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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

 

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 E DELE AS FOLHAS

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Este não é o tempo de ver para além da árvore.
Olho o verde que tapa o horizonte,
a gota de chuva que pende da folha.
Não é este o tempo de voar para lá da árvore,
as asas estão presas à terra por fios leves, leves…
Sonhei que podia quebrá-los.
Têm a firmeza do pensamento
à espera de se dissolverem no húmus antigo.
Dele brotará um novo tronco de mim
e dele as folhas
e dele a libertação das asas para lá da árvore.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 37, editora Modocromia

 

O QUE NÃO QUERO OLHAR

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Deixem-me a liberdade
de não olhar mais
o que não quero olhar,
de ver só parte
da luz que me envolve.
De me recolher
na concha do início
ninho da inocência,
na serena ignorância
das sombras caídas
sobre o correr da vida.
Deixem-me a liberdade
de ser só eu,
dentro de mim
isolada,
longe da luz da verdade.

Dezembro 2016

 

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Apresentação do livro “Um pássaro antigo nos olhos”

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(…)

Aprecio sobremaneira a sua linguagem sugestiva e clara, onde cada metáfora faz, afinal, sempre sentido e vem a propósito e nos desafia para a recriação de realidades, estímulo determinante para sobrevivermos ao lugar-comum dos dias cinzentos. Mas com músculo sobre a estoica ossatura e sem mácula de matéria adiposa.
Poesia necessária como o pão de cada dia, no dizer de Celaya, para que assim nos chegue carregada de futuro. E se concordarmos que uma das atribuições fundamentais do exercício poético é o despertar emoções, ah, então aí a obra criada, neste domínio, pela Alice é uma torrente impetuosa na invernia em que, de súbito, se transformou o ainda há pouco recatado e remansoso regato.

Jorge Castro, Prefácio I

(…)
Desde logo o título - “Um Pássaro Antigo nos Olhos” – que nos remete para o voo livre da poesia – “Poesia Liberdade Livre” de que fala o poeta António Ramos Rosa - sem outro limite que não seja o olhar da poetisa sobre o mundo e as coisas. E os seus próprios sentimentos.
Em qualquer caso, um olhar maturado pela distância temporal, num exercício de depuração que apenas o tempo e a distanciação permitem. Estamos assim perante uma poesia vertebrada e adulta que não se confunde com o mero brilhozinho do papel celofane com que tantas vezes se enfeitam os autores da 25ª hora, isto é, que começam a publicar tarde.
Em segundo lugar, desejo destacar que a autora sabe muito bem da luta corpo a corpo com o mundo, em que a verdadeira poesia se joga. Diria até que o sabe com o próprio corpo e com a carne do poema, e que das suas próprias dores, que mais não são que o reflexo das dores da Humanidade, recolhe a matéria do “fingimento” poético, de que se alimenta.

Manuel Veiga, Prefácio II

 

 Fotos do lançamento do livro a 03/12/2016, no Chá da Barra Villa, Palácio do Egipto, Oeiras

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Publicado em Inominável nº 6

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Nasci em Alenquer, na Estremadura, à beira do Ribatejo, no ano de 1949. O que então se chamava escola primária e liceu apanhou-me na zona de Torres Vedras, para onde a família se mudou. Este amor pela escrita deve ter nascido comigo, porque já na escola primária a professora dizia que eu fazia “redações muito bonitas”. 

 

Mais tarde, já transportada para a zona de Lisboa, o facto de ter seguido um curso de engenharia salpicou a minha vontade de escrever com o pensamento lógico obrigatório a quem está nessa área. Talvez por isso, o meu refúgio era a escrita de diários mais ou menos românticos que fui rasgando ou perdendo, consoante as mudanças da vida, o casamento, o nascimento de duas filhas e, mal dos males, o emprego na administração pública onde, por acaso, quando era necessário dar algum colorido à uniformidade de informações e ofícios, aparecia sempre alguém que dizia: “a Alice é que tem jeito para isso!”.


