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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 03.07.17

Por terras do Rei Artur | Brexit

Olá caros leitores! Com a aproximação das férias (já se sente no ar e nas conversas diárias) existe uma maior afluência de pessoas ao consulado português em Londres a fim de serem renovados BI’s e passaportes, afluência esta que ultrapassa a capacidade de resposta de um serviço não muito competente, quer a nível de plataforma para marcação online, quer pela qualidade de atendimento pessoal. O motivo de tanta afluência não é, no entanto, apenas justificado pela ida de férias... é pela ida, simplesmente. Não é só o facto de o nosso consulado se encontrar assoberbado com trabalho - uma percentagem respeitável dos emigrantes em Inglaterra decidiram regressar definitivamente ao seu país de origem e esta decisão, na maioria dos casos, explica-se com uma palavra, curta e sonora: Brexit. De ínicio uma palavra algo estranha, muitas das pessoas não sabiam (ou não sabem ainda) o seu significado e, em alguns casos, nem sequer sabem pronunciá-la.

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Era, na altura, uma ideia muito vaga, muita gente não dava importância, uma vez que a ideia da saída era tida como algo fantasioso, bluff de Primeiro-Ministro, e foi subestimada por quem achava que as desvantagens eram demasiadas para o país decidir ir em frente - eu incluída, assim como muitos ingleses, pois nem todos partilham a mesma opinião. No entanto, não se contava com o orgulho nacionalista britânico: eles “querem o país de volta”, tal como é ilustrado pelas imagens de um panfleto que invadiu as caixas de correio, isto já depois do resultado do referendo, onde se pode ler “Vocês roubaram o nosso futuro”. A campanha política em todo este processo foi inteligente e pouco ética, de forma a angariar a maioria dos votos. Deveria ter sido esclarecedora e informar devidamente os cidadãos dos prós e contras de uma decisão séria como esta; mas não, apostaram no argumento “imigração”, este flagelo que, no entanto, desconta impostos todos os anos, impostos estes essenciais para a sustentabilidade de um país. Alvos fáceis: os mais idosos, que vivem na utopia de um país sem imigração, e exactamente como era há umas décadas, como se o Brexit fosse uma Máquina do Tempo. Outros são mais jovens, fruto de uma geração que nunca trabalhou e está a perpetuar o legado familiar. Então vivem de quê? Eu explico! Após a guerra foi criado um sistema de benefícios financeiros para apoiar todas as famílias que deles precisavam - o que é digno de admiração, pois nem todos os países cuidam assim dos seus. Este sistema, contudo, manteve-se até hoje, e mais do que uma geração habituou-se a esse estilo de vida: o sistema tornou-se vítima de si mesmo e fez nascer parasitas que, indignados, acham que os imigrantes roubaram os seus trabalhos e roubaram o seu futuro.

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Quando, na realidade, nada fazem por ele: quando trabalham é o mínimo de horas semanais, desistem da escola, têm ranchos de filhos (muitas das vezes ainda sendo eles jovens demais para tal responsabilidade) que lhes vão proporcionar mais benefícios ainda, e fazem shopping, almoçam fast food, e levam o dia-a-dia com uma existência supérflua. Falo aqui daquilo que vejo numa base diária, evidentemente. Claro que existem ingleses trabalhadores, com outro tipo de formação, que desprezam tal estilo de vida e esses, na sua maioria, votaram para permancer na comunidade europeia. Até porque reconhecem a força de trabalho que os imigrantes representam, a maioria em full-time, ao contrário dos que mantém as tais das horas mínimas semanais para garantirem os benefícios (16, para ser precisa); ironicamente, quanto menos se trabalhar mais se recebe, mesmo que se esteja na posse de todas as faculdades físicas e mentais para o fazer em tempo inteiro. Existem imigrantes que também reclamam ajuda financeira, pois a ela têm direito e descontam o suficiente para tal. Mas, na sua maioria, só solicitam os benefícios se realmente deles precisarem, pois apesar de o salário aqui ser mais elevado que nos seus países de origem, o valor das despesas mensais que se pagam é também mais elevado. Ora uma pessoa sozinha ou com filhos a cargo acaba por recorrer ao apoio... o que é considerado pelos cidadãos ingleses como uma ameaça aos seus rendimentos, não entendendo que, se estes existem, é graças aos impostos pagos mensalmente por quem trabalha o suficiente para os descontar do seu salário. Evidentemente, também existem aqui imigrantes a praticar esse estilo de vida, e (sim!) portugueses entre eles; esses não têm moral para falar, embora isso nãos os impeça de o fazer na mesma... E assim foram angariados os votos suficientes para uma decisão que vai determinar o futuro de uma nação... e, o mais engraçado, sendo que dá é vontade de chorar, no dia seguinte quem votou para sair já dizia, como que numa aflição “Eu nem sei bem o que é o Brexit”. Buscas impensáveis foram também feitas no Google, como “O que é a União Europeia?”. Patético! Acho que um povo tem todo o direito de ter uma opinião e de formar uma decisão porque, no fim do dia, “a casa” é deles e cada um sabe da sua. Mas que faça sentido, que seja reflectido, pois muita gente pode acabar é por sentir que deu um tiro no pé...

