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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 22.04.16

Stardew Valley #1

A indústria dos videojogos é cheia de surpresas, tanto positivas como negativas. Gostaria de falar de uma tal surpresa, na forma de uma pérola recentemente disponível. Mas em primeiro, algum contexto nostálgico.

 

Muita gente das gerações jovens cresceu a jogar nos Gameboys, para imenso espanto dos velhinhos que não compreendiam porque é que a criança não tirava os olhos de uma caixinha de plástico (isto, claro está, foi muito antes do conceito de telemóveis dos dias de hoje). O que eu considero hoje um dos maiores riscos alguma vez tomados na indústria foi para o “eu” de 10 anos (talvez?) o início de uma série de jogos por mim indubitavelmente adorados. Olhem-me bem isto: fizeram para o Gameboy, aquele tijolo branco, um jogo sobre agricultura. 

 

Agricultura. A sério. O videojogo de que falo chamava-se (e ainda se chama, suponho) Harvest Moon. 1 - Haverst Moon Friends of Mineral Town ingame 3.

A coisa aparentemente mais chata para miúdos citadinos acabou por pegar, e lá controlávamos um boneco a plantar, regar, regar outra vez, esperar uns dias, e apanhar as batatas e cenouras e tal. E aquilo era o máximo! Não sei porquê. Provavelmente poder-se-iam escrever teses inteiras de psicologia infantil a conjurar teorias do porquê. O jogo era divertido, viciante e bastava. Muitas pilhas eléctricas foram gastas a jogá-lo. Versões mais modernas do jogo foram sendo feitas para versões mais recentes dos Gameboys, e o pessoal jogava, legalmente ou ilegalmente, não fazia diferença na altura.

 

O pior do Harvest Moon era o facto de não haver versões para computador, e muitas vezes quem queria jogar contornava essa restrição usando emuladores de Gameboy no computador. Então, de repente, aconteceu uma surpresa, que veio excitar as glândulas "videojogásticas" dos totós num épico e satisfatório orgasmo metafórico online.

 

Há quatro anos, um jovem teve a curiosidade de aprender a programar. Esse jovem, totó, achou que a melhor maneira de o fazer seria programando um dos seus jogos queridos. Qual? Harvest Moon. E começou a programar e a desenhar e a projectar, e agora lançou o sucessor espiritual de Harvest Moon, que se chama Stardew Valley. Vou repetir. Um ÚNICO gajo gastou milhares de horas a programar de novo um jogo que gostava, para computador. UM.

 

Tudo bem, há muitos jogos que são feitos por um único gajo. Mas há jogos, e há Jogos, com J grande.
Já tinha o olho em Stardew Valley. Ouvi falar dele há uns tempos, e fiquei interessado porque eu, como muitos, sempre desejei a experiência Harvest Moon no meu computador. Quando saiu há umas semanas, fiquei tão irresistivelmente atraído que não consegui não comprar o jogo a preço inteiro (espero quase sempre por promoções, normalmente).001.png

"Pára lá de deambular, desembucha lá o que raio é esse Stárdiu Véli!"

 

Diz-se Stardew Valley, já agora. Mas sim, vou já falar mais pormenorizadamente, aguentem lá mais uma linha.

Eis a premissa: o vosso avô, ao morrer, deixa-vos a quinta dele numa aldeia no cú de Judas. Muitos anos depois, esmagados pela opressão da rotina urbana, decidimos ir pegar na nossa herança e viver do campo. Apanhamos o autocarro e recebem-nos na nossa quinta. Boa sorte e desenrasquem-se.

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E começa o jogo. Pegamos no machado e na picareta, limpamos algum terreno para cultivo, pegamos na enxada, desenhamos uns regos, plantamos umas parcas sementes, damos uma bela chuva artificial com o nosso regador e olhamos orgulhosos e algo impacientemente para o nosso trabalho, sabendo que só daí a uns dias é que nascerá alguma coisa. Felizmente o tempo passa incrivelmente depressa no jogo, e daí a nada lá temos uns nabos ou seja o que for a brotar da terra. Colhemo-los e colocamo-los a vender e aparecem-nos magicamente umas moedas, que gastaremos imediatamente em comprar novas sementes para repetir o processo, ad infinitum.

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No entanto, o processo de produzir e vender produtos agrícolas nunca se torna monótono (ou pelo menos tal ainda não me aconteceu), pois o jogo dá-nos tantas coisas para produzir e fazer: existem imensas culturas a cultivar por estação do ano, campos para limpar para se preparar para cultivo, cercas para se contruir, árvores para cortar para lenha, animais para alimentar e criar e ordenhar e tosquiar e fazer festinhas, minas perigosas para explorar pelos seus minérios e pedras preciosas. Existe mel para recolher dos ninhos de abelhas, álcool para fermentar das uvas cultivadas, queijo e maionese e tecido após a transformação dos produtos animais respectivos, geleia das frutas do pomar que tivermos plantado. Damos por nós a ter que gerir o nosso tempo e a planear o que vamos fazer em cada dia, pois o agricultor tem sempre de lutar contra o tempo. Um dia as batatas estarão prontas para serem colhidas, mas há que tratar dos animais e regar o resto da horta. 

(continua)

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Publicado em Inominável nº 3
por Rei Bacalhau que participa no blog O Bom, o Mau e o Feio

 

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