Na realidade, só quando as filhas cresceram o suficiente para me parecer que o ninho estava vazio, pensei como seria bom voltar à escrita com gosto e por gosto. Iam, para aí, os anos dois mil e poucos e a Internet explodia como forma de comunicação. Alguém me desafiou a manter um blog, algo que eu não sabia de todo o que era, mas com que rapidamente travei conhecimento. Tinha 55 anos quando o meu primeiro post apareceu no blog “Mulher dos 50 aos 60”. A partir daí, foi uma longa viagem de descoberta de pessoas, de formas de escrever, de fotografar, de pintar… Depois desse blog, outros vieram e a vontade de escrever não parou, nem mesmo quando deixei de pertencer a esse mundo, por razões várias, nomeadamente por querer outras experiências e ter-me aposentado, o que me dava tempo para procurar grupos e pessoas que partilhavam os mesmos gostos.

 

Publicar nunca foi um objetivo nem uma ambição. Era uma mistura de preguiça com a sensação de não ter uma voz original. Algo aconteceu, há cerca de dois anos e meio, que modificou completamente essa forma de olhar aquilo que escrevo. Muito prosaicamente, nasceu um neto. Para mim foi poético e fez-me procurar tudo o que tinha espalhado por gavetas reais e virtuais. Escolher e organizar levou algum tempo mas, finalmente, em Dezembro de 2016, viu a luz o livro de poesia “Um pássaro antigo nos olhos”, obviamente dedicado ao Lucas, o meu neto. Quem ler esta justificação talvez se pergunte se só isto justifica que se publique um livro. Não sei nem me cabe a mim responder. Neste momento, a minha motivação é o desejo de que quem lê o livro se reveja, pelo menos, num dos poemas que lá estão. Se assim for, terá certamente valido a pena.

Manteve vários blogues, dos quais o mais recente tem o endereço vidadevidro.blogspot.pt; colaborou em coletâneas de poesia, nomeadamente “A poesia nos blogues”, ed. Apenas Livros, 2006, “Escrever é um lugar tão perto”, ed. Apenas Livros, 2007, “Palavras de Cristal”, ed. Modocromia, 2016 e “Entre o sono e o sonho”, ed. Chiado Editora, 2013, 2016.
Atualmente faz parte do Grupo de Escrita Criativa da Universidade Sénior de Oeiras que publicou, em 2015, a coletânea “Se um dia…”, e em 2016 a coletânea “Crónicas… não só mas também” e do Grupo de Teatro da Universidade Sénior de Oeiras

 

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O SILÊNCIO POR DENTRO DA COR

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Sinto uma raiva contida nas esquinas do tempo
um sopro hostil
que tolhe o movimento.
Paro um pouco.
Afinal os dias podem abrandar
o ritmo interior
sem que nada se parta, se perca
de algum antigo ardor
ou chama vital.
Que sei eu do que me leva?
Que sei do bem ou do mal?
Paro um pouco
ou muito ou tudo ou o que for.
Que se oiça o silêncio por dentro da cor
dos sons,
até que a claridade se revele inteira
sem sombras de fingida dor.
Que a balança suba o prato da entrega
leve, leve pena pairando no ar
livre de amarras.
Porque um certo dia essa hora chega
no áspero vento das bandas do mar.
Tempo de pensar.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 20, editora Modocromia



UM PORQUÊ

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Há um novo porquê suspenso no teto.
Cada vez que o olho
quero dizer que esses são os dias bons
aqueles em que as perguntas se renovam
sem resposta necessária
ou suficiente. Sei lá das suficiências
ou necessidades.
Sei dos dias cheios de porquês
que se balançam como se quisessem
gerar ideias.
É talvez por isso que existe o teto
não para me tapar as dúvidas.
Lá fora o dia juntou todas as cores
branco límpido.
Se perguntasse para onde foi o azul
ou o dourado
estaria a inventar mais um porquê
e não posso.
A regra manda que se suspendam do teto
para que os dias possam ser brancos
e não haver dúvidas.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 24, editora Modocromia

 (continua)

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Publicado em Inominável nº 6

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Muito se fala acerca da protecção animal, especial-mente desde que o assunto passou a ocupar as páginas dos jornais e entrou nas agendas políticas de alguns partidos. As redes sociais também têm ajudado a que este tema passasse a ser mais divulgado e a que muito mais pessoas se apercebessem do que se passa um pouco por todo o lado. 

 

Basta abrirmos o Facebook para deparamos com inúmeros casos de abandono, atropelamentos, ninhadas não desejadas largadas no lixo, maus tratos de donos incompetentes e acima de tudo a dificuldade crescente de quem não consegue ficar indiferente ao sofrimento animal. Não há quem não se alegre quando vê um resgate bem-sucedido ou a notícia de mais um animal que saiu das ruas, onde estão sujeitos a todos os perigos. Mas - e há sempre um mas… - e depois?


