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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 21.09.17

Por terras do Rei Artur | Londres

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Hello hello!

Sabem aonde fui entretanto? A Londres, ao consulado! Pela altura em que me lêem já eu tenho na minha posse o novo cartão de cidadão. Demorou uma semana a estar pronto, contrastando assim com os quase dois meses de espera pela marcação. O Universo quis compensar-me de alguma forma, e coincidiu a ida a Londres com a véspera do meu aniversário, de um fim-de-semana seguido de um feriado nacional e, acima de tudo, com a benção metereológica, oferecendo-nos um céu azul e um dia de calor.

 

Naturalmente cumpriu-se a tradição portuguesa de ser atendida uma hora após o previsto, mas como já ia mentalizada até não foi uma espera muito difícil; naquele espaço português tive a sensação de regresso a casa: o atendimento menos cuidadoso, os sorrisos mais escassos, o programa da manhã na RTP1, sem som, na televisão da sala de espera... parece uma crítica mas não é! Todo este ambiente trouxe-me, inesperadamente, uma certa sensação de aconchego, o que me faz perceber que até as coisas menos boas parecem fazer falta quando estão bem enraízadas na nossa identidade cultural. A funcionária que nos atendeu estava no limbo entre simpática e enfadada, talvez pelo calor que se fazia sentir numa sala sem ar condicionado a funcionar, valendo-lhe uma porta aberta que dava para umas traseiras pouco atractivas. No entanto esforçou-se, e a experiência acabou por não ser muito penosa.

 

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Acabadas as burocracias pudemos finalmente usufruir das ruas de Londres sem pressas, e desta vez com o bom tempo a nosso favor (já por lá tínhamos andado na véspera da passagem de ano). Entrei em 2017 enrolada num cobertor e emocionada com as badaladas do Big Ben, o sino da Elizabeh Tower, que sinaliza as horas no maior relógio de quatro faces do mundo. O seu eco fazia uma trovoada comovente no meu peito, o que talvez tenha sido provocado pelo antigo desejo que eu tinha de o ouvir cantar, ou talvez tenha sido porque o seu som único é provocado por uma racha causada ao ser levado pela mão do homem até à torre, trabalho que demorou trinta e quatro horas. Tendo em conta o seu peso e tamanho, não é de espantar que tenha havido incidentes no percurso. O sino é tão colossal que foi baptizado de Big Ben devido a, na altura, existir um lutador com o mesmo nome, de estatura bastante elevada para os parâmetros de então. Acabou por se revelar uma homenagem apropriada, pois o sino da torre transformou-se num símbolo de Londres, e um lutador resistente ao tempo, marcando as horas ao longo dos anos com uma pontualidade britânica. Mas antes de voltar a revê-lo e ouvi-lo, a paragem foi no Hyde Park, outro dos muitos marcos desta maravilhosa cidade. Levávamos o almoço na mochila e não tínhamos de enfrentar filas de espera, apenas era necessário escolher uma boa árvore: o restaurante perfeito, ali servido pela natureza. À sombra, degustámos o nosso almoço – bem português! – sem fast food, e onde não faltaram os típicos croquetes de carne e o bolo caseiro. Ali sentados, apreciámos a vida à nossa volta: duas árvores à frente uma jovem em forma a praticar yoga, que me fez sentir quase envergonhada pelos croquetes fritos com que me deliciava; aqui e ali pessoas a correr, a praticarem hula-hoop, a passearem cães, a fazerem ginástica, ou em calções de banho a apreciarem um banho de sol... e eu observava toda esta actividade enquanto comia o meu bolo caseiro, sentada à sombra. No meio da grande metrópole, apinhada de pessoas e trânsito, esquecíamo-nos dela. Hyde Park é um mundo dentro de um mundo: pessoas de bicicleta, skate, patins, ou a pedalar nos barcos do lago artificial, onde os patos e os cisnes não têm medo das pessoas, apenas vêem nelas uma oportunidade de fazerem um lanche fácil e fora de horas. Vozes misturam-se, de várias nacionalidades, e não nos sentimos na capital de Inglaterra, mas sim numa cidade internacional, onde se fundem culturas, crenças, formas de estar, numa harmonia que devia ser universal: Londres é, na sua essência, cidadã do mundo!

 

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Esta característica prolonga-se para lá dos limites do parque e estende-se pelas ruas da cidade, onde se respira a cultura da moda, o luxo desfila num contraste com a simplicidade, que também ocupa o seu lugar no dia-a-dia. Conheci vários pontos icónicos da cidade: o Museu de História Natural é um edifício fantástico por si só, e o mundo que encerra com os seus fragmentos de História leva um dia inteiro a ser explorado, a par do Museu Briânico, onde não tive tempo de fazer uma exploração adequada, mas uma vez mais o edifício fala por si; o Borough Market, que tanto me faz lembrar o nosso Mercado da Ribeira, com os seus restaurantes, cor e vida, é um espaço maravilhoso agora tristemente ensombrado pelos ataques terroristas; Picadilly e os seus billboards, que nos trazem uma certa vibe americana; os armazéns Liberty, fascinantes na herança histórica contida nas suas paredes, de arquitectura Tudor mantendo a aparência inicial, assim como a organização e exposição dos produtos, transpirando a atmosfera tipicamente britânica, onde o passado e o presente se fundem, sempre com os olhos no futuro e com a elegância que rivaliza com o Harrods ou Selfridges.

