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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 04.07.17

Viagens | o fascínio das aldeias portuguesas #1

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Em contraponto a esta imensa aldeia global em que o nosso planeta parece estar a tornar-se existe aparentemente, pelo menos na Europa, um crescente movimento de vontade de individualização, de necessidade da preservação de identidade cultural, de uma espécie de regresso às origens. Este movimento está a originar um ressurgir progressivo das aldeias portuguesas, quer pelo interesse de que são alvo por quem as visita, quer pela vontade de recuperação e repovoamento por parte de quem lá vive ou aí tem as suas origens.

Nos seus menos de 100 mil metros quadrados, o nosso país abriga inúmeras aldeias riquíssimas em história, tradição, gastronomia, cultura e património artístico, todas elas a merecerem atenção. Nalguns casos, a fama precede-as, e recebem milhares de visitantes por ano; noutros casos, há verdadeiras jóias praticamente desconhecidas da maior parte das pessoas, algumas delas abandonadas e em ruínas, outras cheias de vida e cor mas mesmo assim fora dos roteiros turísticos mais movimentados.

Estas são algumas das minhas preferidas.

 

O fasc+¡nio das aldeias portuguesas - foto 1.JPG

 

Drave 1.png

 

Aninhada numa cova entre três serras, invisível a partir das estradas que serpenteiam em redor, a aldeia da Drave tem o poder de enfeitiçar quem se decide a conhecê-la. A tarefa não é fácil: inacessível de carro, com um todo-o-terreno consegue-se ir até cerca de 1 km da aldeia, mas com um carro vulgar fica-se na melhor das hipóteses a quase 3 km de distância, e se a descida é relativamente pacífica, o regresso implica uma dolorosa hora de subida em declive por vezes bastante acentuado. Mas acreditem que vale a pena. Tem uma capelinha, branca no meio da pedra castanha, ribeiros que a contornam e até mesmo uma pequena cascata, árvores para piquenicar à sombra, um fantástico prado verde que parece saído dos livros, pontes de madeira, casas em ruínas, e um ambiente mágico.

 

 

Sem qualquer habitante nos dias que correm, e sem ter electricidade, água canalizada ou saneamento, a Drave (sim, diz-se “a” Drave) está actualmente “à guarda” do Drave Scout Centre (www.dravescoutcentre.com), um centro escutista que ali desenvolve regularmente as suas actividades.

 

Idanha-a-Velha 1.jpg

 

Em Idanha-a-Velha o tempo parece imobilizar-se como se estivéssemos numa planície alentejana e não em terras da Beira interior. A pedra é omnipresente: nos edifícios restaurados, nas pontes e monumentos, nas ruínas - em cada canto há vestígios do passado, perpetuados em pedra, lembrando que aqui existiu uma importante cidade romana, mais tarde a visigótica Egitânia, que acabaria por ser tomada e destruída pelos mouros.

As casas em pedra à vista alternam com outras pintadas de branco, convivendo ombro a ombro sem conflitos. As cortinas-mosquiteiras são acinzentadas e não ofendem a vista, e às caixas externas que protegem os contadores da água e da luz foi dado um falso ar ferrugento, para passarem despercebidas. A cor fica por conta das flores, que são sobretudo rosas. Não há fachada de casa que não tenha roseiras a trepar pelas paredes, e vê-se que os poucos habitantes de Idanha-a-Velha têm gosto em alindar a sua aldeia.

 

 

Há muito que ver nesta aldeia, perdida no limbo entre um passado florescente e um futuro diáfano, resguardando das vistas de quem passa a riqueza histórica e cultural que abriga no seu interior.

 

Penha Garcia 1.jpg

 

Penha Garcia é uma vila pacata mas cheia de charme, com origens que remontam a D.Sancho I – e possivelmente até anteriores. Estendendo-se na encosta da serra granítica que tem o mesmo nome, desdobra-se em ruas íngremes que desembocam em pequenos largos rodeados de casas em pedra ou brancas de cal. Do alto do castelo, a vista deslumbra: de um lado, o casario da aldeia e a verde planície beirã; do outro, o vale do rio Pônsul, actualmente aprisionado numa barragem e de onde escorre apenas em versão de ribeiro. Descer até ao vale é entrar num túnel do tempo. Nas margens do Pônsul sobrevivem azenhas, em tempos importantes para a vida da aldeia e que têm vindo a ser recuperadas a pouco e pouco. Mas mais interessantes ainda são os icnofósseis que sobrevivem bem visíveis nas paredes rochosas, vestígios dos Trilobites que dominaram os mares há centenas de milhões de anos.

 

 

Aproveitando as águas da barragem, foi há alguns anos construída no vale a praia fluvial do Pego, uma espécie de “piscina” rodeada por um passadiço em madeira e alimentada por uma queda de água, formando um recanto verdadeiramente idílico.

 

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Antiga aldeia de pescadores, além do belíssimo e extenso areal que lhe dá o nome a praia da Tocha tem um curioso núcleo habitacional formado pelos antigos palheiros onde eram guardados em tempos idos os materiais da pesca, ou que serviam de armazém para a salga do peixe. Hoje estes palheiros recuperados conhecem uma nova vida e sevem essencialmente como casas de férias, mantendo a traça e os materiais originais e, em muitos deles, os seus padrões genuínos com riscas fininhas em duas cores, em contraste alegre com o tom quase branco da areia.

 

 

A designação de “palheiros” vem do facto de originariamente os telhados destas casas serem feitos de palha. Nos nossos dias, a palha já foi substituída pelas telhas, mas o nome tradicional permanece. A procura turística como lugar de veraneio resultou num óbvio crescimento urbanístico da aldeia, mas felizmente de forma contida e sem afectar muito as suas características tradicionais. E na praia, a arte xávega permanece viva e é um dos motivos de atracção e curiosidade para quem vem de fora.

 

Amanhã trago-vos mais alguns fascínios das aldeias portuguesas, fiquem atentos.

 

 

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Publicado em Inominável nº 8
por Ana CB autora do blog Viajar. Porque sim

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