A verdade é que não existem casas para todos os animais que nascem neste país e a esterilização, estranhamente, ainda é um assunto tabu para grande parte da população, pelo que todos os dias surgem novas ninhadas que vão engrossando o número de animais que precisam de ser cuidados.
Os canis municipais são, a maior parte deles, depósitos de animais sem quaisquer condições, onde grassa a doença e onde muitos e muitos animais acabam por ser mortos quantas vezes apenas para dar lugar a outros. Basta um animal ser mais velho ou precisar de cuidados veterinários para ser abatido.
As associações, que vivem da boa vontade dos voluntários e dos donativos que vão angariando, já ultrapassaram há muito a sua capacidade e lutam todos os dias com a impossibilidade de proporcionar cuidados dignos aos animais que tentam proteger. E os chamados protectores, gente que não consegue ignorar a fome ou a doença de um animal desprotegido, não têm fundos ilimitados.

 

O Tudo Pelos Animais, grupo de solidariedade animal criado no Facebook, nasceu da consciência de tudo o que atrás foi exposto e visa, primariamente, acorrer a necessidades urgentes de alimentação a abrigos e particulares tentando, pela quantidade, adquirir ração directamente às fábricas que a produzem, rentabilizando ao máximo os donativos que recebem, donativos estes que lhes são entregues pelos amigos do grupo e graças aos apelos que vão fazendo através da página.


Em cerca de 3 anos, desde que iniciaram o projecto, conseguiram comprar mais de 30 toneladas de ração a um preço mais baixo que o do mercado, que distribuíram por várias associações e protectores particulares, contribuindo efectivamente para aliviar um pouco o esforço de quem não desiste desta luta inglória. Paralelamente, recolhem e distribuem mantas, casotas, camas, medicamentos, tudo o que possa ser reutilizado pelos animais e contribuem sempre que possível para o pagamento de cirurgias de animais errantes entregues a associações ou contas de veterinários em casos particulares extremos.

 

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O Tudo Pelos Animais nasceu de um projecto pessoal, mais uma vez provando que qualquer um de nós pode realmente fazer a diferença. Basta dar o primeiro passo e encontrarmos outras vontades que se lhes queiram juntar.

Por quem não se pode defender, com eles, por eles, Tudo pelos Animais

 

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COMO AJUDAR

Consegues dispensar 5€/mês? Ou qualquer outra quantia?
Junta-te ao Tudo Pelos Animais e ajuda-os a ajudar quem mais precisapaw banner.jpg

Donativos
NIB: 0023 0000 4543 7941 1529 4
IBAN: PT50-0023-0000-45437941152-94
BIC/SWIFT: BCOMPTPL

Contactos

E-mail: cremilde.marques@gmail.com
FB: Tudo Pelos Animais

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Publicado em Inominável nº 6

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Escarlate sentou-se, por fim. As luzes ao longe contrastavam aguçadamente com a escuridão que a cercava. A ela e à rapariga.


A rapariga, Ignis, caminhava de um lado para o outro, umas vezes manobrando distraidamente o punhal que trazia, outras lançando pequenas chamas para o chão, vendo a neve a derreter a seus pés quando entrava em contacto com o fogo. Era mais impaciente do que Escarlate, menos resignada e daria tudo para estar no centro da vila, em vez de estar ali.


Dali a pouco Escarlate seria substituída pela guardiã de Ignis, e o seu turno ficaria completo por aquela noite. Ignis, por sua vez, tinha ainda algumas horas à sua frente antes de poder juntar-se à festa de Carnaval no centro da vila, que costumava durar até de manhã.


O som de passos na neve deixou Ignis em alerta, mas antevendo a forma da sua guardiã por entre as sombras, não se sobressaltou.


Escarlate levantou-se, passou a sua própria lança e espada a Sora e sorriu para Ignis.


- A festa está longe de terminar. – Apontou.


Como que sublinhando a afirmação de Escarlate, a música pareceu subir de tom, mas talvez tenha sido apenas causado pelo silêncio a que as três mulheres se remeteram, de forma a ouvirem o ruído que vinha de longe.


Sora sorriu.


- É Carnaval e o Carnaval não tem exactamente um fim. Vai-se arrastando até ao ano seguinte.


