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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 05.07.17

Viagens | o fascínio das aldeias portuguesas #2

O fasc+¡nio das aldeias portuguesas.png

 

Escaroupim 1.jpg

 

As aldeias avieiras foram criadas no início do séc. XX por pescadores oriundos de Vieira de Leiria, que vinham pescar ao Tejo durante o Inverno e regressavam à sua terra e à sua faina pesqueira habitual nos meses mais amenos. O Escaroupim é uma dessas aldeias e nela subsistem algumas casas tradicionais, construídas sobre estacas para evitar as inundações durante as cheias frequentes do rio e pintadas de cores vivas, as mesmas cores do barco que pertencia ao seu dono. Restauradas e agora dedicadas ao comércio ou funcionando como museu, enchem de cor esta aldeia – que é minúscula, mas senhora de um carácter bem original.

 

 

O cais palafítico, também renovado, abriga os barcos dos pescadores ainda activos, e foram construídos mais alguns cais onde atracam as embarcações protegidas com toldos que se dedicam a levar grupos de pessoas em passeio pelos mouchões (ilhotas formadas pela acumulação de aluviões) do Tejo, habitats únicos para muitas aves, peixes e até cavalos.

 

Mina S.Domingos 1.jpg

 

Perto de Mértola, numa das mais bonitas zonas do nosso Baixo Alentejo, a Mina de S. Domingos é uma aldeia absolutamente fora do comum. Dona de uma lindíssima e bem cuidada praia fluvial, de uma imponente igreja branca com laivos de mesquita que terá sem dúvida sido inspirada na Igreja Matriz de Mértola, a sua origem entrelaça-se com a história da exploração mineira que funcionou na região entre 1858 e 1965.

Mas é na Achada do Gamo, um dos locais onde se desenvolveu essa exploração, que deparamos com uma paisagem de ficção científica ímpar no nosso país: edifícios em ruínas, equipamentos abandonados, lençóis de água parada com cores acobreadas ou amareladas e vastas áreas pedregosas; um cenário pós-apocalíptico surpreendentemente atraente – e profundamente silencioso. Apenas se ouve o som da terra pisada pelos nossos passos, e esporadicamente o piar de uma ave muito ao longe. Ali é terra-de-ninguém, contaminada, onde rara vegetação cresce e que os animais evitam. Edifícios meio desfeitos, extirpados, estruturas expostas, os tons da pedra manchados pela ferrugem, o cinzento do solo declinado desde o quase branco até ao negro-carvão.

 

 

Existe um projecto para recuperar a área, por isso é muito provável que tudo isto mude (ou desapareça) em breve.

 

Salinas da Fonte da Bica 1.jpg

 

Verdadeiro prodígio da natureza, há mais de 800 anos que aqui se extrai sal puro, com uma produção que chega actualmente a atingir as duas mil toneladas anuais. O segredo destas salinas sem mar está no subsolo, rico em sal-gema, que permite na época mais seca a extracção de água salgada até à superfície, onde fica a evaporar em talhões para dela apenas restar o sal, que é depois retirado e armazenado para posterior escolha e embalamento – sem ser submetido a qualquer processo químico. O método de exploração destas salinas permanece quase inalterado desde há séculos, e quase completamente manual, pois poucas concessões têm sido feitas à modernidade, a bem da qualidade do produto.

 

 

Na estrada que rodeia as salinas, as pequenas casinhas de madeira onde em tempos se armazenava o sal (porque a madeira é resistente à humidade e à corrosão pelo sal) estão hoje convertidas ao comércio, mas não perderam a sua graça.

 

Pia do Urso 1.jpg

 

A lenda diz que o topónimo da aldeia vem de longe, quando ainda havia ursos em Portugal e o lugar, abundante em água, era frequentado por pelo menos um exemplar da espécie. Verdade ou não, este animal é o ex libris da aldeia, e a sua imagem está por todo o lado nas mais variadas versões.

Conta também a história que esta foi zona de ocupação romana, e que por aqui passaram em 1385 os exércitos do Condestável a caminho da célebre batalha de Aljubarrota e mais tarde, no séc. XIX as tropas invasoras francesas. Bem comprovada que está a antiguidade do lugar, a aldeia de hoje certamente terá pouco a ver com a do passado. Típica aldeia serrana, com habitações em pedra e madeira, o trabalho de recuperação e requalificação de que tem vindo a ser alvo transformou-a num local florido, limpo e bem ordenado – uma espécie de postal ilustrado, que poderá desagradar a quem goste pouco de restaurações demasiado estéticas mas irá com certeza encantar a maioria dos visitantes. Rodeada pelo verde da serra, com ruas onde só aos habitantes é permitido o trânsito automóvel, sente-se no ar da aldeia o cheiro das árvores e das flores que trepam pelas paredes das casas, a maioria delas decoradas com pormenores fora do comum.

 

 

A Pia do Urso é também a “casa” do primeiro Ecoparque Sensorial do país, um agradabilíssimo percurso ao ar livre concebido a pensar nas pessoas invisuais e na possibilidade de apreensão do meio que nos rodeia através de sentidos como o olfacto, o tacto ou a audição.

 

 

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Publicado em Inominável nº 8
por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

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