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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 11.03.16

São Valentim

Todos sabemos que o dia de São Valentim está para vir, e com ele vêm todas as palavras de amor, os gestos românticos,  as prendas dos namorados, enfim, todas as coisas com que nós, uma sociedade de meros mortais, gostamos de nos entreter. E para poupar o leitor a mais uma conversa de chacha sobre o dia de São Valentim que, na minha opinião, é uma invenção ao dinheiro, vou falar de um assunto não tão mexido. A parte da mitologia que anda à volta do amor. Sim, obviamente que vou falar do Cupido, o deus romano do amor e desejo, filho de Vénus e Marte (ou, como eram conhecidos pelos gregos, Afrodite e Ares), e de dois amantes pertencentes à mitologia chinesa, Hou Yi, o Arqueiro, e Chang’e, a deusa da Lua.

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Comecemos pelo Cupido, também conhecido como Eros na mitologia grega. Uma só seta do arco deste deus pode fazer o alvo apaixonar-se loucamente por outra pessoa, e isso acabou por ser a desgraça de Cupido. E, tal como muitas outras histórias relacionadas com deuses, esta começa com a inveja de uma deusa relativamente a uma mortal. Sendo a deusa em questão Vénus (Afrodite) penso que podem imaginar o porquê da inveja. Exatamente. Ela tinha inveja de uma mortal porque a rapariga era mais bonita do que ela, e os homens mortais deixaram de ir ao templo dela e passaram a ir ter com a rapariga.


Ora como é que isto correu mal? Pois eu explico.
A inveja de Vénus era tal que ela condenou Psique (a mortal cuja beleza desafiava a da deusa) a casar-se com a criatura mais horrenda do planeta. E, para isso, Vénus precisaria da ajuda do seu filho, Cupido, a quem calhou o “trabalho sujo”. Quando Cupido entrou no quarto de Psique a meio da noite, a mando da deusa sua mãe, ele não esperava encontrar tanta beleza. Encantado, aproximou-se da rapariga que, de um momento para o outro, acordou do seu sono, assustando o pobre Cupido. (Aqui vocês pensam: ahhh, então o que é que isso tem a ver com as setas mágicas? E eu respondo: calma, deixem-me continuar, que isto ainda agora começou.) O deus do amor, de tamanha surpresa por ela acordar enquanto ele olhava para ela, deu um pulo para trás, e deve ter sido um pulo daqueles mesmo grandes porque conseguiu fazer com que ele se arranhasse numa das suas setas e (surpresa!!) apaixonou-se por Psique.
Bom, obviamente que sabem o que lhe aconteceu, né? O pobre Cupido apaixonou-se pela rapariga, e oh se Vénus ficou furiosa! Ela ficou tão furiosa que proibiu o seu filho de casar com Psique e mesmo de a ver, e isso fê-la cair em desgraça. Cupido, como “vingança”, deixou de disparar as suas setas, e as pessoas deixaram de se apaixonar, e por isso deixaram de venerar Vénus. Ainda mais furiosa, ela finalmente cedeu, e mandou Cupido de volta ao trabalho. No entanto, Psique foi viver para uma localização secreta, e Cupido só a visitava de noite, para que ela não conseguisse ver quem ele era. Ele até a fez prometer nunca tentar ver o seu aspecto, para que Vénus não soubesse que ele a via secretamente.
Mas todos esses cuidados foram deitados fora quando um dia (noite, mais exactamente) Psique não conseguiu conter a sua curiosidade e decidiu que nessa noite iria ver a cara do seu amante. (ela tinha medo de que ele fosse um monstro hediondo). Então, nessa noite, quando Cupido adormeceu, ela agarrou numa lanterna e aproximou-a da cara do deus. E ficou surpreendida com o que viu: aquele que ela pensara ser uma criatura horrenda era na realidade o ser mais bonito que ela já tinha visto. No entanto, não ficou tão surpreendida com a aparência dele como ficou quando ele acordou (porque quem é que acorda quando tem uma luz forte directamente apontada à cara, pfffft); ele assustou-a de tal maneira quando acordou, que ela deu um pulo e se arranhou numa das setas dele, apaixonando-se imediatamente. Só não me perguntem porque é que ele tinha as setas tão perto da cama, que eu também não sei. 