De certa forma, era verdade. Demorava semanas até as decorações das casas serem retiradas, os doces que se distribuíam nessa noite continuavam a ser partilhados durante meses, e à medida que o ano ia passando e um novo Carnaval se anunciava, o rumor ia subindo de tom até ser de novo hora de festejá-lo. Não havia máscaras neste Carnaval; havia magia.


Escarlate bocejou, tocou no ombro de Ignis, num gesto que era ao mesmo tempo de carinho e encorajamento, e despediu-se. Pensou em passar pela festa antes de se recolher, mas estava demasiado cansada e os seus pés acabaram por arrastá-la para o caminho de volta a casa.


Sora guardou a espada no cinto, espetou a lança na neve e estendeu as duas mãos fechadas na direcção de Ignis, incitando-a a optar. A rapariga olhou para a sua guardiã e em vez de indicar com um dedo a mão que escolhia, fez com que as suas próprias mãos irrompessem em chamas, pousando-as sobre as de Sora, que arquejou, sorvendo o ar frio da noite. Ignis riu quando Sora abriu a mão esquerda, agora suja com o chocolate que derretera. Depois, fechou as mãos flamejantes e estas voltaram à sua cor normal, pálida.


Todas as noites havia dois responsáveis a guardar a entrada de Aperus. Os habitantes da vila revezavam-se; novos ou velhos, possuía cada um o que era necessário para proteger aquele pedaço de terra no topo do mundo. Para começar, tinham fogo que lhes saía das mãos com facilidade, que os aquecia e iluminava. Depois, como protecção e, quando necessário, como arma, tinham as lanças e as espadas ou punhais, os paus ou os arcos, de acordo com o que mais lhes aprouvesse. Alguns – como Sora e Escarlate tinham feito – partilhavam armas, por não terem preferência. Ignis elegia o punhal: era perita a manejá-lo contra qualquer inimigo que se aproximasse o suficiente para que ela o apunhalasse, e a atirá-lo de forma certeira para o mesmo efeito a quem não se atrevesse a chegar perto.

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O inimigo só sabia que era o inimigo quando já era tarde demais para ser outra coisa qualquer.

A princípio, escutando em silêncio os distintos barulhos da noite, não notaram um leve ruído de passos a subir a montanha. Foi já quando um rosto – onde só se distinguia practicamente o branco dos olhos no emaranhado de trapos sujos que parecia cobri-lo dos pés à cabeça – assomou no topo da montanha que Sora se levantou, mas Ignis chegou lá primeiro: a parte romba do punhal, o cabo negro robusto de madeira esculpida, acertou em cheio no peito do desconhecido. Por momentos ela conseguiu ler nos olhos dele surpresa e dor; depois, ele levou a mão ao peito e caiu inerte com um baque surdo no chão alvo.

 

Sora guardou a espada no cinto, espetou a lança na neve e estendeu as duas mãos fechadas na direcção de Ignis, incitando-a a optar. A rapariga olhou para a sua guardiã e em vez de indicar com um dedo a mão que escolhia, fez com que as suas próprias mãos irrompessem em chamas, pousando-as sobre as de Sora, que arquejou, sorvendo o ar frio da noite. Ignis riu quando Sora abriu a mão esquerda, agora suja com o chocolate que derretera. Depois, fechou as mãos flamejantes e estas voltaram à sua cor normal, pálida.


Todas as noites havia dois responsáveis a guardar a entrada de Aperus. Os habitantes da vila revezavam-se; novos ou velhos, possuía cada um o que era necessário para proteger aquele pedaço de terra no topo do mundo. Para começar, tinham fogo que lhes saía das mãos com facilidade, que os aquecia e iluminava. Depois, como protecção e, quando necessário, como arma, tinham as lanças e as espadas ou punhais, os paus ou os arcos, de acordo com o que mais lhes aprouvesse. Alguns – como Sora e Escarlate tinham feito – partilhavam armas, por não terem preferência. Ignis elegia o punhal: era perita a manejá-lo contra qualquer inimigo que se aproximasse o suficiente para que ela o apunhalasse, e a atirá-lo de forma certeira para o mesmo efeito a quem não se atrevesse a chegar perto.


