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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 28.11.17

Por terras do Rei Artur

E chegou o Outono. Dizem que é o cair da folha, o símbolo da morte dos dias longos de sol e de roupa curta no corpo. Pode até ser. Mas vejo-o também como um símbolo da renovação, do despir da bagagem de tudo o que já passou, e o iniciar de uma nova fase que irá ser o parto de um novo nascimento e da abertura a novas experiências.

 

 

Tem graça que muitas das mudanças mais significativas da minha vida ocorreram numa passagem de estação: o nascimento do meu filho, por exemplo, aquando do despertar da Primavera. E o dia em que se celebrava essa data, num outro dia três, foi também o da chegada a Inglaterra e a uma Primavera tão diferente daquela a que estava habituada; era uma Primavera chorosa e mais escura, e com a qual partilhei as lágrimas inevitáveis de quem parte para o desconhecido e se questiona se deu o passo certo. Sozinha, com um filho e algumas malas, fui como uma planta que rasga o solo numa busca sedenta pela luz, neste caso “uma luz que só pode nascer dentro de nós” (parafraseando o meu querido poeta Mia Couto). E essa luz nasceu com algum esforço em meio à solidão, à saudade, e ao limbo que é o não saber onde é o nosso lar, pois parte de nós já não existe no que deixamos para trás, mas há uma outra parte ainda por nascer, por ganhar voz e raízes. Fazendo uma viagem mental ao passado, penso na força que me fez dar este salto de fé, naquele momento em que estava sentada, no silêncio e companhia do meu cigarro, a matutar nas questões da minha vida que não me faziam feliz, não me realizavam, e nas que não davam ao meu filho o que ele precisava como aluno de um ensino especial aquém das nossas expectativas... foi uma força vinda não sei de onde a que me invadiu a alma, e decidi como quem decide ir fazer um café: “Vou-me embora!”. E assim foi...

 

 

Em poucos meses organizei-me e o meu filho, companheiro incansável de várias aventuras vividas a dois, alinhou sem pestanejar, ele também em busca do seu nicho. A chegada e as suas peripécias já as contei por aqui na segunda edição da revista e minha primeira participação neste nosso espaço. Já passaram mais de dois anos, o que é quase nada, mas já vivi neste tempo o que me parece ser uma vida inteira. Por cá fiz quarenta anos. Do quase nada criei um novo lar para mim e para o meu filho em poucos meses, porque “Your home is where your heart is” como por aqui adoram dizer. Adaptei-me a um trabalho completamente diferente. Ofereci ao meu filho, passado um ano, como prenda de aniversário uma viagem a Paris (bem, também foi uma prenda para mim... porque eu mereço!), e pudemos visitar o Louvre, Notre Dame, e o castelo de Versailles, algo que sonhávamos fazer e que esta nova vida possibilitou.

 

 

A minha mãe, aos setenta e oito anos de idade, andou pela primeira vez de avião e pude proporcionar-lhe novas experiências, o que me deu um gozo tremendo: a retribuição positiva é uma das melhores coisas da vida!

 

 

Conheci o amor novamente, num dia três, e numa forma completamente diferente, talvez por já ter passado os quarenta (dizem que as coisas da vida são vistas e sentidas num novo prisma por esta idade). Não sei se foram os quarenta ou o que amadureci com esta viragem na minha vida, mas a verdade é que assim aconteceu, como um raio que não se espera ver cair num dia de Verão. A união foi selada numa simbólica troca de votos, também num dia três, mas desta vez na chegada do Inverno, num sítio tão especial que a ele já dediquei uma coluna (se não deram por isso, toca a folhear as edições anteriores!).

 

 

Tornámo-nos assim uma família de três numa nova casa, desta vez com jardim (só faltou o gato porque o senhorio não deixa, mas como sabem o da vizinha também cá vem a casa, o que é vantajoso a 100% porque não dá despesa). Assim, conheci uma felicidade que me escapava entre os dedos em Portugal: descobri um sol diferente, o tal dentro de mim. Nem tudo, no entanto, foram momentos de alegria: fiz algumas amizades que afinal não o eram tanto, deixando um travo amargo de desilusão, talvez por eu ter trazido na bagagem alguma da ingenuidade que sempre me foi apontada como um erro, mas que não obstante eu defendo como qualidade; fortaleci outras amizades, que já haviam nascido em terras lusitanas, e outras desvaneceram-se devagarinho como uma folha lançada ao vento da distância; conheci pessoas que me marcaram positivamente e para sempre, pois com elas aprendi coisas diferentes e muito positivas, criando assim laços de uma nova amizade; visitei imensos sítios bonitos e cheios de riqueza histórica.

