à criatividade.

 

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Boas fotos! 😉

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Gil Cardoso autor do blog Gil Cardoso

 

 

Qui | 29.03.18

Por terras nascidas do mar | Vacas, Curiosidades, e o Inverno que não chega

 

Ao sabor de uma temperatura amena de Inverno vou escrever-vos sobre mais do que um assunto, onde se incluem curiosidades da vida do dia-a-dia, e também da vida animal... ou não estivesse eu nos Açores!

 

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Passou mais um Natal pelas nossas vidas. E sim, este foi mais um bem diferente, apesar de ter tido como habitual a presença materna (à beira dos 80 anos apanhou o gostinho de viajar). Aqui as coisas passam-se a um ritmo mais lento e menos consumista: as luzes de Natal ainda acendem de acordo com a tradição, a 8 de Dezembro, os presépios a embelezarem a natureza, sendo o mais atractivo o das furnas, imagens da bíblia envolvidas na bruma mística do fumo das caldeiras… e assim, respeitando os hábitos em muitos sítios já esquecidos, o Natal vive-se e sente-se na sua plenitude, sem o desgaste da antecipação desenfreada, técnica de marketing em época de alguns tostões a mais na carteira e um mais apurado sentido de generosidade. E de obrigação, muitas vezes! Quem nunca ofereceu uma prenda porque sentiu a obrigatoriedade da retribuição? Pois esse mal aqui não me assistiu, embora já não o praticasse há muitos natais.

 

Desde que cheguei não passei apenas pelo Natal: foi a descoberta de um novo mundo, resumido a uma ilha que é mais do que isso, sempre atenta ao mundo lá fora, e foi também uma mudança inesperada de casa. Mas uma coisa de cada vez!

 

Comecemos pelas pessoas: afáveis, conversadoras e acolhedoras, dispostas a ajudar. Sorrisos abertos e um jeito de falar meio “afrancesado”, mas que afinal compreendo perfeitamente. Bem, excepto uma pessoa com quem já convivi... dei por mim à mesa de um café a pôr a minha concentração à prova numa tentativa de não me perder no contexto da conversa. Felizmente foi caso único! E por todo o lado as pessoas estão dispostas a conversar, dão o bom dia na rua, e são muito curiosos ao verem um carro com o volante à direita. Mas sem maldade, de uma forma quase ingénua, já chegaram a vir ter connosco a perguntar de onde vinha o carro; se tens dúvidas, pergunta! Parece ser o lema aqui, o que acho bem pois não há margem para mal entendidos.

 

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Vivo numa vila, e de início o meu corpo e mente entraram em ressaca: descobri que era viciada em stress, horários e correrias!

 

Incríveis as coisas que descobrimos sobre nós mesmos quando não temos de nos dispersar em futilidades e temos realmente tempo para desfrutar a vida... e com qualidade! Claro que, como em todas as ressacas, tive dias mais difíceis. Mas não duraram muito, primeiro porque não tenho o hábito nem a paciência para isso. E segundo, porque tudo o que me rodeia não o permitiu. A energia da natureza derruba as resistências que trazemos connosco. A presença do mar mesmo em frente a nós limpa a alma e qualquer negatividade, por mais antiga que seja. A presença do verde, dos tantos e tão intensos tons de verde, da vida animal, da força da Terra e do Mar que se encontram numa presença constante... Passada a fase inicial, a curiosidade aguçou-se mais em relação à forma de estar na vida aqui pela ilha. De forma geral, o respeito pela natureza é bastante consciente, pois dela depende a maior parte das pessoas. Por exemplo, quando o anúncio publicitário fala em vacas felizes, é mesmo verdade! Vivem livres, e têm muito mais particularidades que aquelas que conhecemos (o que no meu caso era quase nada): sabiam que viram o traseiro para a chuva? Se queremos saber a direcção dela antes de começar a cair, é só observá-las; e elas deitam-se somente em terreno inclinado, porque se ficarem de patas para cima transformam-se numa espécie de tartaruga, não se viram para cima...? Ou que são muito territoriais e mazinhas umas para as outras? Se uma sentir o seu espaço ameaçado empurra a vizinha, nem que ela caia de um penhasco abaixo, como já aconteceu! Vida mais fácil é a do touro, que tem como missão de vida espalhar a sua semente, mas não pensem que é pêra doce! Certo Verão, um belo exemplar pertencente aos serviços florestais teve de cobrir dezenas e dezenas de vacas: missão impossível. Ao fim de dois meses estava a cair para o lado, magro como um cão que não era! Há quem quase morra por falta de amor, mas este não foi o caso!