Ora obviamente que Vénus não gostou muito disto, e proibiu a rapariga de ver o seu filho, obrigando-a a completar quatro desafios impossíveis (que culminavam numa visita ao Inferno, de onde Vénus esperava que a mortal não regressasse) que, escusado será dizer, Psique completou – obviamente com ajuda de outros deuses que tiveram pena do casal condenado. Depois disto tudo, Cupido foi ter com Júpiter (aka Zeus) e pediu-lhe que tornasse possível o casamento dos dois. A solução de Júpiter foi tornar Psique imortal, e assim eles se casaram, e pode-se mesmo dizer que viveram felizes para sempre.
E agora, vamos para a história de outros dois amantes, que vocês viram o nome e ficaram a pensar “esta gaja agora anda a inventar deuses”. Mas não, são mesmo parte da mitologia chinesa. E são a fonte de um símbolo mundialmente conhecido, que direi no fim desta história. Chang’e era, entre os imortais, de longe a melhor dançarina.

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Hou Yi era um herói enfeitiçado pelas suas danças, e os dois em breve se casariam. O seu amor um pelo outro não tinha limites, e tudo era perfeito assim. Mas, no mundo dos mortais, tudo ruía. Dez sóis, os dez filhos do Imperador de Jade, erguiam-se e queimavam tudo onde a sua luz e calor chegavam, cozendo a terra e evaporando os mares. Hou Yi, o herói arqueiro, foi chamado pelos mortais para os defender. Com setas mágicas, disparou contra nove dos sóis, e poupou só um porque as pessoas precisavam dele. Esse sol, temendo sofrer o mesmo destino que os seus irmãos, comportou-se. Maaaaas, obviamente que nem tudo correu bem, né? Que pai é que o Imperador de Jade seria se não se zangasse com Hou Yi por ele lhe matar nove dos dez filhos? Tamanha foi a sua ira, que Hou Yi e a pobre da Chang’e foram transformados em mortais, e expulsos dos Céus. 

A deusa, agora mortal, ficou deprimida e não voltou a dançar. O arqueiro, em desespero por ver a sua amada triste, conseguiu encontrar o elixir da Imortalidade, e por sorte era suficiente para duas pessoas. Se tudo corresse bem, eles beberiam o elixir e recuperariam o seu status de deuses.
Mas é aqui que a história começa a parecer que foi escrita por alguém que injectava chantili nas veias com a seringa das farturas e que snifa pó de giz ou açúcar. Eles já tinham o elixir, já podiam ter bebido e restaurado o seu lugar nos Céus. Infelizmente, estava tudo contra eles, e como Hou Yi era esperto, foi caçar, deixando o elixir sozinho com Chang’e.
Durante a sua caçada, um jovem que Hou Yi tinha tomado como seu aprendiz tentou roubar o elixir. Encurralada, ela não teve outra hipótese a não ser bebê-lo, e ela foi tornada imortal; mas, por ser demasiado elixir para uma só pessoa, também foi arrebatada do seu lugar em direção à Lua, onde vive desde aí, com a companhia de um coelho de jade que, segundo o folclore, não faz nada a não ser bolinhos de arroz (vêem aquilo que eu disse de alguém ter andado a snifar pó de giz?). Enlouquecido com o desgosto de perder a sua mulher, Hou Yi passou de herói amado pelo povo a tirano violento. O seu aprendiz, Feng Meng, continuou sob a sua tutela, até um dia achar que já era bom o suficiente para se comparar com o ex-deus e o desafiar para um concurso de tiro ao alvo. Obviamente que Hou Yi ganhou, o que deixou o seu aprendiz incrivelmente invejoso (ainda mais que antes).
Mais tarde, Feng Meng convida Hou Yi para uma caçada, onde o encurrala e espanca até à morte com um ramo de árvore. O espírito de Hou Yi ascendeu até ao sol, aquele sol a quem ele poupara a vida, e aí ele construiu um palácio. Por isso, estes dois amantes, Hou Yi e Chang’e, a partir daí passaram a representar o yin e o yang, o sol e a lua.

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Publicado em Inominável nº 2
por Maggie

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