Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 16.06.17

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

São muitas as razões que podem levar um organismo que tutela um desporto a mudar, por vezes drasticamente, as regras de uma modalidade. Sejam elas quais forem, têm de ser muito fortes e consensuais: o desporto é dos meios que mais vai resistindo ao passar do tempo, excepção feita à sua componente financeira.

 

O baseball é um dos melhores exemplos. O baseball de hoje em dia é visto, mesmo por quem o segue, como uma das competições mais chatas do mundo. Eu, que papo tudo o que é desporto (eu até vejo os tipos do curling a atirar umas pedras ao longo de um ring de gelo), já tentei ver baseball e sou incapaz. Lembro-me de ter lido há uns tempos um artigo curto e directo com 7 maneiras para fazer do baseball um desporto mais watchable, mais espectacular: encurtar a época (actualmente 40 jogos por equipa) mas aumentar os playoffs, limitar o número de substituições, diminuir a altura do monte do pitcher, entre outras. Tanto quanto sei, nada disto foi ainda posto em prática e o baseball continua, teimosamente, chato.

O antijogo, no caso do futebol e dos desportos de tempo corrido, é outra razão (muito forte, na minha opinião) para mudar uma regra: introduzir castigos pesados a quem o pratica (difícil de provar em alguns casos) ou passar o desporto para o modelo americano e parar o relógio quando o jogo pára também (muito difícil de aplicar por ser uma mudança tão drástica).

Na sua grande maioria, as alterações a regras são feitas para eliminar polémicas que surgiram com o crescimento da tecnologia nas transmissões e que podem, coincidentemente, ser resolvidas por essas mesmas tecnologias. Na NBA já há muito que as imagens televisivas são utilizadas pelos árbitros mas, para melhorar um sistema que apesar de ser claramente positivo ainda tem um problema (o tempo que demora a análise), querem que sejam árbitros externos e não os que estão em campo a ajuizar as imagens televisivas de modo a que a resposta seja mais rápida.

 

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

 

No futebol americano testou-se, durante a pré-época, uma alteração à distância do pontapé de ponto extra (de 20 para 33 jardas), uma vez que a marcação desse pontapé se tinha tornado incrivelmente aborrecida e insatisfatória para os próprios kickers, com percentagens de conversão perto dos 100%. É engraçado como algumas mudanças com vista à melhoria do espectáculo são também benéficas para os atletas (como no caso da redução do monte do pitcher, no baseball). No ténis, a introdução do hawk-eye é precisamente uma das alterações deste tipo: necessidades para que o desporto se mantenha actual, excitante, que acompanhe as melhorias tecnológicas que fazem sentido mas sem exagerar na sua aplicação.

 

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

 

Estas modificações são absolutamente necessárias para que o desporto em questão se mantenha saudável. Quando há uma discrepância entre o que os agentes do jogo poderiam fazer e aquilo que realmente fazem, criam-se as tão conhecidas crispações (quem vê futebol está mais do que habituado a isso, uma vez que a FIFA é dos organismos mais resistentes à mudança) que não têm razão para acontecer. Desde 28 de Fevereiro de 2015 (provavelmente há mais tempo até) que está a ser discutida a utilização do vídeo para apoiar os árbitros; na altura ficou em águas de bacalhau. A razão principal para terem adiado a decisão é, justificaram, que 1. é uma decisão muito importante para ser tomada de ânimo leve, "the biggest decision ever made in the way football is played" e 2. que precisam de mais informação.

 

1: a biggest decision ever made não é esta, nem de longe. Isto nem sequer altera a maneira como se joga (talvez o teatro deixe de fazer parte do jogo, mas isso é bom!). Antigamente as equipas tinham 20 jogadores, não havia guarda-redes, as balizas não tinham altura máxima, o jogo durava duas horas ou mais e não havia foras-de-jogo. Isso sim foram alterações nos fundamentos do jogo, agora se os árbitros podem ou não fazer melhor o seu trabalho nem devia estar em discussão.

2: se precisam de mais informação vão aos EUA, eles usam isso em vários desportos e de maneiras diferentes, é como ir a um buffet: é só escolher. Na NFL usam este sistema desde 1999(!). E se precisam realmente de mais informação, porque é que proibiram a Holanda de usar esse método na taça, quando isso poderia trazer-vos os dados de que precisam sem terem de pôr o pescoço em risco (afinal, foram eles que se ofereceram)?

 

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

 

Apesar de treinadores e jogadores estarem a favor da mudança, bem como uma maioria de adeptos, estes continuam a apresentar ressalvas neste debate. Discute-se se o vídeo-árbitro deve estar sempre activo, ou se só servirá (como na maioria dos casos nos EUA) para situações importantes, como penaltis, foras-de-jogo, etc.; se será possível que os treinadores usem isto para quebrar o ritmo de jogo, como acontece por vezes no ténis; se a introdução das novas tecnologias tirará o gozo de discutir as decisões certas ou erradas da equipa de arbitragem (as pesquisas indicam que, logo após a atmosfera no estádio, o debate é o segundo factor mais importante para a experiência de um adepto).

 

Eventualmente, mais precisamente em Setembro de 2016, os dirigentes da FIFA acabaram por aceitar a ideia da Liga Holandesa. O Ajax bateu o Willem II por 5-0 e um árbitro, dentro de uma carrinha com 6 televisões, aconselhou o seu colega dentro de campo a alterar um cartão amarelo para vermelho, por agressão a um jogador da equipa contrária. Segundos depois, Anouar Kali foi expulso. A liga australiana será a primeira a oficialmente utilizar este sistema, seguida de perto por Portugal, Alemanha, Brasil e EUA.

 

É certo que não será isto que vai acabar com as polémicas no futebol (tal como não o fez nos desportos em que estes sistemas já são utilizados), mas a verdade é que contribuirá e muito para menorizar a sua importância. Um jogo é disputado entre duas equipas e a terceira equipa só lá está para garantir que as regras são cumpridas – quanto melhor o fizerem, melhor será o desporto praticado.

 

Na Desportiva | Reformular um desporto – a introdução do vídeo-árbitro

 

 

____________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 8
por Alexandre Alvaro autor do blog Jogo do Sério

Siga-nos no Bloglovin