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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 29.02.16

Maria de Fátima Santos

Fátima Santos retrato (15).jpg

As primeiras letras, as leituras ouvidas, foi de minha mãe que as soube, às tardes e pelas noites, em contos que ela me lia ou inventava. Quando me fiz de idade, frequentei a escola que, ao tempo, era a soma dos salpicos que as salas de aula faziam pela cidade. Calhou-me uma sala enorme por cima de uma adega. Tinha para recreio uma varanda e, do outro lado duma rua estreita, fazia-se pão e cheirava a estevas e a lume.

Num dia, o meu pai levou-nos para África. Fomos num navio e foi por lá que fiz o exame da quarta, depois que subi a serra de Chelas num lento e inesquecível comboio. Por lá me cresci de chuvas e rios e trovoadas. E cheiros. Odores ainda mais intensos que o cheiro inolvidável que tinha a minha mala de ir à escola. E um dia, como fui, voltei.

Foram-me então tempos de luta. Tempos de mordaça, em que pedagogia se conjugava com descalço nos pés dos meninos que ensinava, até que chegou aquele Abril e o dealbar da sua madrugada. E foi em liberdade que criei os meus filhos. Disso, e do mais que sou e tenho, agradeceria aos deuses se neles acreditasse.

De vez em quando, escrevo. Escrevo sempre. Ficaram-me em papel um livro de contos e um romance e outros contos e poemas dispersos. De vez em quando, faço um desenhito apenas para consolo do tanto que gosto.

De minha biografia não sei mais do que isto. Ou não sei dizê-lo. Ou nem mais biografia eu tenho para além de que nasci em Lagos num Janeiro de quarenta e oito e sou do nome que me deram e aqui lavro.

Maria de Fátima Marques Correia Santos

 

Maria de Fátima Marques Correia Santos, nasceu em Lagos, Portugal, em 1948
Mantem os blogues tristeabsurda e repensando
Colabora no blog e na revista electrónica Samizdat
Integra um grupo que realiza, em Lagos e arredores, tertúlias de literatura dita
Em 2009 publicou o Papoilas de Janeiro, um livro de textos em prosa
Com poesia esparsa em vários livros em co-autoria, integra os Volumes II (2007) e VII(2012) das antologias ditas Cinco Poetas de Lagos
Em 2012 um conto seu foi seleccionado pelo júri dos novos talentos FNAC literatura
e está publicado por essa editora

Nos intervalos da escrita gosta de desenhar e publica alguns dos resultados dessa sua actividade no blog intimarte

  

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 2

Sex | 26.02.16

O Cantinho da Milu

 

Lutar, nunca desistir - O Cantinho da Milu

O Cantinho da Milu é uma Associação Protectora de Animais, sem fins lucrativos, situada em Setúbal e fundada e gerida pela Emília Silva, carinhosamente tratada por Milu.

twice

 Nascida e criada em Angola numa família que prezava o amor pelos animais, ali viveu até 1975, ano em que imigrou para Portugal. Em 1993, quis o destino que ao passar pelo Marquês de Pombal, em Lisboa, encontrasse uma cadelinha com pouco mais de 2 meses, em péssimo estado. A Milu recolheu-a e em boa hora o fez, pois além de lhe ter sido diagnosticada uma parvovirose, teve também que, pouco tempo depois, ser operada aos intestinos. A Twice - assim foi chamada a pequena sobrevivente - foi a primeira cadela da Milu em Portugal e acabou por a marcar profundamente, tendo sido talvez a grande responsável pelo rumo que a sua vida tomou.

cantinho

Nos anos seguintes a Milu cruzou-se com muitos mais animais abandonados, doentes, maltratados e acidentados. Não sendo capaz de ficar indiferente, foi prestando assistência e aumentan-do o número de cães recolhidos, até que em Fevereiro de 2007 adquiriu um terreno para os acolher a todos, realizando um sonho que começara a tomar forma quando a sua vida se cruzou com a da Twice, que hoje é a imagem do albergue.

 

Nasceu, assim O Cantinho da Milu, que em Abril de 2011 foi oficialmente constituída como Associação Protectora de Animais, sem fins lucrativos. Neste albergue vivem, à data de hoje, cerca de 650 cães, a maior parte dos quais totalmente a cargo do Cantinho, a que a Milu dedica todo o seu tempo, numa luta constante para que possam todos viver com o máximo bem-estar possível recebendo os cuidados de que necessitam.