O inimigo só sabia que era o inimigo quando já era tarde demais para ser outra coisa qualquer.
A princípio, escutando em silêncio os distintos barulhos da noite, não notaram um leve ruído de passos a subir a montanha. Foi já quando um rosto – onde só se distinguia practicamente o branco dos olhos no emaranhado de trapos sujos que parecia cobri-lo dos pés à cabeça – assomou no topo da montanha que Sora se levantou, mas Ignis chegou lá primeiro: a parte romba do punhal, o cabo negro robusto de madeira esculpida, acertou em cheio no peito do desconhecido. Por momentos ela conseguiu ler nos olhos dele surpresa e dor; depois, ele levou a mão ao peito e caiu inerte com um baque surdo no chão alvo.

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Publicado em Inominável nº 6
por Carina Pereira autora do blog Contador d'Estórias

 

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Escolher o próximo livro nem sempre é uma opção linear.
Eu sei, soa um pouco ridículo, afinal é só ir à estante e tirar um dos livros por ler.
Se estão para ler é porque a estante os recebeu por serem leituras desejadas, e o que importa a ordem de leitura se todos estão ali para o mesmo?

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Na estante das pessoas que compram livros à medida do seu ritmo de leitura esta questão é, realmente, descabida. Mas nas estantes (sim, várias estantes) das pessoas que acumulam livros porque não conseguem não o fazer, a escolha da próxima leitura implica toda uma decisão sobre prioridades.
E sim, esse drama existe na vida desta vossa amiga.


Muitas vezes é ainda durante a leitura em curso que a dúvida começa a assolar-me. À medida que o número de páginas restantes diminui, os olhares que lanço à estante deixam de ser meras observações (adorações, vá) para se converterem na angústia de decidir o senhor que se segue. Como optar? Como escolher apenas um, se a sofreguidão de ler todos assume contornos doentios? Respiro fundo e bebo um copo de água. Não serve de nada, mas mal não faz. Tento focar-me. A presente leitura ainda está em curso e não posso dispersar-me a ponto de não acompanhar convenientemente os desenvolvimentos. Não me faltava mais nada do que chegar à última página e não perceber o fim, porque me detive a orientar decisões sobre o livro seguinte no momento decisivo da trama. Já aconteceu. A decisão sobre o livro seguinte foi adiada. Voltei, claro, a reler o final do livro com a cabeça no lugar, isto é, no livro.


Mas, e para complicar um pouco, as minhas opções não se resumem aos livros da estante. Como leio sempre vários livros ao mesmo tempo (apesar de, sim, haver um que assume o papel do “principal”), pode dar-se o caso de, terminado um, seguir para outro já iniciado. E aqui volto à pescadinha de rabo na boca. Prosseguir para qual? Deito uma olhadela às lombadas na mesinha de cabeceira e, inevitavelmente, chego à conclusão que alguns dos livros moram lá há tempo demais. A situação assume contornos tais que às vezes já nem me lembro de que tratam tais livros. Pois é, eu assumo que deixo livros a meio, mas não é um processo fácil, é muitas vezes um desmame doloroso. Mas chega sempre o dia da limpeza.

Além dos livros por ler e dos livros a meio, tenho também os livros emprestados. Esses convém ler primeiro para fazer boa vizinhança e devolver aos donos o mais rápido possível. Imagino que se estejam a questionar para que quero eu livros emprestados. Já vos estou a ver desse lado a franzir as testas. Pois é uma pergunta válida para a qual eu tenho uma resposta perfeitamente lógica. Pelo menos na minha cabeça. Poupança é o motivo imediato. Para quê gastar dinheiro se posso ler sem comprar? É claro que é melhor ler um livro nosso, não exige tantas cautelas e pode-se sublinhar e fazer anotações (sim, eu pertenço a esse grupo de monstros). Mas essa não é a única razão para morarem livros emprestados cá em casa. Há pelo menos mais duas. Começo pelo “pedir um livro sem pensar”. Sou muitas vezes apanhada no calor do momento, significa que, quando alguém me fala de um livro com entusiasmo só há uma palavra que se forma na minha cabeça: “QUERO!” E verbalizo, ou seja, peço emprestado sem pensar que já há uma pilha de livros emprestados em casa. A outra razão é mais cruel. Acontece quando são os amigos que me obrigam a aceitar o empréstimo, os malvados! Na verdade, nem precisam de insistir por aí além, um simples “tens de ler” basta para me levar à certa.

 

Bom, mas com tantas hipóteses a ponderar a leitura seguinte continua por decidir. Chego a seleccionar um pequeno grupo de livros e leio o início de cada um deles. O que me agarrar ganha. Nem sempre se verifica esse agarramento, o que representa todo um outro drama. Deitar à sorte também é uma opção, assim como pedir a opinião do marido (enfim, mais ou menos como deitar à sorte).

