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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 12.01.17

Ler com as redes sociais

Quando eu comecei a ler não havia redes sociais.
Fiz-me leitora na solidão das páginas, no isolamento que os livros merecem
e de que eu muitas vezes (ainda) preciso.
Encerrada a última página, ficava eu e o silêncio.
Nem sempre.

Muitas vezes ficava eu e as perguntas. Eu e as dúvidas. Eu e a vontade de saber se haveria mais alguém, uma pessoa que fosse, a sentir as palavras como eu. Ou a viver o oposto. A interpretar tudo ao contrário de mim.


Comecei a escrever no meu blogue para superar o vazio do fim dos livros. Comecei a escrever opiniões curtas com aquilo que me ficava a remoer a cabeça depois das leituras, o que imaginava que podia usar em conversas se tivesse com quem conversar sobre livros. Havia próximo de mim quem gostasse de livros e os lesse, claro, mas não ao ritmo a que eu lia. Não conhecia outras pessoas que partilhassem do meu entusiasmo e da minha vontade de ler sempre mais e mais. A leitura é uma actividade solitária e eu, apesar de alimentar bastante a solidão necessária para ler, comecei a sentir uma enorme necessidade de saber onde estavam os outros leitores como eu. Haveria mais alguém? Sim, esta questão é pertinente, quando se vive os livros como eu é inevitável não questionar se se terá algum problema. Uma obsessão literário-compulsiva, por exemplo. Sabe-se lá.


Então, de uma forma inesperada, que eu ainda hoje não consigo explicar, o meu blogue começou a ter interacção. E foi um comentário ou um e-mail que mudou para sempre a minha forma de viver as leituras. Dos blogues às redes sociais o caminho é curto, mas eu levei anos. Devo ter sido das últimas pessoas a ter facebook e goodreads e este é, na verdade, um caminho sem volta. A informação disponível é imensa e, de repente, há tanta gente que gosta de ler, que os primeiros tempos nas redes sociais parecem uma constante festa. A novidade, aliada às conversas sobre os livros que se leram, os que se lêem e os que se querem ler, encheram-me de vontade de falar e de amigos, que se somavam à velocidade a que eu os adicionava e era adicionada. O efeito imediato destes encontros foi uma redução do tempo dedicado a ler. O que é mau. E que eu sabia ser mau pois sentia a falta de ler em sossego. Sim, porque passei a ler na companhia dos amigos novos, sempre com uma necessidade estranha e inexplicável de contar a todos o que estava a ler.
E de saber.


A vontade de saber é talvez o que neste momento me leva mais às redes sociais. Sejamos francos, já não há surpresas. Já não compramos livros sem saber o tema, as opiniões da crítica e, mais importante, as opiniões das pessoas que seguimos e que mais valorizamos, por se aproximarem do que pensamos e por terem gostos semelhantes aos nossos.

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(foto de Gil Cardoso)

 

Hoje são editados livros todos os dias. Muitos. Para que a leitura não se torne uma doença (ainda mais) obsessiva, é necessária uma triagem atenta, seleccionar no meio da enxurrada de títulos aqueles que nos vão agradar e proporcionar a leitura perfeita (nunca encontrada, mas em constante busca), e evitar aqueles que nos vão fazer sentir que desperdiçámos tempo irrecuperável.
Podemos ser felizes a seguir opiniões nas redes sociais, podemos mesmo, mas é também muito possível cair em todo o tipo de embustes.
Desconfio sempre quando toda a gente acha determinado livro o máximo. Eu participo em comunidades de leitores e sei que não é possível todos gostarem do mesmo livro ou, os que gostam, gostarem da mesma forma. Acreditem, não acontece. E essa discussão é positiva, eu diria até saudável se não se cair no exagero nem no ridículo. Não, não é preciso andar à bulha por causa dos livros, mas enfim, também acontece.
A grande maioria dos blogues que partilha opiniões sobre livros anda a ler a mesma coisa. Pois é, basicamente novidades, aquelas que as editoras enviam para serem divulgadas. Eu sei, porque também já o fiz e não estou com isto a apontar o dedo a ninguém. Quero apenas dizer que cheguei à conclusão de que não evoluiria como leitora a consumir apenas o que me davam, sem procurar por mim coisas diferentes. E sim, continuo a receber alguns livros oferecidos, apenas os que quero mesmo ler, em troca de uma opinião sincera, que publico.


No geral os livros são rapidamente esquecidos. Se além de haver pouca diversidade na divulgação, se dá demasiado ênfase às novidades, um livro vive apenas uma curta infância após o nascimento. Se as redes sociais provocam um falatório interessante, que pode levar a que algumas obras atinjam um sucesso não imaginado, também atiram para segundo plano edições que deviam ser lidas. De qualquer modo, tanto os que são profusamente lidos, como os que passam ao lado do estrelato, são rapidamente esquecidos, sendo substituídos por outras novidades. E é assim que se faz do mercado um depósito de livros quase sem vida útil, a maioria quase mortos à nascença por não terem tempo de respirar. E livros que morrem deixam-me triste. Como não? Dá-me ganas de os salvar a todos, principalmente (e sem me preocupar em ser tendenciosa) aqueles que prefiro.


Após estes tempos a ler em sociedade (virtual) aprendi a escolher onde procurar informação. Com o tempo fui eliminando o que não me oferece credibilidade e valorizando cada vez mais o meu instinto. Tenho vindo a recuar na quantidade de informação que consumo, o que trouxe claras vantagens na quantidade de livros que tenho lido e na sua qualidade. Procuro melhor, tendo em conta os meus gostos e, de alguma forma, lendo nas entrelinhas de alguns pareceres que, inevitavelmente, descarto de imediato.


O que de melhor me trouxe a blogosfera e as redes sociais? Amigos. Reais, curiosamente. Daqueles a quem posso telefonar ou combinar um encontro para perguntar, cara a cara, “o que achaste do livro x?”. E conversas, muitas conversas boas sobre livros, sem ser nas mensagens privadas ou nos comentários.


Mas, mesmo tendo descoberto um mundo de leitores com quem partilhar o que penso dos livros, continuo sem saber qual é a leitura certa. E se calhar nunca saberei. Desconfio que, como em tantas coisas, nos livros também não há certezas. Seja como for, e porque o livro perfeito pode ser o próximo, não posso parar de ler.

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Publicado em Inominável nº 5

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

 

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