 

Em Janeiro, graças ao sucesso de uma campanha de Crowdfunding – e a todos os que, de alguma forma, contribuíram – o Cantinho da Milu conseguiu construir a Casa dos Velhinhos onde os residentes seniores, necessitados de conforto extra mas, infelizmente, com menos probabilidades de serem adoptados, poderão viver resguardados não só do frio no Inverno, como do calor excessivo no Verão.

 

casa dos velhinhos

 

cantinho

A Milu é a prova de que uma única pessoa pode fazer a diferença. Com muito trabalho e dedicação, conseguiu lançar a primeira pedra de um projecto que, ao longo dos anos, tem vindo a conquistar apoios e a construir parcerias que lhe permitem manter o espaço onde os animais que outros descartaram, maltrataram ou ignoraram, são cuidados e protegidos, enquanto aguardam que alguém se encante por eles e lhes dê uma família.

 

São 650 cães, e este número, infelizmente, não pára de crescer. Todas as ajudas são bem-vindas. Se puderem ajudar, seja com bens, donativos ou mão-de-obra, estarão a contribuir para um projecto meritório que vos vai fazer acreditar que é possível fazermos mais e melhor.

 

E se passarem pela zona de Setúbal, façam uma visita ao Cantinho da Milu e verifiquem, pessoalmente, o cuidado e o carinho com que todos ali são tratados.

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Donativos
IBAN: PT50 0036 0043 9910 0460 8641 2
BIC: MPIOPTPL
Número Solidário: 760 301 230
Contactos
E-mail: adoptar@ocantinhodamilu.com
Website: www.ocantinhodamilu.com
FB: O Cantinho da Milú

 

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Publicado em Inominável nº 2

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Qui | 25.02.16

Amor e cinema: a mistura perfeita! #2

Este é, por assim dizer, a primeira de muitas películas que Hollywood teve o cuidado de nos oferecer durante todos estes anos, onde o amor foi tratado e vivido de forma muito dramática. Quase dando razão ao belo soneto de Luís de Camões:

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

Deixemos por agora a poesia e regressemos ao cinema. E a outra história de amor… também ela mal resolvida. Chamo aqui o filme do qual retirei o nome deste espaço: Casablanca.

De 1942, este drama romântico tem tudo para ser um dos melhores filmes do mundo (encontra-se no top 10 mas em lugares diferenciados, variando conforme a entidade promotora). Não foi unicamente a presença de Bogart ou de Ingrid Bergman que deram a excelência à película. Mas a sua história, onde o drama de um amor conflituoso é elevado a tal êxtase que marca qualquer espectador. O excerto da parte final do filme, e que aqui deixo, reflecte o verdadeiro drama de quem (muito) ama.

Dando um ligeiro salto no tempo aterramos em 1951, onde sob a direcção de John Houston surge “The African Queen”. Com dois intérpretes fantásticos, novamente Humphrey Bogart e desta vez Katharine Hepburn, esta é uma daquelas histórias de amor que ninguém quer esquecer. E eu muito menos, pois adoro o filme.

O ano de 1961 traz-nos, a meu ver, um dos filmes mais fantásticos de Hollywood: “West Side Story”. Com música do maestro Leonard Bernstein, esta película atravessou todas as fronteiras que a idade costuma colocar, tornando-se um verdadeiro clássico.

Mais tarde, em 1966, pelas mãos do realizador francês Claude Lelouch surge uma longa-metragem que comoveu a sétima arte… e não só. Com um nome simples - “Um homem e uma mulher” - este filme, para além de ter sido marcante para a época, relata uma história de amor e amizade de forma muito peculiar. Conta também com uma música simplesmente inesquecível. Ora oiçam…

Poderia escrever um número infindável de páginas com referências a filmes onde o amor é o tema central. Dramas, comédias, musicais… enfim, um ror de películas fantásticas e sublimes.

Desde “Serenata à Chuva” com Gene Kelly, ou “Shall we Dance” com Fred Astaire e Ginger Rodgers, passando por “Os homens preferem as Loiras” com Marilyn Monroe, ou “Grease” com John Travolta e Olivia Newton-John, até terminarmos quiçá em “Cinema Paraíso” ou em “A vida é Bela”, ou porque não “O Carteiro de Pablo Neruda”, todos eles apresentam-se como óptimos exemplos de que o amor é a razão principal da existência do ser humano…

No entanto, vou referir somente um… “Forrest Gump” de seu nome. A história sincera do amor de um jovem - Forrest – com um ligeiro défice de inteligência, por uma jovem – Jenny – e que atravessa todo o filme, é o exemplo acabado de… “All you need is love”.

