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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 19.05.17

Por terras do Rei Artur | Saudade

Por terras do Rei Artur | Saudade

Olá caros leitores! Desta vez não vou falar de passeios e das coisas sempre interessantes que existem aqui para ver, mas vou falar de uma palavra bem portuguesa e já sentida por terras de Rei Artur: Saudade. Essa palavra sem tradução, da qual aparentemente não se pode fugir, nem mesmo quando descobrimos a felicidade longe de casa. Tenho sentido a saudade. Veio devagarinho, aos pouquinhos, em pezinhos de lã. A primeira vez que se insinuou foi no Verão passado, quando fui a casa e senti o sol português na pele. Acreditem, o sol não é igual em todo o lado! E por aqui a vou sentindo, nas coisas de que gosto menos no dia-a-dia, pois já lá diz o ditado (e falei-vos dele na edição anterior), nem tudo é “um mar de rosas”. Mas ainda faz mais sentido para mim aquela expressão que se diz, “para inglês ver”. Costumava dizê-lo sem entender bem o seu significado, mas aqui já o percebi perfeitamente; existem tantas coisas cá que são para inglês ver, pois se formos para lá do que se vê perde-se muita qualidade. E posso dar inúmeros exemplos, como o da construção das casas. Fazem uma coisa que tem muito mérito, que é recuperar, remodelar, aproveitar o que já se tem para melhorar. E damos por nós a morar em casas com mais de 100 anos mas com um aspecto moderno por dentro. A questão é precisamente a dessas obras feitas para inglês ver! Chão posto apenas onde se vê, por baixo de armários é inexistente. E torto, muito torto, aparentemente não sabem fazer uma esquadria, o que me levou a pensar de início que os meus móveis tinham algum problema. Não. O problema estava mesmo no chão! Esta falta de qualificação podemos encontrá-la também no sector administrativo. Sim, eu sei, isso acontece em todo o lado, mas comparando este país com o nosso, somos de competência extrema. Claro que também já me cruzei com pessoas competentes que me ajudaram, mas no geral, se nós não soubermos exactamente que perguntas fazer e não fizermos a nossa própria pesquisa, podemos dar por nós perdidos na situação que queremos resolver. O caso mais flagrante, e até preocupante aqui, será mesmo a do sistema de saúde. Os nossos médicos são heróis com as condições que têm para trabalhar, isso vos garanto. Aqui a formação não tem comparação, daí vermos tanto pessoal médico proveniente de outros países, e embora tanta coisa seja gratuita damos por nós a pensar que será preferível pagar uma taxa moderadora e ter um atendimento fiável; quase tudo tem solução com paracetamol e descanso. “Doem-lhe as costas e sente-se a paralisar? Um comprimido e pés para o ar que isso passa!”; “Tem a cara inchada e aparentemente uma grande infecção? Bem... posso dar paracetamol”; “Está grávida e perde sangue? Bem, ponha os pés para o ar e tem que esperar para ter uma consulta no seu centro de saúde, só eles a podem enviar aqui para o hospital”; “Sei que está há quatro horas na sala de espera mas perdemos a sua amostra de urina, vamos fazer tudo de novo”… Todos exemplos reais que testemunhei ou senti na pele aqui! Exames que consideramos básicos para rastreio, cá não são feitos facilmente, temos de estar quase em coma, por assim dizer, para fazerem um Raio-X, passarem um antibiótico, etc.

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

O sistema de saúde nacional, aqui chamado NHS, está quase a colapsar, mas parece que a nível governamental não sabem delinear uma estratégia para contornar esse e muitos outros problemas, como o da atribuição indiscriminada de subsídios que contribuem para o dolce fare niente, maioritariamente de cidadãos ingleses, estimulando a inércia e a subida da taxa de obesidade... Sim, esse mal geral, tantas pessoas que aqui vemos que mal podem andar, tendo que recorrer aos carros de mobilidade, simplesmente porque são demasiado pesadas e ficam ofegantes com esse esforço que para nós é natural…! No entanto, isso não as impede de recorrerem, numa base diária, a junk food, e parece que fico eu mais transtornada com esta situação de saúde do que eles, os que a sofrem. Lado positivo: mesmo que aqui se engordem uns quilitos, sentimo-nos na mesma elegantes…basta sair à rua e olhar em volta!

Tudo isto me leva ao tema comida. Saudade, essa palavra novamente! É certo que aqui existem imensos produtos portugueses e a mim honestamente não me falta quase nada do que costumava habitualmente comer. Mas a fruta, os legumes… nada sabe ao mesmo! E se podemos fazer a nossa comida dentro de casa, quando saímos para almoçar ou jantar o apetite não é o mesmo. Proliferam restaurantes indianos, turcos, coisa que não me agrada especialmente, ou então italianos, caríssimos e nem todos com a qualidade latina. Restam os pubs, onde se pode comer um mixed grill, que é como quem diz, uma grelhada mista, e pouco resta do menu se não formos inclinados para o hambúrguer.

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

O prato típico inglês consegue reunir muito daquilo que não me agrada, em especial o típico molho gravy, que a mim me sabe a um cubo de caldo de carne diluído em água, et voilá! E peixe bom como nós o temos, não encontramos de certeza em nenhum deles…

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

O meu filho está a tirar um curso de cozinha no college, e até agora não aprendeu grande coisa na prática porque na verdade eles não têm uma longa tradição culinária, e admitem-no. Marmelada de cebola é a especialidade que ele aprendeu mas, pela cara que faz a falar disso, não me parece que o amor pelo ofício se esteja a entranhar!