 

Contudo, nem sempre me submeto a este processo cansativo. Vezes há em que um livro me escolhe. E isso, caros amigos leitores, é um processo milagroso que não posso explicar, mas que afianço ser garantia de uma leitura perfeita (ou perto disso).


Sobre os livros que nos escolhem guardo, acima de tudo, uma sensação de leveza e alívio por não ter de me consumir com decisões. E algumas histórias. Conto-vos da próxima vez.

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Publicado em Inominável nº 6

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

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O Papa Júlio II incumbiu Miguel Ângelo da pintura do teto da Capela Sistina, que deve o seu nome ao Papa Sisto IV. A capela é usada para reuniões do Colégio dos Cardeais destinadas a eleger novos Papas, o conclave, e também para as cerimónias da Semana Santa. Entre 1508 e 1512 Miguel Ângelo realizou a difícil obra, uma prova de resistência e assombrosa criação. As formas de Miguel Ângelo são dotadas de força escultórica e ímpeto plástico próprio. Os frescos são uma obra monumental. O artista criou nove cenas bíblicas, referindo-se ao Velho Testamento e mostrando a Criação do Mundo, a Criação do Homem, a Descoberta do Pecado, a Expulsão do Paraíso e o Dilúvio Universal. 

Em 1534 Miguel Ângelo voltou novamente à Capela Sistina, onde pintou o Juízo Final na parede do altar.

Poderia ficar horas a absorver cada pormenor das figuras pintadas na Capela Sistina. Tive sorte, pois tendo estado lá em Dezembro não havia um “mar de turistas” excessivo, como acontece durante a maior parte dos meses do ano.

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Em 1547, o Papa Paulo III nomeou Miguel Ângelo arquiteto-chefe da Basílica de São Pedro. Nessa época, Miguel Ângelo construiu diversas obras arquitetónicas, entre elas a Praça do Capitólio, ladeada pelos Palácios dos Conservadores e dos Senadores. Entre 1561 e 1564 edificou a Igreja de Santa Maria degli Angeli. Durante a criação destas obras o artista conduziu os trabalhos da Basílica de São Pedro, edificando-lhe a grandiosa cúpula. Miguel Ângelo morreu antes de completar as obras da basílica, aos 89 anos, no dia 18 de Fevereiro de 1564.
Miguel Ângelo era introvertido e nostálgico, mas ao mesmo tempo emotivo e entusiástico. Viveu uma vida moderada, no meio dos seus trabalhos. Preferia a solidão, mergulhado na criação artística. Considerava-se acima de tudo um escultor. De facto, até a sua pintura demonstra a marca do seu talento como escultor. Miguel Ângelo definiu a escultura como a “arte de representar a matéria”. Ao esculpir o mármore, o seu material de eleição, da frente do bloco para a parte posterior, acreditava estar a libertar uma figura aprisionada dentro da pedra. Essa “figura” era a ideia que preexiste no pensamento do artista/criador. Ele dissipou a estabilidade e a rígida harmonia do Renascimento. Não hesitava em distorcer a anatomia humana e as formas arquitetónicas, em favor da manifestação de emoções.
É um sentimento único ver o trabalho magnífico de Miguel Ângelo. Espero num futuro breve conseguir ver as restantes obras que ele deixou para a posteridade.

Bibliografia: CLEMENTS, Robert J. Michelangelo`s Theory of Art; DELOGU, G. Miguel Ángel: escultor, pintor y arquitecto

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Publicado em Inominável nº 6
por Alexandra Coelho

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Esta280725198_ffe073f146.jpg minha “viagem” teve o seu ponto de partida no início do ensino secundário, mais concretamente na disciplina de História de Arte. A beleza das artes plásticas é algo que se sente e se vê. Este sentimento foi aumentando com o passar da aprendiza-gem, com o estudo de vários autores/artistas, de cada obra que me foi dada a conhecer. Cada um de nós tem os seus artistas preferidos, as correntes artísticas com que nos identificamos mais e obras plásticas que nos fazem sentir intensamente.


O artista plástico de quem irei falar neste primeiro artigo é Miguel Ângelo. Um dos maiores artistas plásticos de sempre. Sou uma apaixonada pelas suas obras, esculturas, pinturas, desenhos, construções arquitetónicas, ou seja, por tudo que ele representa e por tudo o que ele criou. Passados alguns anos, pude finalmente contemplar a grandiosidade e beleza de algumas obras de Michelangelo. Sinto me uma privilegiada por isso.


