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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 04.05.17

Na Desportiva | o corpo no desporto: do fascismo ao big bang

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O corpo, em particular o corpo masculino, foi um símbolo importante em todos os movimentos fascistas europeus. Com a generalização da ideia de que o corpo humano reflecte a sua mente – mente sã, corpo são – o exercício físico foi considerado, dentro da estética fascista, um instrumento para transportar para o dia a dia (escola, trabalho e tempo livre) as noções de disciplina, higiene, força e virilidade. Sob a capa da filantropia e da luta contra os flagelos sociais da época, esconde-se uma vontade muito real de movimentar a sociedade para o combate às influências negativas dentro dela. Da caça aos germes passa-se à caça aos seus portadores. Para além da masculinidade latente deste ideal, estava também associada a ideia de pureza racial, de que da decantação e preservação de uma raça se obteriam os espécimes ideais.

Foi, primeiramente, através de Benito Mussolini que se institucionalizou a procura do Homem Novo, brutal, guerreiro, introduzindo programas escolares que reflectiam o tipo de sociedade que ele pretendia formar, e regendo de perto as instituições desportivas. Criou a Serie A em 1929 e organizou o Campeonato do Mundo em 1934 (que venceu, por meios pouco lícitos, bem como o Mundial de 38). A noção da importância do Desporto na propaganda dos regimes fascistas disseminou-se para a Alemanha (organização dos Jogos Olímpicos de 1936, com todas as conotações políticas que se conhecem) através do contacto directo e entre os líderes de ambos os países, Espanha (guerra aberta entre o General Franco e o Barcelona FC, coração da Catalunha rebelde) e, claro, Portugal.

 

Na Desportiva | o corpo no desporto: do fascismo ao big bang

 

No período da “Renascença portuguesa”, para além da reforma da educação física nas escolas assistimos à criação de vários grupos, formados pelo e associados ao regime, como a Mocidade Portuguesa e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, que pretendiam enquadrar as actividades físicas e os tempos livres da população, sobretudo dos mais jovens. Aí, com as suas pretensões educativas e moralistas dissimuladas entre a prática física, o regime do Estado Novo associava a regeneração de Portugal ao mito das “verdadeiras qualidades da raça”. Ainda antes da implementação da Constituição de 1933, o Decreto n.º 21 110 de 3 de Abril de 1932, onde se estabelecia o Regulamento de Educação Física dos Liceus, declarava que a educação física “não é propriamente um pretexto para divertimentos ou lazeres, senão um elemento poderoso para o melhoramento das condições individuais e sociais” e referia ideias como “a decadência manifesta da espécie humana (...) em Portugal essa decadência já não sofre dúvidas para ninguém, tal o seu grau”. Curiosamente, em Portugal, a prática desportiva era altamente desaconselhada e considerada como um risco para a saúde dos indivíduos e para a segurança pública. Preocupava-os a popularidade e espontaneidade dos jogos e do desporto, aconselhando antes a ginástica e, sobretudo, a ginástica respiratória.

 

Na Desportiva | o corpo no desporto: do fascismo ao big bang

 

O CORPO MÉDIO

 

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Todos estes programas e movimentos foram não só profundamente influenciados por planos carregados de ideais raciais, mas também pelas ideias da antropometria do século XIX (que faziam renascer os ideais clássicos das geometrias perfeitas de Platão, da Proporção Dourada, do Homem de Vitrúvio). David Epstein, no seu livro The Sports Gene, relata-nos como um artigo do final do século XIX sobre as características de um atleta diz que “há uma forma ou um tipo de homem perfeitos (...) e a tendência da raça [i.e. da raça caucasiana] é de atingir esse tipo.” Os antropometristas também consideravam que os tipos de corpo estavam distribuídos ao longo de uma curva em forma de sino, e que o topo – a média – era a forma mais perfeita que se podia atingir. Os melhores atletas seriam os que estavam no topo da curva, nem demasiado altos nem baixos, gordos ou magros. E isto aplicava-se a todos os desportos. Em 1925, os jogadores de topo de voleibol, lançamento do peso e salto em altura eram, em média, do mesmo peso e altura. Hoje, um lançador do peso é em média 6,5 cm mais alto e 60 kg mais pesado que um saltador em altura.

 

O BIG BANG DOS TIPOS DE CORPO

 

Na Desportiva | o corpo no desporto: do fascismo ao big bang

 

Com o abandono dos ideais raciais e antropométricos, os treinadores e professores de educação física começaram a procurar outros tipos de corpo e outras habilidades, específicas do seu desporto. E com o aumento da popularidade e remuneração dos desportos, cresceu exponencialmente o número de pessoas que estão no topo do funil. O que vemos, hoje, é que os atletas não estão apenas mais altos e mais fortes do que eram no início do século XX. Comparados com o resto da humanidade, os corredores de fundo, patinadores, mergulhadores e ginastas de elite estão mais pequenos. Apenas nos últimos trinta anos, a média de alturas das ginastas de topo desceu de 1,60 m para 1,45 m. E isto aplica-se também a medidas específicas do corpo: os atletas de polo aquático têm agora o antebraço maior comparado com o resto da população, os halterofilistas mais curtos; Michael Phelps (natação) e Hicham El Guerrouj (meio-fundo) têm 18 cm de diferença em altura, mas têm o mesmo comprimento de pernas – na natação, o comprimento do torso e braços é fundamental, enquanto nas distâncias longas de corrida valoriza-se o comprimento das pernas. As médias de comprimento, peso e medidas de partes específicas do corpo estão muito diferentes do que eram há menos de 100 anos, e dispararam em todas as direcções. A isto se chama o Big Bang dos tipos de corpo.

 

ESTAREMOS PRÓXIMOS DO LIMITE?

O mundo do desporto profissional tem sido um laboratório incrível para a selecção artificial. Mas a expansão do mundo das diferenças de corpo está a diminuir, e a marcha constante de quebra de recordes mundiais está a desacelerar ao mesmo ritmo.

 

Na Desportiva | o corpo no desporto: do fascismo ao big bang

 

O record do mundo de Jesse Owens nos 100 m – um atleta que tanto contribuiu para quebrar as barreiras de que aqui falamos, ao vencer 4 medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha nazi – batido em Junho de 1936 era de 10,2 segundos. Mas Jesse Owens correu sobre cinzas, e não em tartan, e os seus blocos de partida eram buracos no chão. Segundo um grupo de cientistas que estudou a diferença de tecnologia presente nos Jogos Olímpicos de 36 e nos Campeonatos do Mundo de 2013, se Jesse Owens tivesse corrido em 2013 teria ficado em 2º lugar, pouco atrás de Usain Bolt. Noutros desportos, como a natação e o ciclismo, muitas das grandes quedas nos tempos de certas corridas devem-se sobretudo a melhorias técnicas, e não a uma evolução dos atletas em si. Talvez seja seguro dizer que, daqui para a frente, apenas super atletas conseguirão exceder os seus antecessores.

 

 

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Publicado em Inominável nº 7
por Alexandre Alvaro autor do blog Jogo do Sério

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