 

 

Também se tem notado, aos poucos e desde o referendo, uma mudança de atitude nas pessoas, algo subtil que quem cá vive nota. Eu, pessoalmente, nunca me senti alvo de discriminação, embora uma vez me tenha sido dito (em tom de ordem) para falar em inglês quando eu falava na rua com uma amiga, portuguesa também. Mas o jovem estava alcoolizado, e eu considerei o episódio mais como uma estupidez do que uma discriminação. No entanto, cada vez mais se vão ouvindo casos de pessoas vítimas de discriminação aberta; já ouvi relatos de colegas sobre várias situações, todas diferentes mas a acabarem da mesma forma, normalmente a serem mandados para o país deles. Isto passa-se onde moro, nas notícias eram descritas coisas mais graves, como por exemplo em Londres, onde até casas de famílias polacas foram apedrejadas. O que me parece é que o referendo e o seu resultado são bons pretextos para algumas pessoas se tornarem mais agressivas e mais assumidas na sua discriminação; foi uma euforia na altura dos votos, e acredito que será daqui por dois anos, quando o período de transição estiver cumprido. Entretanto, até as pessoas que não o faziam, e que cá moram há anos, começam a ponderar os prós e os contras de se manterem por cá. Valerá a pena...? No tal panfleto, o que se tem a ganhar com o Brexit são coisas muito boas: o preço da comida torna-se mais baixo, o preço da luz e gás também, mais dinheiro para a saúde pública, e mais empregos e melhores salários para os trabalhadores do Reino Unido. Quanto a este último ponto, não tenho dúvidas de que haverá mais vagas de emprego. Quanto à descida dos preços nas compras, a minha carteira é testemunha do contrário, houve uma subida muito pouco meiga, e em muito pouco tempo... e recebemos um email simpático a informar da subida de preço da factura gás/luz... Sobre o NHS, do qual já aqui falei, nada tenho a acrescentar... provavelmente estas previsões são para daqui a alguns anos, e eu acredito que este país vai mesmo ter a capacidade de sair da crise que já se adivinha; talvez esta seja a oportunidade de o governo britânico educar as gerações seguintes para um estilo de vida mais saudável e produtivo. Mas, tal como se educa um filho, há que ter um pulso forte e sentido de responsabilidade por quem depende de nós, pois o caminho não é muito fácil. Uma vez disseram-me, quando o meu filho tinha uns 10 anos: “não te preocupes, lá para os 20 tudo se torna mais fácil”. Lembro-me de fazer contas aos anos e de pensar “ninguém me disse que ia ser assim!”. Acho que assim será por aqui, o confronto com a realidade. Espero que venha a ser compensador, como o está a ser para mim o constante desafio da maternidade, pois seja como for o mundo é uma aldeia e, por muito que a gente pense que o nosso cantinho em nada é afectado pelo que lá fora se passa, estamos todos ligados, apesar das fronteiras criadas pelo Homem...