A criação artística de Miguel Ângelo é sempre uma explosão de sentimentos. Ele conduz-nos ao centro da sua criação, transmitindo-nos uma grande segurança. Mostra-nos a sua personalidade e independência absoluta. Miguel Ângelo acreditava que a sensibilidade para entender e ver a beleza era um elemento fundamental ao artista criador.

Michelangelo Buonarroti nasceu no dia 6 de Março de 1475 em Caprese. Passadas poucas semanas do seu nascimento a família regressou a Florença, de onde era originária. Desde muito cedo demonstrou uma grande ambição artística. A sua primeira formação artística foi em 1488 na oficina de Domenico Ghirlandaio. Em 1489 passou a estudar escultura com Bertoldo di Giovanni, graças ao mecenato de Lourenço de Medici, o Magnífico. Governante respeitado e patrono das artes, transformou o seu palácio em morada de artistas e filósofos. Miguel Ângelo foi para Roma em 1496, e aí esculpiu uma das suas grandes obras: a pedido de um cardeal francês, ele esculpiu “Pietà”, que se encontra na Basílica de São Pedro no Vaticano. Esta “Pietà” é um ponto fundamental na evolução espiritual do artista. Ele revelou ao mundo esta impressionante cena de dor, de amor materno e morte, com apenas vinte e dois anos de idade. Esta escultura demostra a sua personalidade e rompe com todas as formas escultóricas tradicionais. Com uma audácia própria, Miguel Ângelo coloca o corpo nu de Jesus sobre as pernas de sua mãe, surpreendentemente jovem. Ela parece petrificada pela dor, que se funde no seu rosto com uma expressão de quase doçura.


A harmonia espiritual e formal concede a esta escultura uma força quase sobre-humana. Miguel Ângelo consegue “libertar” estas duas figuras, tornando-as completamente reais. Posso dizer que estar perto desta escultura transmitiu-me serenidade absoluta. Por momentos senti, bem perto, a alma do artista.

  

Foi uma das grandes e importantes figuras do Renascimento. Apesar de ter perpetuado os Papas e figuras nobres para quem trabalhou, viveu sempre em oficinas onde dava vida às pedras, e modificava as paredes para sempre com cenas irrepreensíveis. Teve uma vida de trabalho árduo e contínuo. Viveu entre sujidade, tintas, ferramentas e pedras. O artista e a sua obra ficarão para a eternidade.

(continua)

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Publicado em Inominável nº 6
por Alexandra Coelho

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Uma fotografia pode transportar-nos para um imaginário, para sentimentos ou recordações. Mesmo uma fotografia mais purista, com domínio da técnica só será uma boa foto se nos transmitir algo.
No entanto, a fotografia não acaba no momento em que as cortinas se fecham e o sensor regista “o que viu”.

IMG_2923.jpgÉ precisamente aqui que reside a primeira grande decisão: qual o formato em que queremos guardar o nosso negativo digital? RAW (cru) ou JPEG (com compressão)? Pessoalmente não hesito, e escolho o formato RAW! O ficheiro JPEG está já altamente processado pela câmara e contém apenas, sensivelmente, 25% da informação da imagem. Na edição, se considerarmos o ficheiro JPEG, faltará a parte da informação que foi deitada no lixo. O RAW não tem esse handicap. No entanto, como em tudo, há um senão: é necessário muito mais espaço para guardar os dados. Por exemplo, para uma câmara de 20MP a mesma fotografia pode ter 5Mb se estiver em formato JPEG, e rondar os 25Mb no formato RAW. É uma opção que tem de ser tomada no momento da fotografia. Queremos ficar com apenas ¼ da informação, ou com a totalidade dos dados no nosso negativo?

 

A minha recomendação é de que fotografem sempre em formato RAW. Por ter fotografado algum tempo em formato JPEG, perdi a oportunidade de trabalhar algumas fotografias de modo a aprimorar o resultado final. Não esperem, como eu, por arrependimentos futuros, para que numa fase em que já dominem a fotografia e edição de imagem necessitem de dados que nunca chegaram a ter. Voltarei a este tema quando se abordar a edição fotográfica.