Termino assim com as palavras que são do próprio Forrest: “I’m not a smart man but I know what love is!”

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Publicado em Inominável nº 2
por José da Xã, autor dos blogs LadosAB e José da Xã 
e participante nos blogs O Bom, o Mau e o FeioA Três Mãos e És a nossa Fé!

Qua | 24.02.16

Amor e cinema: a mistura perfeita! #1

Alguém será capaz de imaginar o cinema sem o tema do amor? Alguém conseguirá calcular quantos filmes se fizeram sob a capa de um dos sentimentos mais incondicionais da natureza humana?

Só na Índia, um dos países com maior produção cinematográfica do mundo, as histórias de amor apresentadas no grande “écran” sucedem-se. Naturalmente, são as enormíssimas comunidades espalhadas pelo mundo as grandes consumidoras deste tipo de cinema, quase sempre acompanhado de músicas e danças. Um dos filmes mais célebres é o Sholay e remonta a 1975, sendo um excelente exemplo do que acabei de escrever.

Mas o amor como grande impulsionador do cinema está outrossim presente na indústria cinematográfica ocidental. E desde os primórdios. Actores como Douglas Fairbanks, Rudolfo Valentino e obviamente Charlie Chaplin usaram o amor, com todas as suas venturas e desventuras, como tema residente dos filmes que realizaram, produziram e em que participaram. Eis então uma curta-metragem com mais de 100 anos onde o maior de todos os actores de cinema surge na sua tão característica figura de Charlot. O filme chama-se “The Tramp” e deve ser visto na sua totalidade para que entendam toda a mensagem.

Conforme decorria o século XX, mais se acentuavam as longas-metragens sobre o tema do amor. Um dos melhores filmes de Hollywood (neste momento está em 4º lugar em algumas listas!) tem como base para além de uma guerra (outro dos frequentes temas no cinema!), uma história de amor. Falo de “E Tudo o Vento Levou”. Um longuíssimo filme que tem marcado gerações. Uma longa-metragem que todos nós, provavelmente, já vimos. No meu caso mais que uma vez.

 (continuação)

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Publicado em Inominável nº 2
por José da Xã, autor dos blogs LadosAB e José da Xã 
e participante nos blogs O Bom, o Mau e o FeioA Três Mãos e És a nossa Fé!

Ter | 23.02.16

Menor que 3 (continuação)

 

Um conto virtual, fantástico e piroso

(continuação)

 

Jogaram a tarde inteira juntos, despachando  vilões à velocidade tremenda que os poderes de ambos permitiam.

 

[Spartan]: Hey, I have to go now.. :-(
[Fuzzybunny]: y, me 2
[Spartan]: I really enjoyed questing with you, can I add you to my friends list? Maybe we can quest some more if you want?
[Fuzzybunny]: y, ok, i here tomorow
[Spartan]: Ok, I'll see you tomorrow then, if not sooner! ;-)
[Fuzzybunny]: kk, bye, ty!
Spartan added to friend list.
Spartan has gone offline.
Fuzzybunny has gone offline.
[Fuzzybunny] has come online.

 

Fuzzybunny, fiel à espécie de compromisso feito com o seu companheiro, entrou no jogo no dia seguinte, mas este ainda não estava online. Decidiu esperar. A verdade é que apreciara imenso a companhia daquele estranho, já que ele mantivera uma espécie de conversa agradável a que Fuzzybunny respondera omelhor que sabia. Sentiu-se inesperadamente decepcionado por o seu mais recente colega não estar disponível para jogar ainda, aparentemente. Esperou uns 20 minutos, tratando doutros assuntos. Decidiu depois aventurar-se sozinho.

 

[Spartan] has come online.

 

"Ah! Finalmente! Deixa lá ver se ele fala comigo..."

 

[Spartan]: Hey! Good afternoon! Are you busy? Wanna go kill some baddies? :-D
[Fuzzybunny]: hi, yes, lets go xD

 

A falta de expressividade escrita de Fuzzybunny não era análoga à excitação subconsciente que sentia ao saber que mais uma tarde de diversão certa se avizinhava.