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Enquanto assistimos a estas mudanças aproveitamos o que de melhor Inglaterra tem para nos oferecer, especialmente agora que o sol já começa a espreitar e é tempo de aproveitar o jardim. Aí entendemos tão bem a urgência deste povo em despir a roupa e estender-se em qualquer pedaço de chão, porque é como se a pele implorasse por alimento, essa vitamina que tanta falta nos faz... e que fome a minha tem! Quando dei por mim, calções e top no ínicio de primavera como se fosse o pico do verão! Dissessem-me isto há dois anos e eu pensaria que estava tudo louco. Não foi preciso muito tempo para, dois quintais ao lado, se sentir o cheiro do churrasco de uns vizinhos brasileiros que eu nem sabia que tinha! Mas, com a chegada do sol, fomos todos como caracóis a porem os corninhos de fora, e o dia ganhou cor, cheiro, e o som de conversas!

 

 

Nesse dia ninguém se lembrou de Brexit, de crise, ou seja do que for. Se em Portugal uma boa partida de futebol faz o milagre de fazer esquecer certos problemas da nação, aqui passa-se o mesmo com a metereologia. Sentimos mais energia, mais apetite, e sentimo-nos um pouco mais em casa. Pronto, falta o belo do (bom) peixe na brasa, mas nem tudo na vida é perfeito... a menos que a gata da vizinha nos adopte, aí é díficil não a amar a vida!

Foi num dia assim, de sol, que decidimos ir almoçar perto da praia, numa localidade chamada Lyme Regis, e aproveitar para matar algumas saudades do ambiente marítimo. Lá fomos, entusiasmados!

 

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Ao chegarmos perto começámos a ver nevoeiro: aparentemente, o bom tempo não tinha ali chegado naquele dia. Eu de vestido curto, armada em britânica num normal dia de inverno. Mas não, portuguesa e friorenta, essa é a verdade! Mantivemos o plano, lá fomos almoçar a um pub com vista para o mar, ou melhor, para a mancha cinzenta que se avistava (mas deixo aqui imagens de um dia de sol, para ficarem com a ideia). De seguida um passeio, durante o qual eu tentava usar a capacidade mental que dizem que temos para controlar o efeito do ambiente no nosso corpo.

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Ficou a intenção e o frio nas pernas, mas o passeio no entanto valeu a pena quando assisti ao vivo a um dos furtos mais engraçados e no entanto corriqueiros por estas paragens: na direcção oposta a nós vinha um casal em amena cavaqueira, e o senhor deliciava-se com um gelado acabadinho de comprar. De repente, por trás dele, surge uma gaivota que fica a pairar sobre os ombros dele, observando o que ele levava na mão e - juro por Deus! - a ponderar se valeria o esforço do furto.

 

Por terras do Rei Artur | Brexit

 

Acho que ela gostava de baunilha, pois passados dois segundos, e numa bicada repentina, tira-lhe o gelado da mão e voa disparada, quase acertando com as asas na nossa cabeça. O homem, indignado, exclama “Bloody hell!”, e eu desmancho-me a rir sem me conseguir conter. E ele, inconformado, continua a desabafar, a dizer que tinha chegado de França e tinha ido ali directamente de propósito para comer o gelado... Não contava ele com esta nova evolução da espécie, gaivotas dos dias modernos, que não trocam uns bons restos de McDonald´s e gelado como sobremesa por um peixe fresco e sem tempero! E, se tiver de ser peixe, que seja fish and chips deixados nas mesas das esplanadas, sempre dá outro apetite! Ele lá perdeu o gosto ao dente e eu ganhei o dia com esta cena digna de Hitchcock, que relembrei alegremente enquanto bebia o café - já com sol! - na localidade onde moro. Tal como o tempo, aqui em Inglaterra por vezes as coisas são imprevisíveis, por isso não vale a pena sofrer por antecipação seja pelo que for, resta esperar que a vida em terras de Rei Artur nos traga exactamente aquilo de que precisamos. Até agora é o que tem acontecido, e eu estou grata a este país que me acolheu apesar de ter a minha opinião, baseada naquilo que vivo e não em ideologias políticas. Como eu digo a quem muito reclama e despreza o país onde agora vive, o mundo é muito grande e ninguém nos força a ficar, porque há quem fale como se estivesse a cumprir uma pena de prisão. Já lá diz o ditado português: “Quem está mal muda-se” e nós, apesar de não nos identificarmos com muitas coisas, seguimos o nosso caminho, entre dias de sol e de nevoeiro, sem receio do destino... e dele vos vou falando, no nosso encontro habitual, não importando o tempo lá fora.

 

See ya soon!

 

 

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Publicado em Inominável nº 8

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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