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Bem, mas curiosidades à parte, voltemos aos seres humanos e ao seu estilo de vida. Socializar aqui é um pouco diferente. É uma questão de conhecer alguém e haver uma química, a chama de uma potencial amizade. Aí somos acolhidos no grupo e convidados para qualquer coisa, desde uma reunião de amigos a um simples café. E então inicia-se a bola de neve, e passamos a ter acesso a uma série de actividades que nos poderiam passar ao lado. Assim, a nossa primeira passagem de ano por estas terras vai ser na companhia de amizades que por aqui florescem! No aspecto prático, há coisas que me deliciam, como por exemplo ter de manhã o pão na porta, saudosas carcaças estaladiças devoradas por vezes com algum sentimento de culpa e um olhar de esguelha para o espelho. Fornecemo-nos de batatas caseiras que um senhor vende numa localidade perto, 20 kg de bom produto por 6€, basta lá ir bater à porta sem hora marcada e ir às compras no quintal das traseiras. Com os ovos a mesma coisa, já aqui na casa da vizinha, uma dúzia de ovos caseiros, numerados com um marcador para se saber a ordem da recolha, por apenas 1€... para fazer um negócio aqui basta garantir a qualidade do produto e passar a palavra, que os clientes vêm ter connosco! Passa a carrinha da carne, apitando à porta, onde nos fornecemos de deliciosos bifes de vaca, a carrinha das frutas e legumes, e também a do peixe, apanhado horas antes. Claro que fazemos as compras semanais no hipermercado do centro comercial em Ponta Delgada, mas durante a semana para uma coisa ou outra vamos aos minimercados perto de casa, o que serve de pretexto para um passeio com uma vista maravilhosa.

 

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Fui abençoada com uma paisagem deslumbrante ao fazer a mudança de casa, mudança esta forçada pela intenção de venda do senhorio, mas que se veio a revelar a melhor coisa que nos aconteceu, pois para além da casa em si ser melhor em termos de espaço, arrumação e equipamento, está virada para o mar, assim como também para as montanhas, oferecendo-nos todos os dias o espectáculo inigualável do nascer do sol. De noite podemos ver a luz circular do farol mais abaixo, e enquanto bebo o meu café na varanda e assisto a tudo isto, de noite ou de dia, sinto-me em casa...

 

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No centro da vila naturalmente existem as suas particularidades: a senhora que fala sozinha e tem uma relação estreita com o vinho de temperar a carne, embora não me pareça que cozinhe grande coisa; a loja chinesa, cujos proprietários são, naturalmente, um casal de chineses, mas que falam correctamente o português com um sotaque açoriano; o senhor Padre, que mais parece o presidente da Junta, pois está envolvido em imensas actividades que nada têm a ver com a missa, sendo inclusivamente o director da escola profissional; as muitas lojinhas que vendem de tudo um pouco, os “cafés atascados” onde se reúnem os mais idosos, normalmente à porta do estabelecimento, e os cafés onde vai a malta mais nova e a malta assim-assim. Eu já faço parte deste último grupo (embora os 40 sejam os novos 30!), e vou a um estabelecimento virado para o mar, com uma esplanada maravilhosa e todo envidraçado, mas onde abunda o calor humano e a boa disposição diária; a farmácia cheia de produtos modernos expostos nas prateleiras antigas, e um centro de saúde com capacidade para internamentos, oferecendo um serviço a que eu não estava habituada no continente, nem sequer em Inglaterra...

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Ouvi já dizer que no Verão a vila fica sobrelotada com tanta afluência turística, e acho isso mais que natural, porque mesmo em época baixa vemo-los de mochila às costas de um lado para o outro, o que nos permite treinar o inglês quando nos abordam!

 

Por enquanto vou descobrindo o que me rodeia, e ainda tanto há para ver! Por todo o lado existem miradouros e parques naturais com zona de merendas, onde temos à disposição mesas, bancos e churrasqueiras com lenha.

  

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Casas-de-banho existem até nos sítios mais improváveis, e sempre impecavelmente limpas! A reciclagem é uma coisa comum aqui, é recolhida porta-a-porta pelos funcionários da Junta de Freguesia, mas também aplicada em pequenos pormenores: por exemplo, muitos pneus pintados fazem de canteiros, e de árvores que entretanto morrem fazem esculturas lindas, como podemos ver na lagoa das furnas. 

