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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 12.01.18

Por terras nascidas do mar #1

Neste preciso momento, aquele em que escrevo de caneta e papel na mão, estou sentada em frente a um mar vasto, azul como ainda não tinha visto, assim desta maneira e frente a frente, ou melhor, no meio dele. Sinto-lhe o cheiro e ouço a sua canção feita de água e espuma. Estou rodeada de rochas vulcânicas, negras e vestidas de verde, emolduradas por um céu azul salpicado aqui e ali por nuvens cinzentas que não nos roubam o calor, mesmo que escondam o sol. Lá em cima vislumbra-se o farol, vigilante...

 

 

Hoje é dia 21 de Setembro e instalei-me há dois dias nos Açores, na ponta nordeste da ilha de São Miguel, encostadinha ao mar. Mas esta longa mudança, já anunciada na última edição, e na qual me despedi das terras de Rei Artur, começou no dia 8 em que, após atravessarmos o eurotúnel, deixámos Inglaterra para entrarmos em França, aos primeiros minutos de uma madrugada chuvosa. Primeiro desafio desta aventura que iria ser bem mais longa do que poderíamos imaginar: o GPS deixou de funcionar! E ali estávamos, três alminhas dentro de um carro, qual caracol de casa às costas – pois tudo o que pudemos trazer não ficou para trás! – sem sabermos qual a direcção a tomar, e sem condução assistida ... Restou-nos a clássica solução de nos guiarmos por indicações que, felizmente, tinham sido impressas nos últimos dias; nada como ter um plano B, por mais positivo e confiante que se seja! Bem, e ter um companheiro de viagem que gosta de se antecipar ao pior dos cenários! Foi assim, de roteiro na mão, que fiz o meu papel de co-pilota, de braço esquerdo nas (muitas) portagens por onde passámos num carro com volante à direita; lutei contra o sono, conheci muitos WCs pelo caminho, falei em inglês, francês e espanhol (ou “espanholês”, foi mais isso) e, durante uma viagem que durou mais de trinta horas quando a média seria de vinte, deparámo-nos com chuva constante, tendo de fazer pausas mais vezes do que o previsto. Dormi sentada, ora para a esquerda ora para a direita, e acabei por (não) ver a beleza dos Pirenéus na noite cerrada. Vimos, isso sim e para tristeza nossa, muita terra queimada, e sentimo-nos um pouco como ela, agastados e esfomeados, desejosos de um banho e de uma cama. Quando vi a placa onde estava escrita a palavra “Portugal” senti inesperadamente lágrimas nos olhos, e dei graças a Deus por a minha família viver a menos de uma hora da fronteira! Finda a via sacra, finalmente saboreávamos o calor da família, de um banho, de uma refeição decente...!

 

 

E por ali ficámos a usufruir de uns merecidos dias de férias em Vila Nova de Cerveira, no distrito de Viana do Castelo, localidade conhecida como Vila das Artes e com um lugar especial no meu coração, tendo sido destino de férias em todos os verões da minha infância. Matei saudades da mãe, da irmã e dos sobrinhos, do sol, do acordar sem despertador, da vista da janela para a paisagem que é mais nossa... Ah, e da bola de Berlim...! Existe coisa mais saborosa que a doce languidez do estado de férias, e com a nossa gastronomia? Se existe, naqueles dias não me ocorreu nada melhor, dias esses que escorreram pelo calendário até que, quando dei por isso, estava no aeroporto a embarcar para uma nova vida, com as malas que pareciam ter-se tornado uma extensão de mim mesma e que haviam sido, até àquele momento, como que a minha casa, o espaço resumido da minha vida e do percurso que me levara até ali. O importante não são as coisas, é certo. Mas algumas delas podem reflectir-nos: aqueles livros, fotografias, aquela prenda que alguém especial nos deu, aquela outra que trouxemos de um sítio inesquecível... não é materialismo, são memórias que ganharam forma e corpo, e eu cada vez gosto mais delas! Depois de uma hora de atraso no voo e mais umas quantas no porto para ir buscar o carro, que seguira de barco uns dias antes, pusemo-nos a caminho de uma casa que eu não fazia ideia de como era. Mas também não era coisa que me preocupasse demasiado! E então descobri que não criar expectativas para além do básico pode trazer-nos surpresas maravilhosas - qual bónus do universo por não nos prendermos a coisas fúteis - como por exemplo uma casa espaçosa e a tal cozinha rústica com que sonhava. Sonhava mas não esperava... muito menos a poucos passos de uma linda vista para o mar! Esta é uma bênção nos dias de hoje, e vou tentar ter isso sempre em mente – porque acabamos por banalizar as bênçãos que temos – mesmo até nos dias menos inspirados. Assim, sem sobressaltos, e finalmente sem stress ou correrias, instalámo-nos na ilha...

 

Continuo na segunda-feira, passem por cá!

 

 

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Publicado em Inominável nº 11

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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