 

 

Claro que as melhores coisas têm um preço, e um lenço no valor de 350 libras tirou-me a ideia de lá comprar uma “lembrancinha”, cingindo-me ao postal ilustrado do Big Ben no quiosque da esquina; não pôde faltar a visita a Covent Garden onde usufruímos da típica música ao vivo, como acontece um pouco por todas as ruas da cidade, conhecida também pela Motown; conhecemos também a loja M&M’s, um ponto de paragem obrigatório dos turistas que lá querem tirar a foto da praxe, tendo sido para mim uma passagem obrigatória porque precisava de um WC com urgência, sem qualquer apetite por chocolates ou poses fotográficas. Cumprido o objectivo, saí da loja apinhada de gente e logo ao lado estava o que mais me interessava: Chinatown. Na selva urbana eu tinha um objectivo: conquistar uma refeição na última noite do ano! Mas Londres é imprevisível, troca-nos as voltas, e depois de ir de restaurante lotado em restaurante lotado, e passando por um outro suspeitosamente vazio, dei por mim fora do Oriente e de regresso à Europa, mais precisamente em Itália, no restaurante que me salvou a noite com uma pasta salpicada de parmesão ralado de fresco.

 

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O Bella Italia – já aqui falei desta cadeia de restaurantes onde comi a melhor pizza do mundo – foi um oásis latino onde nos foi servida uma garrafa de vinho tinto pelas mãos de um simpático funcionário polaco... não ouvi ninguém falar italiano, mas pouco importava, pois em alguns sítios nem o inglês se ouve falar. Foi também na passagem de ano que me sentei em Trafalgar Square, tendo como cenário em frente os leões-estátua, vigilantes da coluna de Nelson e ao longe a silhueta da torre do Big Ben desenhada no nevoeiro; por trás de nós a Galeria Nacional e a sua escadaria que, horas mais tarde, ficaria apinhada de diferentes pessoas e culturas a assistir ao espectáculo do fogo-de-artifício ao som das doze badaladas.

 

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Em Londres vemos a riqueza histórica contar o seu percurso pelos seus cantos e esquinas, através dos seus edifícios e rituais culturais que não se perderam no tempo. O que nos leva a Westminster Abbey, ao palácio de Buckingham e seus jardins, onde a rainha brincou em criança com a sua irmã e de onde espreitava o mundo lá fora, o dos comuns mortais. Certa vez, observando uma criança com uma bicicleta, disse solenemente “Um dia, eu também vou ter uma bicicleta”, denotando já o seu sentido prático, simples mas determinado.

A Torre de Londres é outro ícone, tendo sido um forte, um palácio real, uma prisão (onde foram encarcerados, no ano de 1270, 700 judeus, e onde quase metade foram enforcados) e até mesmo o cemitério de dois príncipes, ali assassinados pelo seu tio que queria o direito ao trono. As cúpulas da torre foram mandadas construir pelo rei Henry VIII para enaltecer a coroação da rainha Anne Boleyn, que iria lá perder a cabeça poucos anos depois, sentenciada à morte pelo próprio marido. A decapitação ocorreu em Tower Green, onde hoje se celebra a “Cerimónia das Chaves”, o mais antigo e curto ritual do mundo.

 

 

A Torre foi também um sítio de excentricidades, onde eram expostas as prendas reais para entretenimento da corte: leões, elefantes, ursos, cangurus, etc., que eram usados num espectáculo de lutas sangrentas. Os londrinos podiam visitar a torre e, se levassem um cão ou um gato para alimentar os leões, tinham até mesmo um desconto no valor da entrada. Naturalmente houve mortes e doenças devido à manutenção destes animais sem as condições próprias, até que o Duque de Wellington fez uma limpeza ao local e criou o Zoo de Londres, que se tornou a nova morada destes animais exóticos. Hoje em dia a Torre já não cumpre funções sinistras, sendo uma atracção turística e guardiã das jóias da coroa. A Tower Bridge e o London Eye fazem também parte de uma beleza inegável ao longo do rio Thames, materializando-se em frente aos meus olhos, e senti-me criança de novo, a criança que nutria um inexplicável fascínio por um sítio que não conhecia e do qual parecia, estranhamente, ter saudades. É magia, é algo que eu não posso descrever aqui, pois é algo pessoal, e o que eu sinto pode não ser o mesmo para outra pessoa que venha visitar a cidade. Esta é tolerante, de mente aberta e tradições enraizadas, é uma ferida aberta com os ataques indiscriminados e inexplicáveis, e a cidade sangra mas não verga, e as suas gentes mantêm o espírito que no século XIV levou à revolta dos camponeses que tomaram Londres e exigiram os seus direitos.

Podemos ver polícias armados de shotgun – indício de tempos conturbados – mas não deixamos de ver alegria e energia nesta cidade que tem uma vibração própria, sussurrando a sua história aqui e ali, seja na badalada de um sino, na travessia de uma ponte, num jardim, numa canção aleatória, num ritual, num minuto de silêncio pela morte sem sentido, num cheers animado num brinde à vida, e em palavras soltas penduradas pelas ruas, sobre o Amor e a Esperança. Londres é tudo isto e muito, muito mais...! Por isso terei de lá ir novamente para vos falar um pouco mais sobre ela!

 

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See ya soon!

 

 

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Publicado em Inominável nº 9
por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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