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Revista Inominável

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Qua | 05.07.17

Na Desportiva | 10 razões para ver o Tour de France

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Quando quase todos os outros desportos param, o ciclismo entra na época das provas por etapas, com as três maiores a serem disputadas entre 6 de Maio (início do Giro d’Italia) e 11 de Setembro (última etapa da Vuelta a España), e com o Tour de France e a Volta a Portugal pelo meio. O que quer dizer que podemos acompanhar quase toda a época dos maiores ciclistas neste período. Estas são as razões que fazem do ciclismo o meu desporto de eleição para o Verão:

 

1. O ciclismo é um dos DESPORTOS MAIS DUROS do mundo. É dos poucos desportos em que aqueles tipos que estamos a ver fazem coisas que nós não conseguimos fazer. Todos nós, melhor ou pior, mais devagar ou mais depressa, conseguimos "dar uns pontapés na bola" ou bater numa bola com a raquete. Não menorizando as coisas fantásticas que se fazem noutros desportos, nenhum de nós consegue atravessar os Alpes de bicicleta. A Volta à França é o apogeu do ciclismo, onde os melhores corredores enfrentam uma das mais duras provas em bicicleta.

 

2. A Volta à França é perfeita para as TARDES DE VERÃO. Isto era sobretudo verdade quando eu ainda estudava e tinha os Verões livres. A prova é sempre durante o mês de Julho e a transmissão das etapas dura, mais ou menos, das 15 às 18h, quando só apetece é estar à sombra. Depois de almoço deito-me no sofá com uma bebida qualquer e fico ali naquela modorra até adormecer. A sesta dura quase sempre até aos 30-50km finais, altura em que acordo para assistir ao resto da etapa. Perfeito.

 

3. AS PAISAGENS DE FRANÇA. Nas alturas em que nada se passa que seja desportivamente relevante, os operadores de câmara aproveitam o facto de terem um helicóptero para filmarem os sítios por onde eles passam e destacam marcos e monumentos importantes. Acabo sempre por descobrir sítios que vale a pena visitar e pedaços importantes da história e cultura locais.

 

Na Desportiva | 10 razões para ver o Tour de France

 

A primeira etapa do Tour deste ano começa junto ao Mont Saint-Michel e termina na Praia de Utah, um dos pontos de desembarque no Dia D.

 

4. PETER SAGAN. O eslovaco, actual Campeão do Mundo, é o mais espectacular dos ciclistas em prova. A estratégia para cada etapa parece quase inexistente: Sagan sprinta com os melhores, ataca em plano, em descida, nos paralelos e às vezes em subidas curtas, consegue lugares no pódio depois de ter de ajudar o seu chefe de fila durante a etapa toda ou mesmo furando nos quilómetros finais. Tem vencido a camisola dos pontos desde 2012, e conseguiu um número incrível de top-5 em etapas do Tour, com as mais variadas características, nos últimos dois anos. Um ciclista que recria toda a emoção do Tour sozinho.

 

Na Desportiva | 10 razões para ver o Tour de France

 

5. OS COMENTADORES DA EUROSPORT PORTUGUESA. Há muitos outros bons comentadores nas televisões portuguesas e internacionais, mas o trio Luís Piçarra/Paulo Martins/Olivier Bonamici é o meu favorito. Se acham que acompanhar três horas de ciclismo em terreno plano é uma seca, nunca ouviram estes três a comentar uma etapa. É incrível como eles comentam uma mesma prova ao longo de três semanas e muitas, muitas horas e têm sempre alguma coisa interessante para dizer. Falam da actualidade da modalidade, da história, da estratégia de cada etapa, da forma e das declarações dos corredores, dos bastidores do ciclismo, comentam as perguntas que os espectadores vão fazendo no Twitter, fazem apostas em todas as etapas e no final há um vencedor, riem-se, contam piadas e relatam o que se passa no estúdio, o Paulo Martins manda calinadas ao ritmo de um Jorge Jesus e o Olivier Bonamici fala sobre a comida e as histórias de cada região francesa. Há entre eles uma intimidade e um à-vontade incríveis e que aproximam o espectador dos comentadores. Porque é que em outros comentários a coisa é tão séria, tão rígida e fria? Há mais momentos mortos nos comentários de futebol do que na Volta à França. Aprendam com eles!

 

6. Dentro da Volta à França há VÁRIAS COMPETIÇÕES. Como disse, eu sou um adepto da montanha e acabo por ligar mais à classificação "das bolinhas" que às outras (excepto, claro, à classificação geral), que premeia os ciclistas que passam mais vezes as montanhas na frente da etapa. Há ainda a camisola branca (classificação sub-25), verde (pontos que premeiam quem termina as etapas mais vezes na frente), classificação por equipas e a disputa dos contra-relógios.

