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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 27.01.17

Nascidos do Vulcão

O domínio dos quenianos e etíopes nas provas de atletismo de fundo é avassalador desde que começaram a competir em grandes campeonatos, mas recentemente começou a ser óbvio um padrão: a grande maioria desses corredores são Kalenjin, um povo de pouco menos de 5 milhões de pessoas, oriundo do extinto vulcão Elgon na província do Rift Valley, Quénia.

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ESTATÍSTICAS
As estatísticas sobre os corredores de fundo deste povo são tão insólitas ao ponto de parecerem irrealistas:

  • Desde 1980, mais de 70% das medalhas em provas de fundo em Jogos Olímpicos, Mundiais de Atletismo e Mundiais de Cross-Country foram para Quenianos; os Kalenjin, apesar de serem pouco mais de 10% da população do Quénia (e 0,06% da população mundial), arrebataram mais de 3/4 dessas medalhas.
  • Até hoje, 17 norte-americanos correram a Maratona em menos de 2 horas e 10 minutos; 32 Kalenjins fizeram-no em Outubro de 2011.
  • 5 estudantes de liceu norte-americanos correram a milha em menos de 4 minutos; o liceu de St. Patrick, na cidade Kalenjin de Iten, chegou a ter 4 alunos que corriam a milha em menos de 4 minutos, ao mesmo tempo.

As razões para este domínio são várias e nenhuma deles oferece uma resposta total.

 

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CULTURA E GEOGRAFIA

  • Roubo de gado de outras tribos. O roubo de gado era uma parte importante da vida tradicional Kalenjin; não era malvisto desde que as vítimas do assalto fossem de outra sub-tribo Kalenjin, o que implicava que teriam de o fazer a grandes distâncias da sua aldeia, e sempre o mais rapidamente possível. Um guerreiro, muren, que o fizesse ganharia com isso prestígio e mulheres – o que pode ter levado a um mecanismo de selecção natural que favorecesse os mais rápidos em longas distâncias. Esta explicação tem sido constantemente afastada, mas recentemente tem sido evidente um padrão de bons corredores de fundo provenientes de tribos que, tradicionalmente, tinham esta prática – os Oromo da Etiópia, os Sebei do Uganda (que vivem do outro lado do Monte Elgon).
  • Correm ou andam mais que o normal. Muitos dos Kalenjin que chegaram a corredores de nível inter-nacional vêm de zonas rurais pobres, e muito pro-vavelmente (cerca de 80%) teve de correr ou andar até à escola – comparando, estes alunos têm, em média, mais 30% de capacidade aeróbica que os seus semelhantes.
    Ainda assim, este não é um factor de exclusão (há exemplos de grandes corredores que iam de autocarro), nem suficiente (muitos dos alunos que correm para a escola têm capacidades aeróbicas medianas).
  • Força mental e resistência à dor. Os jovens Kalenjin, com 15 anos, passam por uma cerimónia de iniciação violenta, durante a qual não podem fazer um som de dor, um esgar de fraqueza. Em corridas longas, aguentar o esforço é essencial.
  • Nasceram em altitude. Viver e treinar em altitude é uma componente essencial para a capacidade aeróbica de um atleta, sobretudo enquanto o corpo está em evolução. Os Kalenjin são um bom exemplo disso e a sua evolução deu-se de maneira diferente da de outros povos que vivem em altitude (falarei disso na parte da Genética).
  • Não estão em guerra. Ao contrário de muitos povos com características culturais e genéticas semelhantes, o Quénia tem passado por um período político relativamente estável, à parte alguma violência pós-eleitoral. O que me leva ao ponto seguinte:

 

IMERSÃO/DINÂMICA:

  • A cidade de Iten, situada em território Kalenjin, é hoje um grande funil onde se juntam, no topo, a grande maioria dos melhores corredores mundiais (entre 500 a 1500 de cada vez) e saem, por baixo, apenas os melhores. A imersão dos atletas no desporto é enorme: os atletas dormem em quartos com o nome de grandes maratonas mundiais, vemos atletas medalhados correrem lado a lado com os mais jovens. Tal como acontece com o futebol americano e o basquetebol nos EUA, a velocidade na Jamaica, o futebol no Brasil e em Portugal, toda a atenção do país e da população se concentra na corrida de fundo.
  • Também como acontece com outros desportos noutros países (futebol em Portugal e no Brasil, praticamente todos os desportos nos EUA), o atletismo é uma das principais maneiras que os Quenianos têm para fugir à pobreza e subir socialmente. Com um rendimento per-capita anual de 750€, o potencial monetário de ser um corredor de nível internacional é maior do que para um jovem dos EUA que assine um contracto na NBA. E com muitos dos Kalenjin a dedicarem-se sobretudo a uma vida rural, não existe uma carreira profissional ou académica para adiar e praticamente nenhum risco em experimentar o atletismo; correr permite-lhes sonhar com uma vida melhor, em termos financeiros. Todos os anos há um sistema de bolsas de estudo para que jovens quenianos vão estudar nas universidades americanas da Ivy League, e uma das provas de selecção é uma corrida de 1.500m.