 

 

Mas o mais inesperado de tudo foi o renascimento em mim do desejo de ser mãe! Esse desejo tornou-se num sonho em crescimento, notícia que foi alegremente recebida por alguns, e não tão efusivamente por outros... aparentemente depois dos quarenta ter um filho é uma excentricidade ou acto de bizarria, é o que concluo! Mas as opiniões não determinam o futuro, e a natureza decidiu, ao fim de alguns meses, não dar continuidade às estações que se seguiriam na gestação. Neste caso o Outono deu lugar a um Inverno mais cinzento do que o previsto, e um novo tipo de tristeza nasceu em mim: a de uma experiência de vida jamais imaginada, descobrindo assim que se pode ter tantas saudades de quem nunca se chegou a conhecer... e que a dor pode fortalecer o amor já existente.

 

 

Mas a vida segue o seu curso, e a Primavera chegou com as suas cores e promessas. E oportunidades também! Talvez as terras de Rei Artur tenham finalmente cumprido a sua missão... ou talvez sejamos apenas seres humanos com as suas inquietações e a busca incessante de terras mais promissoras. Mas a verdade é que a oportunidade que veio bater à porta nos chama para longe daqui: Açores, São Miguel, terras estas de bruma e natureza, quase um Portugal estrangeiro, em alguns costumes e jeito cantado de falar. Não conheço a ilha, mas o meu companheiro sim, pois na qualidade de mestre florestal trabalhou e viveu lá vários anos. Pesados os prós e os contras (estes muito poucos) o voto familiar foi unânime e decidimos arriscar, porque a vida é só uma (pelo menos de que a gente se lembre), e não nos podemos contentar com o que não nos faz feliz.

Foi com o coração cheio de esperança que decidimos os três começar uma nova fase no Outono por vir! Talvez (de certeza!) muitos pensem que somos loucos, demasiado aventureiros, mas na verdade a Vida não foi concebida a preto e branco, e a magia dela reside precisamente nas suas várias cores e nuances. E mesmo estas não são vistas por todos da mesma forma! Já há muito aprendi que cada um de nós tem de encontrar a sua cor e o seu tom, e que este não tem de ser igual ao de ninguém, e nenhum tem que ser o certo... se o mundo fosse feito apenas de cores neutras isto era um aborrecimento de morte! Assim, inclinámo-nos para os tons predominantemente azuis e verdes, e quando estiverem a ler-me já estarei instalada naquele que será o meu novo lar, pois foi onde o coração me levou desta vez. Mas será também uma nova experiência, como o foi a vinda para Inglaterra, e sobre ela falarei por aqui como habitualmente. Entretanto partilho com vocês este vídeo que encontrei entre as muitas pesquisas sobre a nova vida. É artístico, e tem uma visão bonita e justa da ilha (palavras de quem conhece os cantos ao sítio). Quando eu puser os pés nestes locais que aqui vemos documentarei com fotos!

 

 

Naturalmente, levo comigo imensas recordações na bagagem, algumas tristes mas maioritariamente felizes: este país marcou-nos para sempre e determinou o curso dos nossos destinos. Tal como eu, mais pessoas regressaram já, ou regressarão. Uma delas é a amiga que me acolheu inicialmente em Liverpool (segunda edição da revista), e que regressa a Portugal continental com alguns objectivos realizados em terras de sua Majestade e esperança renovada na sua nova vida no país de origem. Nenhuma de nós chegou a criar raízes: foi talvez preciso vir para cá para certas coisas da nossa vida se cumprirem, e para nos apercebemos de que não é este o lugar que nos possa completar ou fazer feliz. Mas ficam as memórias preciosas de sítios a revisitar e de amigos e família a rever, que vivem aqui e aqui se sentem em casa. Fecha-se um ciclo, começa um novo por terras de... bem, ainda vou ter de pensar nisso! Desejo a todos novos ciclos também, e experiências de todas as cores!

Até breve!

 

Nota: fotografias tiradas em Liverpool, Taunton, Paris, Versailles, Glastonbury, Exmoor, Londres, Cardiff, e Lyme Regis, respectivamente.

 

 

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Publicado em  Inominável nº 10

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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