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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 08.01.16

Por terras do Rei Artur

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Desde pequena, muito pequena, que me lembro de gostar de tudo o que era proveniente de Inglaterra, desde a sua língua e musicalidade, aos desenhos animados em que os animais não só falavam, como o faziam com British accent! A minha mãe tinha um estranho fascínio por tudo o que se relacionava com as famílias reais, sendo a inglesa uma das suas preferidas, talvez por todos os amores e desamores que faziam as notícias, normalmente nas revistas cor-de-rosa, onde a par da coscuvilhice de sangue azul vinham as imagens de uma baixa londrina cinzenta e romântica, que me faziam sonhar em lá ir.

Vim este ano de malas feitas para terras de Sua Majestade, onde resido há quase oito meses. Parti para esta aventura num dia auspicioso, sexta-feira santa, véspera da Páscoa e do símbolo do renascimento, mas também dia de anos do meu filho. Ofereci-lhe como prenda de aniversário uma viagem só de ida, e a esperança da concretização dos nossos objectivos.

A primeira paragem nesta que ia ser uma longa jornada foi em Liverpool, onde iríamos passar um mês na casa de uns amigos. Havíamos deixado para trás um céu azul de trinta graus e nunca mais me vou esquecer, quando saí do avião, do impacto/choque que sofri ao ser atingida por uma rajada de chuva e vento gelado. A meu lado, uma mulher de ar bronzeado e chinelos nos pés, com o ar mais feliz que possam imaginar, com aquele não-sei-quê de aconchego que se sente ao regressar a casa. Olhou para mim e com um sorriso rasgado (que descobri mais tarde ser característica de um povo a que chamamos “frio”), exclamou: “Welcome to Liverpool!”. Fechei o meu casaco até ao queixo e sorri de volta. Era o início de uma nova vida, e o apartamento, o emprego das nove às cinco, a família (onde se incluem os dois gatos) tinham ficado para trás. Não havia volta a dar, a não ser sorrir de volta para as novas oportunidades que iriam surgir. Mas não surgiram em Liverpool, uma cidade grande e cinzenta, muito mais suja e barulhenta do que o meu imaginário idealizava, bem regada a álcool durante a noite, onde o frio não impede os vestidos ultra curtos e as pernas despidas de meias, e onde as mulheres parecem todas iguais, com make-up para lá do razoável. Por graça, o meu filho até dizia que Liverpool parecia uma fábrica de bonecas, todas saídas do mesmo lote!

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O segundo choque a seguir ao clima foi a língua. Eu, convencida de que esse não seria o meu problema, definitely, dei por mim a desejar, em certas situações, que tivéssemos um tradutor automático incorporado, sendo “Excuse me?”a pergunta que mais formulei naquele mês! O Scouse accent é, sem dúvida, um universo linguístico à parte! No entanto, a cidade tem edifícios de arquitectura maravilhosa e sítios icónicos, como a loja dos Beatles ou Albert Dock, docas maravilhosas cheias de história, onde desembarcaram tantos emigrantes, local de passeio agora com lojas e carrinhas de gelados, risos no ar e gaivotas a pairar...

Naturalmente não pudemos deixar de visitar o Merseyside Maritime Museum, onde li algo que me comoveu e me relembrou que a emigração já foi uma dor maior, e como somos agora abençoados: “I leaned over the railing and watched the ropes which held us to the dock. When they slipped into the water my heart sank with them – Mavis Appleyard”.

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Ao fim de exactamente um mês surgiu a oportunidade de rumar a sul. Assim, no dia da Mãe fiz-me à estrada de malas feitas com o meu filho, numa viagem de expresso que durou oito horas, apresentando-nos paisagens maravilhosas, e que nos levou a novo destino: Taunton, capital do distrito de Somerset, no Southwest, onde encontrei a Inglaterra do Rei Artur com que sonhava em pequena, e foi aqui que as peças do puzzle se encaixaram. Tudo se tornou mais fácil (até o inglês aqui se compreende melhor!) e em pouco tempo estabeleci-me na minha casa e no trabalho, e o meu filho frequenta finalmente uma escola que vai de encontro às suas necessidades. Chamem-lhe destino, chamem-lhe o que quiserem, talvez nada seja por acaso... mas aqui encontro tudo o que procurava nos meus sonhos de infância!

O countryside é maravilhoso, e existe um equilíbrio perfeito entre natureza e progresso, entre a tradição e o moderno. Estamos perto da costa jurássica, e à distância de uma viagem de autocarro podemos cheirar o ar salgado da beira-mar e ouvir a música incomparável das ondas a saudarem a praia.

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Os campos são a perder de vista e o verde é mais verde. Os animais do campo vivem com a qualidade a que têm direito e, como eu costumo dizer, aqui nem os gatos têm medo das pessoas, vindo ter connosco na rua e aceitando festas como se de cães se tratassem. As ruas são limpas e não se vêem animais abandonados. Fervilha a actividade, as lojas são muitas e de todo o género, as ruas são floridas e os parques, com os seus esquilos, são mais que muitos… e quando menos se espera ouve-se música ao vivo numa esquina: pode ser um homem e uma harpa, como pode ser uma banda inteira a montar um espectáculo! Arte e actividades outdoor são muito apreciadas, talvez mais do que em países com mais sol. Feiras de artesanato e de todo o género, campanhas de solidariedade para as mais variadas causas, são algo comum pelas ruas que percorremos todos os dias. Não existem prédios imensos aqui, e todas as fachadas são mantidas na forma original: castelos que são agora hotéis, pubs, restaurantes, cafés, tudo mantém o charme e a característica britânicas, não faltando as charmosas casas de chá, com os seus bules em mesas atoalhadas e mobiliário rústico, e a livraria Waterstone’s com os seus lustres em tectos altos e as janelas vitorianas que nos fazem sentir num outro mundo, onde folheamos o nosso imaginário...

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Tenho muito mais para contar sobre esta experiência de viver literalmente na ilha, que por vezes parece um mundo à parte do real mas que tem também os seus quês menos charmosos. Um deles o frio, que já o sinto como uma ameaça silenciosa. Se sobreviver a ele (sim, sou demasiado sensível ao frio, o que é pouco conveniente aqui!), falarei da gastronomia, da tradição da cidra e das noites animadas por esta bebida e muitas outras, of course!, da ida que está programada a Glastonbury e ao seu Thor, vila mítica onde dizem que repousam os restos mortais do Rei Artur, das igrejas espantosas na sua arquitectura e energia positiva, das personagens excêntricas de carne e osso que encontramos por aqui (como o homem quase despido que passa os dias a dançar na esquina, ou o poeta que dizem ser louco, e que sobe uma rua íngreme de costas)... temas não faltam, nem a inspiração à minha volta!

See ya!

 

 

Texto de Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento e publicado na Inominável nº 1