Nos tempos seguintes, Fuzzybunny e Spartan tornaram-se aventureiros inseparáveis, e progrediam a igual passo na sua ascensão até ao nível máximo do jogo, derrotando milhares de inimigos, contornando desafios, avançando nas suas capacidades e explorando novas zonas magníficas do jogo. Interagiam tanto que até o inglês de Fuzzybunny melhorou, o que permitiu numa conversa banal específica fazer duas descobertas inesperadas.

 

[Spartan]: This new area we're in looks so much like my country!
[Fuzzybunny]: ah really? i never asked you where you from, actually...
[Spartan]: Oh? yeah... I think we never discussed it... I'm from Portugal :-)

 

Fuzzybunny arregalou os olhos, duvidando do que lia. Há dois meses que falava em inglês com um português como ele!

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[Fuzzybunny]: lol, mas entao es portugues? xD ganda cena

[Spartan]: Olha... essa agora! LOL
[Spartan]: Temos andado feitos tontos a falar inglês quando afinal!... Quer dizer, para ser mais correcta tenho de dizer que sou portuguesa, com "a" no fim :-)

 

Nenhuma afirmação poderia ter fulminado Fuzzybunny com maior efeito. Uma portuguesa? Uma rapariga? Num jogo online de fantasia medieval?

 

[Fuzzybunny]: ganda cena xD

 

O facto, objectivamente irrelevante, foi para Fuzzybunny um factor que cada vez mais o motivava a jogar aquele jogo específico, pois sentia naquelas aventuras digitais com uma portuguesa misteriosa um alívio desconhecido, como se aquelas horas o completassem, se não  como homem, como ser humano. Isto tudo sem sequer ter noção do aspecto dela ou da sua voz. A personalidade amistosa, extrovertida,  divertida e inteligente dela atraía-o. Quando sozinho, punha-se a suspirar sem querer enquanto esperava pelas palavras mágicas:

 

[Spartan] has come online.

 

Houve sucessos e insucessos. Houve dias melhores e piores. Num dia eram devorados por um dragão. Noutro encontravam um artefacto raro e poderoso. Mas faziam tudo juntos. Alguns meses depois chegaram finalmente ao nível máximo, mas nem aí o desafio era menor, pois havia sempre alguma coisa a fazer. Concordaram em usar um programa para comunicarem vocalmente. Aí ele ouviu-lhe a voz pela primeira vez, que resplandecia a mesma personalidade que observava no mundo virtual. Finalmente souberam os nomes verdadeiros um do outro. Que interessava, enfim? A única coisa que sabiam era que já não sabiam jogar um sem o outro, tão habituados estavam. Os dias, semanas e meses passavam-se. A amizade entre os dois solidificara-se. Apenas uma coisa restava.

 

[Fuzzybunny]: olha la, queria perguntar te uma coisa
[Spartan]: Claro! Diz lá
[Fuzzybunny]: sabes que vai fazer um ano que a gente se conhece?
[Spartan]: Olha.. a sério!? Já tanto tempo? Nem me lembrava :-)
[Fuzzybunny]: pois, eu estava a perguntar me se nesse dia nao gostarias de combinar qualquer coisa, no "mundo real" xD
[Spartan]: Ah..
[Spartan]: Bom... calha a que dia? Não sei, desculpa :-/
[Fuzzybunny]: dia 14 fevereiro

 

A resposta tardou. O simbolismo do dia não escapara a Spartan.

 

[Spartan]: Sim, pode ser :-)

 

Combinaram o local e a hora.

Naquele dia de S. Valentim, nem Fuzzybunny nem Spartan ficaram online. Nem estiveram sozinhos.

 <3

 

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Notas do autor:

Um jogo MMO (Massive Multiplayer Online Game) é qualquer jogo que tenha uma grande quantidade de jogadores num mesmo mundo virtual. O diálogo está escrito de forma a imitar o mecanismo de chat típico de um MMO, ou seja, "[nome_personagem]: mensagem". Outras mensagens de jogo relevantes podem também aparecer no chat. Os erros ortográficos e gramaticais no diálogo de Fuzzybunny são propositados. A utilização de abreviaturas no chat facilita a comunicação, pois são rápidas de escrever e ler. Algumas traduções:

  • y - "Yes" ou "Yeah"
  • u - "You"
  • ty - "Thank you"
  • gl - "Good luck"
  • np - "No problem"
  • k ou kk - "Ok"
  • 2 - "too"

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Publicado em Inominável nº 2
por Rei Bacalhau que participa no blog O Bom, o Mau e o Feio

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