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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 08.11.17

Histórias de Arte | Quadros brancos, quadros negros

 

Ame-se ou deteste-se, o minimalismo veio para ficar. Sendo hoje em dia um termo que pode abranger todos os aspectos da nossa vida e do que nos rodeia, é interessante notar que o termo surgiu inicialmente associado a uma tendência das artes visuais, e só depois se expandiu para outras áreas.

O Minimalismo como tendência artística surgiu nos Estados Unidos nos anos 50 do século passado como um movimento que rejeitava a ideia de que a arte deveria reflectir a expressão pessoal do seu criador. Em vez disso, uma obra de arte deveria apenas referir-se a ela própria, ser objectiva, não ter expressão nem referências exteriores. Privilegiando o racionalismo e o pensamento matemático, a arte deveria ser a força através da qual a ordem e a racionalidade seriam atribuídas às coisas – em detrimento do carácter artístico subjectivo e muito pessoal dos movimentos em voga até então.

Esteticamente, a arte minimal procura uma forma altamente purificada de beleza, associando-a à verdade (porque não pretende ser nada mais do que é), à ordem, à simplicidade, à harmonia e à economia. É um novo tratamento da arte, tanto de uma obra como da sua própria percepção. O objecto artístico deixa de existir para satisfazer um determinado gosto, e o juízo que sobre ele é feito não tem de estar assente em critérios estéticos. A obra de arte já não é simplesmente um objecto numa sala, mas passa a ter uma possibilidade performativa – a da interacção desse objecto com o espectador e com o espaço onde ambos se encontram (e neste aspecto a arte minimal liga-se intimamente à arte conceptual). A ideia da obra adquire mais importância do que o objecto em si. A técnica artística deixa de ser primordial – até porque muitas vezes o artista nem sequer intervém como “executor” da obra, mas apenas como o seu “idealizador”. O essencial para a obra de arte já não é a manufactura, mas sim a ideia e a intenção: a arte é algo mental.

Apesar de a expressão “Minimalismo” já ter anteriormente sido usada, de forma muito esporádica, em contexto artístico, foi o filósofo britânico Richard Wollheim que a trouxe definitivamente para o discurso crítico relacionado com a arte ao publicar em 1965 um artigo intitulado “Minimal Art”.

Quadros brancos

Embora um dos primeiros pintores a ser especificamente associado ao Minimalismo tenha sido Frank Stella (com os seus “Black Paintings” de 1958-1960), Wollheim considerou que as raízes desta corrente vêm de mais longe, de obras que possuem um grau mínimo de capacidade artística (“artistry”), como o “Urinol” de Marcel Duchamp e os “White Paintings” de Robert Rauschenberg.

No Outono de 1951, no Black Mountain College (Carolina do Norte), Robert Rauschenberg pintou uma série de cinco quadros completamente brancos, onde apenas se notavam ligeiras marcas dos rolos usados para a pintura. Cada um destes trabalhos era constituído por um número diferente de painéis – um, dois, três, quatro e sete. Em cada quadro, os painéis tinham um mesmo tamanho e eram proporcionalmente equilibrados. Com estas obras, a intenção do artista foi a de criar quadros que parecessem não ter saído da mão humana, como se tivessem chegado ao mundo já completamente formados e absolutamente puros.

 

 

Além disso, Rauschenberg estava particularmente interessado na forma como as superfícies imaculadas dos seus quadros iriam reflectir a luz e as sombras do ambiente onde se encontrassem – como se fossem uma espécie de registo dos acontecimentos que ocorreriam no espaço em seu redor. O artista chegou mesmo a compará-los a relógios, dizendo que se formos suficientemente sensíveis às mudanças subtis nas suas superfícies, seremos capazes de saber que horas são e como é que está o tempo lá fora.

 

 

Esta série de quadros só teve a sua primeira aparição pública no próprio Black Mountain College no Verão de 1952, sendo depois expostos na Stable Gallery de Nova Iorque em Setembro de 1953. Simplesmente ignorados ou mal recebidos pela crítica, a ausência de qualquer marca do seu criador nos “White Paintings” fez com que fossem considerados como totalmente irrelevantes para a cultura humana e a sua história – e nenhum crítico se preocupou na altura em encontrar um enquadramento que permitisse compreender ou interpretar estas obras de arte, havendo até quem as classificasse de intrujice barata.

