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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 29.11.17

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

Desde a primeira leitura d’A Sombra do Vento que nasceu em mim a vontade de percorrer as ruas que Daniel explora, sentir a forma como os prédios parecem cair sobre nós e perceber a alma da cidade. Embora o próprio Zafón alerte que a dos seus livros é uma personagem construída por ele, isso não me demoveu de procurar essa cidade feiticeira que “mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem nos darmos conta”.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Barcelona é essencialmente uma cidade de contrastes, uma cidade que vai da luz à escuridão em menos de nada, uma cidade que vemos quase sempre a sépia ou a preto e branco.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Com uma amiga tentámos, tendo como pando de fundo as cidades que já visitámos, defini-las como a uma pessoa e a nossa conclusão é que Barcelona é uma rapariga jovem, com uma beleza singular mas insegura dessa beleza, quem a olha não fica indiferente por ter qualquer coisa que é difícil explicar por palavras, embora todos sintam o mesmo.

Se o sonho de ir a Barcelona surgiu com Zafón, o planeamento da viagem a ele obedeceu. O primeiro passo foi marcar uma tour especializada n’A Sombra do Vento. A tour é realizada por uma senhora simpatiquíssima que é sua responsável desde há doze anos, todos os sábados à tarde. Contudo, este guia não obedece apenas a esta visita guiada, a ansiedade era tanta para andar pelas ruas que Daniel e Fermín percorreram que houve sítios a que fui sem a tour, e outros que eventualmente repeti. Mas é com esta tour que começa a nossa história, com um grupo composto por portuguesas (eu e a minha amiga), canadianos, uma polaca, espanhóis de várias localidades e um inglês, partimos à descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

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A sua localização é difícil de adivinhar, na Calle Arco del Teatro, uma rua que separa a Rambla de Santa Mónica do El Raval. Antes da tour começar eu a minha amiga havíamos passado por esta mesma ruela sem nos apercebermos do seu significado. Demos connosco num sítio meio em ruínas, com pessoas de aspecto duvidoso, e este é precisamente um dos contrastes da cidade. A dois passos das Ramblas temos um sítio que parece votado ao esquecimento da cidade, com prédios devolutos a contrastar com a efervescência das Ramblas.

Curiosamente, por baixo do Arco onde o Cemitério dos Livros Esquecidos se encontra é possível ver, ao contrário de um enegrecido e velho portão de madeira com uma aldraba de bronze, dois portões de metal que passam despercebidos. Acredito piamente que, tivéssemos nós a audácia de bater, o próprio Isaac viria abrir com todo o gosto e dar-nos entrada para um labirinto de livros e memórias. Como assim não foi, seguimos caminho.

A paragem seguinte foi a Praça Real, morada sumptuosa da família Barceló. A praça era um antigo convento, o Convento de Santa Madrona, demolido em 1835. Depois de ser destruído durante a luta pela independência da Catalunha foi mais tarde aberto e recuperado, a praça tal como a vemos hoje corresponde ao antigo claustro do Convento.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Numa das habitações que, pelas descrições do livro, seria mais ou menos a casa de Barceló, podemos entrar no átrio do prédio e admirar a escadaria em mármore com um espelho ao cimo.

 

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Este é um sítio de luz, cheio de candelabros que iluminam a escadaria e nos dão a certeza de que, se subirmos, Bernarda nos vai convidar a entrar e vamos encontrar Clara a tocar piano. A Praça Real é mais um dos sítios onde vemos os contrastes da cidade, numa praça movimentada, com candeeiros desenhados por Gaudí, vemos ruelas escuras onde Fermín se refugiou em tempos. Passámos pela Plaza de San Felipe Neri, que é alcançada por via de um beco, enclausurada entre sombras e que passa completamente despercebida àqueles que não a procuram. Mal alcançamos a praça não podemos ficar indiferentes às paredes da Igreja, marcadas pela guerra. Nesta praça, onde Nuria Monfort lia os seus livros, aproveitando a luz que escasseava no seu apartamento, vemos a Barcelona mais negra, a Barcelona das sombras, a Barcelona fustigada pela guerra civil. Foi neste local que morreram 42 crianças de um orfanato quando uma bomba caiu em 1938, destruindo a maioria da praça, que apesar de reconstruída mais tarde manteve essas marcas em jeito de homenagem.

Se procuramos as sombras em Barcelona não podemos deixar de passar naquelas que são para mim as mais imponentes igrejas, a Catedral de Barcelona e a Igreja de Santa Maria del Mar. A Catedral de Barcelona é, em A Sombra do Vento, o local onde Sophie Carax, mãe de Julián, conhece Antoni Fortuny, parecendo até que São Eustáquio realiza de imediato o milagre de amor pedido por Fortuny (confesso que também pedi um milagre, mas até ver não me calhou nada).