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“É óbvio que encontrar talento escondido na corrida de fundo não é exclusivo do Quénia. E, tal como o sprint na Jamaica, é precisamente a sistematização do processo pelo qual se encontra esse talento que faz com que se pareça menos com acaso e mais como filtragem táctica. A pergunta real é se encontrar esse talento é mais provável de acontecer no Quénia, especificamente entre os Kalenjin, e se isso se prende com características biológicas inatas.”

David Epstein, The Sports Gene

GENÉTICA

Este é o tema mais sensível dos três, uma vez que estamos a falar de diferenças raciais. Há casos bem conhecidos de investigadores científicos que, sobre este tema, encontraram vantagens genéticas nalguns atletas mas que não partilharam esses resultados com receio das consequências que as suas implicações raciais – e não só raciais, aqui também se põe a questão de talento natural vs. trabalho e treino – poderiam ter na discussão científica e social.

  • Pernas grandes, gémeos e tornozelos finos. Um estudo dinamarquês de 1998, ao investigar as várias razões genéticas que poderiam estar na base da performance dos Kalenjin, descobriu que os Quenianos eram mais baixos que os Dinamarqueses, mas que as suas pernas correspondiam a uma percentagem maior da altura. Para além disso, o volume da parte inferior da perna era 15 a 17% menor do que no caso dos Dinamarqueses. Isto é extremamente relevante, uma vez que a perna funciona como um pêndulo, e quanto menor o peso da extremidade, menor a energia gasta para a mover. Os corredores Kalenjin que participaram no estudo tinham menos meio quilo na parte inferior das pernas (uma diferença que se vê até entre os Kalenjin corredores e os não-corredores), o que resulta em cerca de 8% de poupança de energia por quilómetro.
  • Tipo de corpo nilótico. Os Kalenjin têm um corpo muito esguio (útil, como vimos antes, para a poupança de energia durante a corrida). Este tipo de corpo desenvolveu-se em zonas quentes e secas, uma vez que as proporções esguias funcionam melhor para o arrefecimento do corpo, um factor muito importante para a economia de energia durante uma corrida longa.
  • Evolução em altitude. É conhecido que treinar em altitude aumenta a quantidade de glóbulos vermelhos no sangue, e melhor do que treinar é nascer em altitude, porque permite que o corpo se adapte durante a sua evolução. Mas então porque não há mais corredores do Nepal, ou dos Andes? A resposta não tem apenas a ver com a questão do tipo de corpo, mas também como cada povo se adaptou a viver em altitude. A quantidade de oxigénio no sangue é determinada pela quantidade de hemoglobina que temos e quanto oxigénio essa hemoglobina transporta. Os habitantes dos Andes respondem à falta de oxigénio com um aumento da quantidade de hemoglobina, o que implica um sangue mais viscoso e que circula com menos facilidade, nada ideal para a prática de desporto prolongado. Os tibetanos têm níveis de hemoglobina normais e quantidades de oxigénio transportado baixas (normais em altitude), mas as quantidades elevadas de oxído nítrico aumentam a velocidade de passagem do sangue nos pulmões, levando a uma respiração mais rápida e profunda; aumenta a quantidade de oxigénio no sangue, mas leva a um gasto maior de energia, também negativo na prática de desporto. Um estudo dos Amhara, da Etiópia (muito próximos e com um tipo de corpo semelhante aos Kalenjin), revelou que estes têm uma quantidade de hemoglobina normal e uma quantidade de oxigénio transportado normal também – mas muito pouco normal nestas altitudes. Quando descem para altitudes próximas do nível do mar aumenta a quantidade de oxigénio transportado para valores próximos do máximo possível, sem gastarem mais energia por isso.

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Nenhum destes factores explica, sozinho, a preponderância absurda que etíopes e quenianos, sobretudo Omoro e Kalenjin, têm nas corridas de fundo. As questões genéticas parecem ter uma importância grande, mas não podemos descurar os factores culturais – Fernanda Ribeiro, medalha de ouro dos 10.000m, também corria para a escola – e sociais – o efeito funil de procura exaustiva de talento para um determinado desporto é a razão principal para o domínio que os EUA têm no basquetebol mundial. Enquanto que outros países como a Finlândia, EUA e Reino Unido, as grandes potências mundiais do fundo entre as Grandes Guerras, têm ficado mais lentos (entre 1983 e 1998 o número de homens norte-americanos que correram a maratona em menos de 2h20m desceu de 267 para 35, no Reino Unido de 137 para 17, a Finlândia não apurou um único atleta de fundo para os Jogos Olímpicos de 2000), os Quenianos focaram toda a sua atenção neste desporto, por razões socio-económicas. Mas também porque, por razões genéticas (sobretudo nesta era de especialização em tudo, incluíndo no desporto), é muito mais provável encontrarmos o próximo recordista da maratona em Iten do que no resto do mundo.

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Publicado em Inominável nº 5
por Alexandre Alvaro

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