Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sab | 14.05.16

Sonetos e quadros

 

 

001.png

MARÉ-VIVA

Não contava contigo e tu vieste
Vestido de pecado e de virtude;
Puxaste-me pr`a ti num gesto rude,
Mas foi de mel o beijo que me deste

E foste-me roubando o que pudeste,
Enquanto eu te roubava quanto pude...
Sabemos que nenhum de nós se ilude;
Se te aconteço, tu me aconteceste!

Tão longe estamos já da juventude,
Ambos loucos - bem sei, bem mo disseste... -,
Como águas presas num qualquer açude

Que ouso transpor, porquanto o transpuseste...
Que ninguém mais confine e prenda ou mude
A louca maré-viva que nos veste!

 

 

 

 

UM SONETO PARA POSEIDON

Não sei que chamar-te, mas sei que te sinto
Por vezes meu escravo, por vezes meu rei,
Se colhes do favo quanto mel te dei
Perdida, encantada, no teu labirinto...

Nas veias do espanto, sorvendo esse absinto
Da taça em que o guardas, que ergui, que provei...
Ah, quando me tardas - que és de ouro... e de lei! -
Por qu`rer-te e provar-to, me rendo e consinto

Que inteira me dobres, a mim, que, selvagem,
Desbravo sozinha mil rotas do p`rigo
Das ondas mais bravas - não mais que a coragem! -,

Por rotas convulsas de crime e castigo,
Na barca da vida que já ruma à margem
Da louca voragem que enfrento contigo...

 

002.png

 

 

 

 

003.png

A PERFEITA OCUPAÇÃO DAS HORAS

No corpo inacessível de um poema
Mora o ritmo, sereno ou agitado,
Que fala da virtude, ou do pecado,
E faz com que escrevê-lo valha a pena...

Essa alma musical que assim me acena
A seduzir-me o corpo já cansado
Virá trazer-me o verbo inesperado
Que me preenche e torna mais serena...

E vai-se esse vazio que então crescia
E fica-me o fruir do que se faz
Nas noites renovadas como auroras

Em que me torno amante da Poesia
E concebo o poema que me traz
Essa perfeita ocupação das horas...

 

 

 

 

PUZZLE

Pedaços de mim mesma pelo mundo,
Colinas, rios, mil coisas como eu
Dispersas pela terra e pelo céu
E prontas a usar cada segundo...

 

Este conhecimento é tão profundo
E tão concretamente em mim nasceu,
Que em mim, ganhou raiz, depois cresceu
E tornou-se o meu EU, lá bem no fundo...

 

Este supremo dom mo lega a Vida
E, faça o que fizer, nunca estou só
Pois cada peça cumpre o seu papel;

 

Por mais que nalgum dia ande perdida,
Resolvo o puzzle, desenredo o nó,
Retomo o meu lugar no carrossel...

004.png

 

 

 

 
 

005.png

 

COEXISTÊNCIA(S)

 

Saber-te, sem perder-te, nem ganhar-te,
coexistente com quem sempre fui,
e, sem me dispersar, multiplicar-te
nas águas desse rio que em mim conflui

 

Pr`a submergir-me, ou pr`a tornar-me parte
do mar sem dimensão do que se intui,
o mesmo que engendraste pr`a afogar-te,
esse, o que em espanto e vagas te dilui...

 

Neste entretanto, já nem sei que mar,
nem que inventado rio me afoga assim,
depois de calmamente me banhar,

 

Mas há sempre um que nasce e morre em mim
e exactamente aonde eu desaguar
terá, na foz que sou, chegado ao fim...

 

  

MEU PINHEIRO-MANSO, MEU FIGUINHO-LAMPO...


Meu celeiro farto, meu pinheiro manso
Que choras se parto, calo ou me desdigo,
Meu pinheiro amigo, meu seguro abrigo
Onde, havendo p`rigo, me escondo e descanso

 

De um bulício antigo que nem sempre alcanço;
Porta sem postigo, falta sem castigo,
Figueira onde o figo sabe que o bendigo
Por ser só comigo que dança, se eu danço...

 

Doce figo lampo que uma mãe-figueira
Me of`receu trigueira, lesta, rotineira
E que ao dar-se inteira se me foi tornando

 

Materno alimento, sangue, irmã ceifeira
Da espiga engendrada nesta fértil leira
Tão mais derradeira quão mais vai faltando...

006.png

 ______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3

Siga-nos no Bloglovin