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Revista Inominável

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Qua | 20.09.17

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres #2

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres

 

A média de lançamentos livres marcados na NBA ronda os 75%. Chamberlain, na sua segunda época na NBA, 1960-61, um ano antes dos inacreditáveis 50 pontos por jogo, lançava 50% da linha de lance livre, menos do que em lançamentos normais, em jogo corrido e com adversários à sua frente. É mau, ao ponto de ser embaraçoso. Qualquer jogador que marque lances livres abaixo dos 60% passa a ser prejudicial para a sua própria equipa em jogos equilibrados: quando uma equipa perde por poucos pontos, a minutos do fim, começa a fazer faltas sobre os adversários, fazendo-os ir à linha de lance livre. Conseguem com isso mais tempo de posse de bola e, caso o adversário falhe, aproximam-se em pontos. Um jogador com 50% da linha de lance livre “dá” um ponto ao adversário de cada vez que lá vai.

Na época seguinte, 61-62, a sua média sobe para 61%. No mítico jogo dos 100 pontos, a 2 de Março de 1962, marca 28 de 32, uns impressionantes 87,5%. Como é que um dos piores lançadores da linha de lance livre da história é, de repente, um dos melhores? A resposta é simples. Ele passou a lançar “à padeiro”. Sim, em vez de fazer um lançamento normal, ele lançava por baixo.

 

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres

 

Rick Barry, um dos melhores lançadores de lance livre da história da NBA, lançava “à padeiro”. Não é que ele fosse mau a lançar normalmente – foi o melhor marcador da liga em duas épocas e teve 115 jogos a marcar mais de 40 pontos – mas, e estas são as suas palavras, “lançar por baixo é simplesmente melhor”. Na sua melhor época, Barry falhou 9 lançamentos da linha. LeBron James, sem dúvida um dos melhores jogadores da actualidade e um lançador médio de lance livre, falha normalmente 150. De um ponto de vista puramente físico, há muitas vantagens. O movimento é mais curto, e portanto há menos onde cometer erros, e é muito mais fácil de replicar em lançamentos futuros. A posição de lançamento é mais natural ao nosso corpo. A bola leva mais spin, é um lançamento mais suave, e portanto tem maior probabilidade de ressaltar para dentro caso bata no aro. Só não se fazem assim todos os lançamentos porque há adversários à frente e o movimento do corpo a ter em conta.

 

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres

 

Portanto, na sua melhor época, Wilt Chamberlain usava uma técnica de lance livre melhor. Isso vê-se nas suas estatísticas. E depois acontece algo inacreditável. Chamberlain pára, e volta a lançar como antes. E volta a ser um lançador horrível, chegando a lançar 38% em 67-68. Chamberlain era um jogador imparável, excepto se lhe fizessem faltas. Um dos seus treinadores chegou a dizer que se ele lançasse 90% de lance livre, talvez eles nunca perdessem. Ele tinha todas as razões do mundo para lançar “à padeiro” e no entanto parou. Muitos outros jogadores podiam ter sido transcendentes, caso tivessem melhorado a sua técnica de lance livre: Shaquille O’Neal (52%), Dwight Howard (57%), Bill Russel (56%), DeAndre Jordan (41%), Ben Wallace (41%), Andre Drummond (38%). A lista continua e é longa. Todos eles passaram pela experiência de serem retirados de campo porque o adversário continuamente utilizava a estratégia de pô-los na linha de lance livre. Todos eles tentaram de tudo para lançarem melhor, mas nenhum deles experimentou sequer lançar por baixo. Porquê?

Claramente não será porque acham que o lançamento por baixo é pior. Os números falam por si, e é conhecimento geral dentro da NBA que lançar “à padeiro” é, de facto, melhor. O ridículo da situação tem, sem dúvida nenhuma, o seu peso. Nos EUA, este lançamento tem a alcunha de “Granny shot” – “Lançamento de avozinha”. Alguns jogadores experimentam, por piada, e nunca mais pensam nisso outra vez. Rick Barry aconselhou um jogador actual a experimentar – melhorando a sua percentagem para 80% nos treinos – mas ele nunca utilizou a técnica em jogos. Rick Barry recusa-se a dar o nome desse jogador, como se fosse uma coisa vergonhosa. Chamberlain deixou de lançar porque, dizia, “se sentia tonto, como um maricas”. Mas segundo Malcolm Gladwell, sociólogo, isso não chega para explicar esta incrível situação. Porque também é ridículo falhar, e falhar nas percentagens em que estes jogadores falham. Vejam um vídeo do Shaquille O’Neal a lançar da linha de lance livre – é ridículo.

 

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres

 

Gladwell diz que isto está relacionado com a ideia de threshold (limiar, em tradução literal). Esta teoria, baseada nas ideias de Mark Granovetter, diz-nos que as acções de um indivíduo dependem do número de outras pessoas que já estão a assumir esse tipo de comportamento. O limiar depende da pessoa em causa e pode ser influenciado por inúmeros factores: económicos, idade, personalidade, etc. O filho de Rick Barry, Canyon, joga basket na Universidade da Florida. A sua percentagem de lançamento de lance livre? 88%  –  e sim, lança à padeiro. O limiar necessário para Canyon Barry é apenas o facto de o seu pai também ter o mesmo comportamento. Para os outros jogadores será muito maior. Aquilo de que Wilt Chamberlain e Shaquille O’Neal precisaram, e de que Dwight Howard, Andre Drummond e tantos outros precisam, é que mais pessoas decidam fazer o mesmo. Se outros jogadores da equipa, por exemplo, tentarem melhorar o seu jogo através do “lançamento à padeiro”, talvez isso faça com que seja mais fácil alguém utilizar isso nos jogos.

Para Rick Barry, a razão é outra. Ele sabe que foi o melhor jogador que podia ter sido. Wilt Chamberlain nunca o poderá afirmar.

 

Na Desportiva | A época em que Wilt Chamberlain foi um bom lançador de lances livres

 

 

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Publicado em Inominável nº 9
por Alexandre Alvaro autor do blog Jogo do Sério

 

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