 

Uma das técnicas que nos permite transmitir sentimentos ou transportar-nos para os nossos imaginários é a velocidade de obturação. Podemos criar congelamentos perfeitos dos motivos, ou exposições prolongadas, recorrendo aos arrastamentos dos motivos ou dos enquadramentos da fotografia.


Antes de uma abordagem à fotografia de modo 100% manual (a acontecer em próximos artigos), vou explicar os modos pré-concebidos pelos fabricantes das vossas câmaras. Seja Canon, Nikon, Sony, Pentax ou qualquer outra marca, todas as SLR’s (*) têm um modo denominado de “Prioridade à Velocidade”. Ou seja, o fotógrafo define qual a velocidade pretendida para criar a sua fotografia, e a máquina decide qual a abertura necessária, em função da quantidade de luz, para efetuar o registo. Esse modo surge no seletor de programas com a designação Tv nas máquinas Canon e com a letra S nas restantes.

IMG_3318.jpg

Por exemplo, se quisermos efetuar um congelamento instantâneo do motivo, devemos utilizar uma velocidade de obturação elevada, de forma a garantir um bom detalhe em todos os pontos da fotografia. São bons exemplos a passagem de um avião a alta velocidade, o rebentamento das ondas contra as rochas, ou a queda de um pingo.

001.jpg

Se por outro lado, queremos dar a sensação de arrastamento dos motivos, como nos casos de quedas de água, luzes de carros, ou nuvens, devemos optar por uma velocidade menor, expondo os motivos um pouco mais, de forma a criar uma suavidade de arrastamento. Nestes casos, recomendo a imobilização da câmara com recurso, por exemplo, a um tripé.

002.jpg

Há que ter em atenção que tratando-se de um modo em que apenas controlamos uma das variáveis, podemos não conseguir o resultado tão desejado… há fotografias que só conseguimos obter quando, do nosso lado, controlamos todas as variáveis: o formato do ficheiro, a velocidade, a abertura, a sensibilidade, as distâncias focais e hiperfocais, etc. Ou seja, controlo total para o resultado perfeito.

No próximo texto abordarei o conceito da abertura do diafragma e a sua influência sobre o resultado final.

 

Até lá, boas fotos
(e não se esqueçam de as fazer em formato RAW!)

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(*)  SLR (Single Lens Reflex) refere-se a máquinas fotográficas com sistema de espelhos semi-automático e pentaprisma.

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Publicado em Inominável nº 6

por Gil Cardoso

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CEMITERIO DE MIROGOJ

Zagreb, Croácia

É estranho pensar num cemitério como um local colorido, mas a verdade é que em Mirogoj, o maior cemitério da capital croata, a cor é o elemento dominante, e contribui para o seu carácter único.

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PORTO CERVO

Costa Esmeralda, Sardenha

Há influências gregas, espanholas e mouriscas na arquitectura de Porto Cervo, onde os tons da terra e do mar se misturam em harmonia perfeita.

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SARCHI

Alajuela, Costa Rica

As carretas (carros de bois) tradicionais, declaradas Património Imaterial da Humanidade pela Unesco, são o maior expoente da riqueza artesanal da Costa Rica.

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JUZCAR

Andaluzia, Espanha

Neste pueblo blanco, a cor rainha é o azul. Em 2011, as casas de Júzcar foram todas pintadas desta cor, numa manobra publicitária para o lançamento do filme “Os Smurfs” - e assim continuam até hoje.

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SANTA FE

Novo México, EUA

A herança índia e espanhola reflecte-se na cultura e no colorido desta cidade do sul dos Estados Unidos.

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MERCADO DOS LAVRADORES

Funchal, Madeira

No centro do Funchal, este famoso Mercado é fresco, animado e colorido. Há flores e frutas de todas as espécies, e é impossível resistir a provar (e comprar!) tantas delícias.

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CEMITERIO FELIZ DE SAPANTA

Maramures, Roménia

O nome diz tudo. É no norte da Roménia que está situado aquele que é certamente o cemitério mais original do mundo. Original e vibrante de cor, celebrando a vida dos que ali estão sepultados.

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AVEIRO

Portugal

Há quem lhe chame “a Veneza de Portugal” – pelos seus coloridos moliceiros, pelos edifícios Arte Nova em tons pastel, pelo canal que atravessa a cidade, e pela belíssima ria em que está inserida.

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Publicado em Inominável nº 6

por Ana CB autora dos blogs Viajar. Porque sim.Gene de traça, e
A vida e outros acasos.

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