 

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Líderes da classificação da Juventude, Geral, Pontos e Montanha, da esquerda para a direita. 

 

7. É possível que cada vez mais se substitua o carro ou os transportes públicos pela BICICLETA. Eu fiz isso. Acabo por poupar algum dinheiro e ajuda a manter a forma física. Dizerem que em Lisboa é impossível andar de bicicleta é, em parte, uma grande mentira; eu moro em Campo de Ourique que é bem lá no cimo. E se houve coisa que me deu vontade de andar mais de bicicleta foi a Volta à França. Aliás, foi depois da Volta de 2013 que decidi investir um bocadinho e comprar uma bicicleta de rodas finas em segunda mão para substituir os transportes. Nada melhor do que esta prova para dar o empurrão que falta.

 

8. ESCOLHER UM FAVORITO. Os melhores representantes da modalidade estão aqui e no seu pico de forma. Além dos super-favoritos Froome e Quintana, temos Contador, Nibali, Aru... Não há nada como escolher um corredor e puxar por ele nas montanhas. Sempre gostei muito do Andy Schleck e nunca vivi tanto uma competição desportiva como quando ele atacou a meio de uma etapa e atravessou duas montanhas sozinho para ganhar bastante tempo para o líder (o Cadel Evans, na altura), ainda assim insuficiente para vencer o Tour. E não é preciso ser só para a Camisola Amarela, teremos sempre favoritos para a montanha, para os sprints e para os contra-relógios; a luta pelas outras classificações é quase tão emocionante como pela geral.

 

Na Desportiva | 10 razões para ver o Tour de France

 

9. O AMBIENTE que se vive durante aquelas três semanas deve ser fantástico. O número de pessoas que segue a caravana do Tour é já bastante grande, mas a atmosfera criada pelos milhares de pessoas espalhadas pelas passagens nas montanhas deve ser incrível. Além disso, passar por esta prova duríssima aproxima os atletas e as equipas técnicas e a intimidade entre eles é bonita de se ver e ajuda ao ambiente fantástico da Volta à França.

 

10. RUI COSTA. Desde que se tornou chefe de fila de uma equipa com algum palmarés (Lampre) a Volta à França tem sido uma competição aziaga para o português. Depois de, ainda na Movistar, ter cedido um lugar no top-10 para ajudar o seu chefe de fila, em 2013, Rui Costa abandonou os dois Tours seguintes, já na Lampre, primeiro com uma broncopneumonia e depois com lesões devido a quedas. O seu palmarés é muito consistente, com vários pódios em provas importantes do ranking internacional, incluindo três Voltas à Suíça consecutivas e um Campeonato do Mundo. No entanto, parece sempre que falta ao Rui a chama de campeão. Este ano tem vindo a subir de forma com cinco top-10 em provas UCI, a mais notória das quais foi a última: 3º lugar na Liège-Bastogne-Liège.

 

Na Desportiva | 10 razões para ver o Tour de France

 

O QUE ESPERAR DA EDIÇÃO DE 2016

 

- Sem o prólogo habitual em contra-relógio e com as cinco primeiras etapas a terminarem em plano, vamos assistir a uma luta séria entre os sprinters para ver quem veste a camisola amarela durante a primeira semana. Os favoritos para estes dias são Cavendish (26 etapas ganhas no Tour), Kittel (4 etapas em 2014) e Greipel (4 etapas em 2015), com Sagan sempre à procura de amealhar o maior número de pontos. Ainda assim não convém que os principais candidatos à vitória final se distraiam: vão ser etapas com muito vento lateral e isso pode ditar grandes diferenças ainda antes de chegarem às montanhas – que o diga Quintana, que na edição do ano passado perdeu mais ou menos o mesmo tempo que o separou do primeiro lugar no final da prova.

- Para já, antevê-se que todos os principais candidatos estejam presentes na Volta à França. Destacado de entre um grupo razoável está Chris Froome, vencedor por duas vezes nos últimos anos e que só não ganhou mais vezes devido a quedas e à sua posição na equipa (quando teve de ajudar o seu chefe de fila, Bradley Wiggins, a vencer). Alberto Contador e Nairo Quintana serão os que mais hipóteses têm de derrubar Froome, havendo ainda a possibilidade de que Fabio Aru seja uma agradável surpresa e dê luta pelo pódio.

- Sem contra-relógio por equipas, sem etapa de paralelos e com apenas dois – e curtos – contra-relógios individuais, este ano parece ser talhado para os trepadores puros. Curiosamente, esta é uma situação que favorece os dois principais corredores franceses, Romain Bardet e Thibault Pinot, que se vêem em boa posição para terminar no top-5.

 

 

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Publicado em Inominável nº 4
por Alexandre Alvaro autor do blog Jogo do Sério

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