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

Acho que a melhor parte de trabalhar na cozinha é mesmo o convívio com os colegas… Tal como no meu trabalho, o ambiente multicultural é absolutamente maravilhoso e posso dizer que fiz algumas boas amizades. Nada como as “de casa”, porque essas ganham pela longevidade e partilhas ao longo da vida, mas muito positivas, não só por aquilo que nos ensinam como pelo apoio que recebemos e retribuímos, especialmente em dias mais cinzentos em que sentimos a falta daquilo e daqueles que aqui não temos. A conversa diária flui constantemente, numa sala com cerca de quinze pessoas a manipularem fio cirúrgico e a criarem com as suas mãos o produto final que será utilizado para suturas complicadas numa mesa de operação. Tarefa que podia ser enfadonha mas que não o é graças às conversas sobre os mais diversos assuntos, a sua maioria non sense e algo loucas, em especial pelas seis da manhã, de forma a espantar o sono que pode pôr em risco o target diário. Unidos pela língua inglesa, treinamo-la e aprendemos novas expressões, e acabamos por cair no cliché de não nos lembrarmos como se diz isto ou aquilo na nossa língua-mãe (até em casa me acontece isso!), inventando espontaneamente palavras tais como “poupei-te me the details”, que é como quem diz “ poupa-me os pormenores”, ou traduzindo literalmente expressões, porque na verdade não têm tradução como “John Eyelash is comingaka “O João Pestana está a chegar”.

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

Descobri que os colegas romenos têm muitas similaridades connosco, os portugueses, compreendendo até uma boa parte da nossa língua. Associados aos ciganos, que eles consideram um flagelo no seu país devido aos furtos e criminalidade, sentem-se muitas vezes discriminados porque a maioria das pessoas pensam que ser romeno tem de necessariamente significar que são ciganos. Ah, e também têm mais coisas interessantes para além de histórias de vampiros! Mas brincam com isso, sentido de humor não falta na nossa equipa, e muito menos formação: um deles é engenheiro informático, outro quase completou o curso de enfermagem (o que é útil quando damos um jeito às costas ou colamos acidentalmente os dedos com cola cirúrgica), e um outro, entre vários talentos artísticos, tira fotografias com qualidade e criatividade, tendo sido o fotógrafo oficial da nossa original troca de votos feita em Glastonbury, localidade sobre a qual já aqui falei também.

 

 

Temos professoras a trabalhar connosco, e a nossa team leader pinta quadros (retratos a óleo!) e chega a receber encomendas, pois a qualidade é absolutamente inegável. Temos também colegas da Polónia, que são igualmente expressivos apesar de não pertencerem ao grupo latino, embora talvez um pouco mais fechados, quem sabe por a língua inglesa ser mais difícil para eles (meu Deus, tentar repetir palavras em polaco dá-me a sensação de que falo chinês ao mesmo tempo que faço um esforço para não me cuspir e aos que me rodeiam!). Mas comunicamos todos perfeitamente, criando até frases completas com um mix de palavras portuguesas, polacas, romenas e espanholas.

Um dos meus colegas polacos é formado em ópera, canta maravilhosamente, e nas vésperas de Natal chegou a fazer-se um momento arrepiante de silêncio para o ouvir cantar “Avé Maria”…

Este colega visitou a nossa Lisboa já este ano, diz que é mágica, e é agora um fã incondicional do fado, adora Marisa e Ana Moura e está a descobrir a Carminho… Delicioso ouvir um colega polaco a relatar os sítios onde esteve e que nos são tão familiares! Claro que falou da experiência pastéis de Belém e bolas de Berlim, e posso jurar que nesse dia, ao ouvir a extasiada descrição, eu podia sentir o cheiro deles no nosso ambiente esterilizado…

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

Assim o fazemos e criamos laços de amizade, o que ajuda a combater alguma solidão, muita dela provocada pela ausência das pessoas que deixámos para trás, aquelas que diziam “vais-te esquecer de nós” mas que acabaram elas mesmo por se tornarem ausentes, apesar dos esforços feitos para os laços não se quebrarem. E, quando se dá por isso, somos agraciados no nosso aniversário, ou época festiva, por alguma mensagem no Facebook, não necessariamente em privado, mas num post semelhante a tantos outros, e descobrimos que o nosso telemóvel ou tem defeito, ou tem utilidade num só sentido: o de enviar mensagens de texto e de efectuar chamadas. O retorno é quase nulo, pois reza a lenda urbana que os emigrantes ficam incontactáveis. Nem telefonemas ou um postal. A curiosidade pelo nosso novo estilo de vida também é quase inexistente pela parte de pessoas que disseram, antes da nossa vinda, “não te tornes estranha”… Suponho que é natural, e talvez por isso quando fui de férias a Portugal tive a sensação de não saber bem onde era a minha casa, sentimento partilhado por uma grande amiga minha, já experiente nestas andanças de emigração, vivendo agora bem longe, na África do Sul, mas fazendo-se sempre presente na minha vida, não esperando por uma mensagem de Inglaterra para saber como estou ou como me sinto. Tendo sido tudo isto algo que me desiludiu um pouco, fez-me também pensar mais em mim, aqui cresci como pessoa e os meus horizontes e forma de pensar expandiram-se, e isto sem dúvida é um dos pontos positivos desta minha experiência de vida fora da minha zona de conforto, que é de certa forma equilibrada entre os aspectos negativos e positivos.

Naturalmente foco-me nas coisas boas que tenho, nos sítios que conheço, e nas pessoas fantásticas com quem me cruzei e com quem criei alguns laços. Mas a Saudade…ah, essa palavra tão portuguesa! Bate à porta de vez em quando, e aí percebemos que podemos sair do nosso país, mas não podemos tirá-lo de nós.

 

Por terras do Rei Artur | Saudade

 

See ya soon!

 

 

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Publicado em Inominável nº 7
por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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