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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 25.03.16

O Capuchinho Azul-Mirtilo

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ra uma vez uma menina pequenina de cabelos cor de abóbora que tinha tantas sardas na cara quantas estrelas há no céu, e cujo nome era doce e pequeno, como ela:Vocês sabem de quem é quem eu estou a falar, não sabem? Exactamente. Da Ana! Na noite de Natal, a sua avó surpreendeu-a com a prenda mais especial que ela já alguma vez recebera. Uma prenda feita pela misteriosa tribo das neves, Xirihbitatá, e que desde essa noite a Ana nunca mais largou.

Lembrava-se de quando a avó a colocara sobre os seus ombros, fizera um laço com os atilhos e depois lhe tapara a cabeça com o carapuço, puxando-lhe os cabelos cor de abóbora para a frente. “Perfeita! Eu sabia que ias ficar linda com ela!”. Naquele momento, Ana sentiu-se muito quentinha e confortável, e uma felicidade imensa apoderou-se dela. 

 

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Aquela era a capa mais bonita que ela já vira na vida! Era azul, da cor dos mirtilos, e para seu espanto, cheirava a bosque, a chuva e frutos silvestres. Cheiro esse que não desaparecia nunca, nem depois de a mãe a lavar com sabão azul e branco, detergentes e amaciadores. Também a protegia tanto do calor como do frio, podendo usá-la o ano inteiro, e ao contrário de todas as outras roupas que ficavam curtas à medida que ela ia crescendo, a capa azul mirtilo ia-se adaptando à sua dona e crescendo com ela, para que nunca deixasse de lhe servir. E à noite, quando ela pendurava a capa na cadeira e se enfiava na cama, um doce aroma a floresta, chuva e frutos silvestres invadia o seu quarto, ela fechava os olhos e sonhava com lugares mágicos e nunca antes visitados. Em todos eles trajava o seu capuchinho azul mirtilo e com ele sentia-se invencível. 

A Ana e a sua capa eram de tal maneira inseparáveis que já toda a gente lhe chamava Ana Mirtilo. Mas ela não era a única a adorá-la...

 

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A Tina Rabina era a miúda mais insuportável da turma da Ana. Desde o infantário que lhe atazanava a paciência. Eram pastilhas elásticas nos cabelos, lagartixas na mochila, pioneses na cadeira, bombinhas de mau cheiro nos bolsos do casaco… As maldades da Tina Rabina não conheciam limites. Ela não era apenas chata ou travessa. Ela era uma sugadora de alegria. Era como se trouxesse sempre consigo nuvens negras para tapar os dias de sol, e transformasse qualquer arco-íris num borrão triste e indefinido, apenas porque lhe apetecia.

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A próxima tropelia que a Tina Rabina estava a planear era inimaginavelmente cruel, pois o que ela mais ambicionava, nos últimos tempos, era ter uma capa azul mirtilo, igualzinha à da Ana. Igualzinha, não. Ela queria a da Ana! Ela queria-a, mais que tudo. Por isso, num dia em que a Ana a pendurou no bengaleiro para ir à casa de banho, a Tina Rabina roubou-a sem ninguém ver. Abraçou-se a ela, sentindo o maravilhoso odor a bosque, a chuva e frutos vermelhos e imaginou o quanto a Ana choraria quando visse que ela tinha desaparecido. Mas, estranhamente, em vez de sentir orgulho na sua maldade – como era costume – ela começou a sentir-se culpada. Quanto mais se abraçava à capa em busca de conforto, pior se sentia.

- Mas o que é isto?! - exclamou, irritada, sem perceber aqueles sentimentos que nunca a tinham visitado antes.
Como não queria que ninguém a visse com ela, escondeu-a no cacifo, fechada a sete chaves, pensando em como iria sair da escola com o capuchinho azul mirtilo.

 

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A Ana chorou. Chorou muito. Em casa, nem o pai, a mãe ou o irmão a conseguiam consolar. Ela nunca se sentira tão triste em toda a sua vida e naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, não viajou para terras distantes nos seus sonhos, acompanhada do maravilhoso aroma a florestas do norte.

  

 

 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 2
por  Marta A. autora do blog Um dia acabo o Livro