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Em Marina marca o casamento de Mijail Kolvenik com Eva Irinova, que não chega a acontecer e acaba em desgraça. É, portanto, nesta escadaria que as fortunas mudam em ambas as histórias, simbolizando a desgraça e trazendo a escuridão para as vidas das personagens. Esta Catedral, num estilo marcadamente gótico, é tão imponente que é difícil enquadrá-la numa só fotografia.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Tive a sorte de ficar alojada perto da Igreja de Santa Maria del Mar, frequentemente chamada de Catedral, culpa da obra de Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, e esta foi também um dos pontos de paragem da nossa tour. A elegância gótica de Barcelona é frequentada por Bernarda para o serviço das oito e para se confessar, sendo uma igreja pródiga em celebrar casamentos (o tempo médio de espera é de três anos). No meio do bairro de La Ribera, também conhecido como El Borne, esta igreja representou durante muito tempo o centro da vida comercial de Barcelona; com uma fachada cheia de mistérios é um dos edifícios mais representativos do gótico catalão. O gótico catalão não é mais do que a representação dos contrastes da cidade, vamos da luz para as trevas sem percebermos, da mesma forma que Santa Maria de Mar viveu uma história de sombras e luz. Foi uma das mais rápidas a ser construída, a primeira pedra foi posta a 25 de Março de 1329 e a construção foi terminada a 3 de Novembro de 1383, mas esta construção rápida não foi menos eficaz por isso, a Igreja já sobreviveu a terramotos, guerras civis, pilhagens e incêndios. No seu interior as decorações são parcas, tendo perdido a maioria dos seus adornos quando ardeu por onze dias em 1936; optou-se por deixá-la mais vazia, dando relevo ao seu estilo gótico original, elegante e sóbrio.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Para mim, este monumento espelha a alma da cidade, fustigada por muitas tragédias torna-se inevitável que tenha uma alma negra, contudo os poucos raios de luz tornam-na especial por serem tão deslumbrantes quanto são escassos.

Perto de Santa Maria del Mar podemos encontrar a Can Gispert, onde trabalha Isabella e onde David Martín faz as suas compras. A loja que serve de inspiração fica não na Calle Mirallers, mas na Calle Sombrerers - fundada em 1851, comercializa café, especiarias, cacau e frutos secos torrados.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

É impressionante como assim que olhamos para esta loja nos saltam à memória as descrições de Zafón. Não muito longe podemos passar no El Xampanyet, lamentavelmente estava fechado na hora em que passámos, mas é deveras triste saber que os croquetezinhos de presunto que Fermín sugere a Daniel na realidade nunca foram comercializados.

 

Um dos que considero um ponto alto da visita guiada é a paragem na loja de canetas de tinta permanente. É na Calle José Anselmo Clave que fica a loja à qual Daniel atribui a sua vocação literária e o seu amor pelos livros, uma loja real onde todos os sábados à tarde a dona decora a montra tal como nos livros e aí podemos ver a Montblanc Meinsterstrück de série numerada, uma “sumptuosa caneta preta adornada com sabia Deus quantas esquisitices e sinaléticas”, que pertencera a Victor Hugo. Sempre gostei de ir percebendo a importância da literatura na vida das pessoas, este é um caso em que, sem qualquer retorno financeiro, apenas por gosto e simpatia, uma velha senhora permite que grupos de pessoas vejam com os seus olhos aquilo que idealizaram entre páginas.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

O Els Quatre Gats é um café lendário, uma taberna frequentada por Picasso onde Daniel se encontra com Barceló. Um café pouco iluminado, cheio de quadros e pinturas, onde “qualquer pobre diabo se podia sentir por uns instantes figura histórica pelo preço de um café”.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

A fachada do edifício é um deleite para a vista; embora seja caro e a simpatia deixe a desejar, vale a pena entrar para um café e para admirar um sítio que está tão dentro da história da cidade.

Uma visita pela Barcelona de Zafón nunca ficaria completa sem passarmos na rua dos Sempere, a Calle Santa Ana, para tentarmos ter um vislumbre daquela que seria a Livraria Sempere & Hijos. Infelizmente, a livraria que inspirou Zafón foi encerrada há uns anos e no seu local encontra-se uma loja de roupa de uma das grandes marcas de Barcelona.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Isso não impediu que eu e a minha amiga andássemos pela rua a dizer ‘Daniel, onde andas? Anda cá dar um beijinho às amigas, não sejas tímido, vá lá!’. Ele não veio, com muita pena nossa. A visita guiada termina em frente à Igreja de Santa Ana, local do matrimónio de Bea e Daniel, uma pequena igreja cuja construção é atribuída à Ordem dos Templários.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Por último, e já completamente fora do circuito da tour, temos o Parc Güell e o Parc de la Ciutadella.

 

 

Estes marcam a luz em Barcelona, são amplos parques com muitos monumentos para ver, com uma energia própria que nos aquece o coração. Na Ciutadella o maior destaque vai para a Font Monumental que, tal como o próprio nome indica, é enorme, cheia de detalhes e tão impressionante que uma foto não consegue mostrar toda a sua imponência. No Parc Güell, embora saiba que o Palacete dos Aldaya fica no Tibidabo, há uma casa que assim que a vi imaginei Penélope a percorrê-la.

 

Roteiro | Pela Barcelona de Zafón – Cidade de Contrastes

 

Depois de quatro dias em Barcelona, aquilo que senti é que rocei apenas a superfície da cidade, entrei apenas entre pequenas sombras, ficando a faltar conhecer-lhe as profundezas. É uma cidade que tem uma escuridão própria, perfeita para a melancolia e estados de alma menos efusivos. Consegue, ao mesmo tempo, ter a luz perfeita para a diversão e para um passeio mais descontraído. Sem dúvida que lá voltarei, é uma cidade que deixa em nós uma marca que dificilmente se traduz em palavras, gera um misto de sentimentos que nos prende ao mesmo tempo que nos liberta.

 

 

Dicas Úteis:

Visita guiada A Sombra do Vento

Igreja Santa Maria de Mar: Visita guiada de 45’ com subida ao terraço, 8€

 

 

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Publicado em Inominável nº 10

por Miss F, autora do blog Reading in Style

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