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Visitei recentemente a fábrica de chá Gorreana, pois aqui é o único sítio da Europa a produzir chá, e fiquei surpreendida, pois para além de fazermos a visita ao museu da fábrica é-nos oferecido chá na loja, onde vendem as típicas lembranças dos Açores, café, pastelaria, gelados, etc. É um ambiente intimista e relaxante, com uma vista privilegiada para os imensos campos de cultivo. Estou desejosa de lá voltar num bom dia de Inverno que aqui, até ao fim de 2017, ainda não se fez sentir, rondando a temperatura entre os 19 graus de dia e os 17 durante a noite. Na antevéspera de Natal os homens cá de casa andavam de t-shirt e óculos escuros! Eu não chego a tanto, não dispensando a malha típica da meia-estação, que é o que temos de momento por cá...

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Que venha o verdadeiro Inverno e as novas experiências deste novo ano tão recente, que eu cá estarei de caneta em riste para tudo vos contar!

 

Com amor, da ilha.

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

Qua | 28.03.18

Viagens | Passear a pé #10

 

 

O último percurso pedestre de que falámos na Inominável n.º 12 não é fácil nem acessível a toda a gente, mas compensa o esforço.

 

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Trilho das Fisgas de Ermelo

 

Com os seus 200 metros de altura, as Fisgas de Ermelo são uma das cascatas mais imponentes do nosso país. O percurso pedestre PR3 MDB foi concebido para as contornar e mostrar-nos de vários ângulos toda a sua beleza e a igualmente bela paisagem da Serra do Alvão que as rodeia. Não é no entanto um percurso fácil, sobretudo porque a primeira metade, entre a aldeia do Ermelo e até chegar perto do Rio Olo, é praticamente toda sempre a subir e em terreno aberto – o que se torna particularmente penoso em dias de sol e calor. Cerca de 1 km antes da aldeia de Varzigueto é possível encurtar o caminho em cerca de 2 km, atravessando o rio e indo directamente até às Piocas de Cima, subindo depois até apanhar novamente o trilho marcado. A partir daí o caminho é a descer e em zonas mais sombreadas, passando pelas Piocas de Baixo e por uma ponte sobre o rio, com mais uma subida no fim para chegar à aldeia. Vários miradouros assinalados no percurso constituem pontos privilegiados de observação da cascata.

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Localização: Ermelo (concelho de Mondim de Basto, distrito de Vila Real)

Início e fim: Ermelo

Comprimento: 13 km

Duração: 4,5-5 horas

 

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Características especiais: O desnível total ultrapassa os 640 metros, com subidas e descidas exigentes. As Piocas são pequenas lagoas escavadas na rocha pelas águas da cascata, e tanto nas de cima como nas de baixo é possível tomar banho quando o tempo o permite – as águas são límpidas e frias, e apenas é preciso ter cuidado com o fundo escorregadio nalguns sítios.

 

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Gostaram das nossas sugestões de passeios? Deixem-nos a vossa opinião!

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

 

 

Ter | 27.03.18

Viagens | Passear a pé #9

 

 

Em tempos completamente abandonadas, as aldeias da serra da Lousã conhecem agora uma nova vida, e a melhor maneira de as visitar é percorrendo este trilho que nos desvenda os segredos mais fascinantes desta lindíssima serra.

 

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Rota das Aldeias do Xisto da Lousã

 

O PR2 LSA leva-nos do Castelo da Lousã até às aldeias do Talasnal e Casal Novo, percorrendo uma parte da encosta da Serra da Lousã. É um trilho circular, mas devido aos seus grandes desníveis não se torna fácil percorrê-lo, tanto num sentido como noutro, e convém estar em relativamente boa forma física – existe por isso uma variante, o PR2.1, que encurta o trajecto, diminuindo assim o grau de dificuldade. Desenvolve-se tanto no meio de vegetação cerrada, cortada por belíssimos cursos de água, como em zonas abertas que proporcionam vistas para paisagens desafogadas, dando-nos ainda a possibilidade de visitar duas aldeias que estavam praticamente abandonadas até há não muitos anos, mas que estão agora a ser recuperadas para uma nova (e diferente) vida.

 

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Localização: Serra da Lousã (concelho da Lousã, distrito de Coimbra)

Início e fim: Castelo da Lousã

Comprimento: 6 km

Duração: 3 horas

 

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Características especiais: As subidas totalizam 420 metros. Há certos pontos em que é necessário subir ou descer sobre pedras, que podem ficar bastante escorregadias sobretudo em épocas de muita humidade e chuva, pelo que é necessários usar calçado próprio para caminhada e com boa aderência, e ter cuidados redobrados nesses locais para evitar as quedas.

 

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Marcamos encontro amanhã para o nosso último passeio deste mês.

 

 

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Publicado em Inominável nº 12

por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

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