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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 23.03.17

O que ler a seguir

Escolher o próximo livro nem sempre é uma opção linear.
Eu sei, soa um pouco ridículo, afinal é só ir à estante e tirar um dos livros por ler.
Se estão para ler é porque a estante os recebeu por serem leituras desejadas, e o que importa a ordem de leitura se todos estão ali para o mesmo?

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Na estante das pessoas que compram livros à medida do seu ritmo de leitura esta questão é, realmente, descabida. Mas nas estantes (sim, várias estantes) das pessoas que acumulam livros porque não conseguem não o fazer, a escolha da próxima leitura implica toda uma decisão sobre prioridades.
E sim, esse drama existe na vida desta vossa amiga.


Muitas vezes é ainda durante a leitura em curso que a dúvida começa a assolar-me. À medida que o número de páginas restantes diminui, os olhares que lanço à estante deixam de ser meras observações (adorações, vá) para se converterem na angústia de decidir o senhor que se segue. Como optar? Como escolher apenas um, se a sofreguidão de ler todos assume contornos doentios? Respiro fundo e bebo um copo de água. Não serve de nada, mas mal não faz. Tento focar-me. A presente leitura ainda está em curso e não posso dispersar-me a ponto de não acompanhar convenientemente os desenvolvimentos. Não me faltava mais nada do que chegar à última página e não perceber o fim, porque me detive a orientar decisões sobre o livro seguinte no momento decisivo da trama. Já aconteceu. A decisão sobre o livro seguinte foi adiada. Voltei, claro, a reler o final do livro com a cabeça no lugar, isto é, no livro.


Mas, e para complicar um pouco, as minhas opções não se resumem aos livros da estante. Como leio sempre vários livros ao mesmo tempo (apesar de, sim, haver um que assume o papel do “principal”), pode dar-se o caso de, terminado um, seguir para outro já iniciado. E aqui volto à pescadinha de rabo na boca. Prosseguir para qual? Deito uma olhadela às lombadas na mesinha de cabeceira e, inevitavelmente, chego à conclusão que alguns dos livros moram lá há tempo demais. A situação assume contornos tais que às vezes já nem me lembro de que tratam tais livros. Pois é, eu assumo que deixo livros a meio, mas não é um processo fácil, é muitas vezes um desmame doloroso. Mas chega sempre o dia da limpeza.

Além dos livros por ler e dos livros a meio, tenho também os livros emprestados. Esses convém ler primeiro para fazer boa vizinhança e devolver aos donos o mais rápido possível. Imagino que se estejam a questionar para que quero eu livros emprestados. Já vos estou a ver desse lado a franzir as testas. Pois é uma pergunta válida para a qual eu tenho uma resposta perfeitamente lógica. Pelo menos na minha cabeça. Poupança é o motivo imediato. Para quê gastar dinheiro se posso ler sem comprar? É claro que é melhor ler um livro nosso, não exige tantas cautelas e pode-se sublinhar e fazer anotações (sim, eu pertenço a esse grupo de monstros). Mas essa não é a única razão para morarem livros emprestados cá em casa. Há pelo menos mais duas. Começo pelo “pedir um livro sem pensar”. Sou muitas vezes apanhada no calor do momento, significa que, quando alguém me fala de um livro com entusiasmo só há uma palavra que se forma na minha cabeça: “QUERO!” E verbalizo, ou seja, peço emprestado sem pensar que já há uma pilha de livros emprestados em casa. A outra razão é mais cruel. Acontece quando são os amigos que me obrigam a aceitar o empréstimo, os malvados! Na verdade, nem precisam de insistir por aí além, um simples “tens de ler” basta para me levar à certa.

 

Bom, mas com tantas hipóteses a ponderar a leitura seguinte continua por decidir. Chego a seleccionar um pequeno grupo de livros e leio o início de cada um deles. O que me agarrar ganha. Nem sempre se verifica esse agarramento, o que representa todo um outro drama. Deitar à sorte também é uma opção, assim como pedir a opinião do marido (enfim, mais ou menos como deitar à sorte).

 

Contudo, nem sempre me submeto a este processo cansativo. Vezes há em que um livro me escolhe. E isso, caros amigos leitores, é um processo milagroso que não posso explicar, mas que afianço ser garantia de uma leitura perfeita (ou perto disso).


Sobre os livros que nos escolhem guardo, acima de tudo, uma sensação de leveza e alívio por não ter de me consumir com decisões. E algumas histórias. Conto-vos da próxima vez.

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Publicado em Inominável nº 6

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

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