Outro aspecto radical destes quadros foi o facto de terem sido concebidos como “reutilizáveis” e “reexecutáveis”. De facto, em virtude da conhecida falta de recursos financeiros do artista na época e da sua propensão para reutilizar telas, crê-se que os quadros tenham sido utilizados como suporte para outras obras imediatamente a seguir à sua concepção no Outono de 1951. Mais tarde refeitos, provavelmente até mais do que uma vez e nem sempre pela mão do próprio Rauschenberg (sabe-se que vários dos seus amigos e auxiliares do seu atelier repintaram ou re-fabricaram vários dos quadros em momentos diferentes da história destas obras, sempre segundo as indicações escritas preparadas pelo artista), a pouca importância dada à sua eliminação física é mais uma indicação de que Robert Rauschenberg os considerava mais como obras conceptuais do que propriamente objectos definitivos. Ao serem usados para outros trabalhos, os quadros não deixavam de existir mas antes ficavam como que adormecidos, permanecendo na sua forma conceptual até voltarem a ser refeitos no futuro.

 

 

Com o tempo, os “White Paintings” passaram a ser considerados como obras marcantes e disruptivas no panorama da Arte Moderna. Numa época em que o Expressionismo Abstracto era uma das corrente artísticas dominantes nos Estados Unidos, os “White Paintings” de Rauschenberg praticamente eliminavam a importância do gesto individual associado à sua criação, e podem por isso ser vistos como que antecipando o Minimalismo em uma década.

Quadros negros

Ad Reinhardt foi um dos poucos grandes artistas americanos a ter explorado a abstracção geométrica na pintura; rejeitando o Expressionismo, tentou nos seus quadros atingir um cada vez maior nível de purificação, extirpando-os de tudo o que fosse exterior à arte-pela-arte.

 

 

Entre 1953 e 1967, o ano da sua morte, Reinhardt dedicou-se à criação dos seus “Black Paintings”, que acabaram por ser considerados as suas obras mais importantes. Embora pareçam à primeira vista simples telas quadradas, com metro e meio de lado, uniformemente pintadas de preto, um olhar mais atento revela que a sua composição integra uma cruz grega pintada num tom ligeiramente diferente, que pode ir do cinza ao azul mas sempre em tonalidades muito próximas do negro, num cuidadoso arranjo meticulosamente aplicado em camadas múltiplas, mas que ainda assim permanecem quase invisíveis e só possíveis de destrinçar através de uma observação mais cuidadosa.

Exibidos em 1963 no Museum of Modern Art em Nova Iorque, os “Black Paintings” causaram óbvia celeuma, pelo seu inerente niilismo e falta de referências visuais. Mas para Reinhardt eles significavam uma espécie de protesto, um manifesto da sua convicção de que a arte em si mesma podia afectar a sociedade e provocar mudanças – mesmo que todas as referências ao mundo exterior fossem removidas, como no caso das suas obras. Na sua composição clássica e absolutamente geométrica, repudiando tudo o que lhes fosse estranho, exortavam à contemplação e à quietude: nas suas próprias palavras, “Tudo está em movimento. A arte deveria ser imóvel”. Além disso, a cor negra era para ele o ponto máximo da abstracção (a pureza do negro absorve todas as outras cores e formas), e a evolução da abstracção consistiria em subtracções sucessivas. Assim sendo, os seus quadros negros eram o zero absoluto da arte, os “últimos quadros” que alguém poderia pintar, marcando o ponto final de anos de experimentação. Ele próprio os descreveu como “um ícone livre, não manipulado, não manipulável, sem finalidade, não comerciável, irredutível, não fotografável, não reproduzível, inexplicável”. Esta atracção pelo lado místico da negação nasceu do seu apreço pela religião e arte orientais, como os padrões geométricos dos desenhos islâmicos ou a contenção espacial e poética das paisagens japonesas pintadas e a qualidade ascética e meditativa do Budismo Zen – e a isto não será indiferente a sua amizade com o poeta e monge trapista Thomas Merton, que era um adepto e seguidor das filosofias zen.

 

 

Em fins de 1957, Merton encomendou a Reinhardt um “Black Painting”, cuja finalidade seria ajudá-lo nas suas orações contemplativas, e depois escreveu sobre a experiência, referindo que a cruz imersa na escuridão parecia como que a querer sair dela, e que para a ver era necessário ignorar tudo o resto e focar a atenção na imagem, como quando espreita por uma janela tentando ver algo na noite escura.

Embora estas obras de Reinhardt “desmontem” completamente qualquer ideia de imagem, composição ou gesto, o filósofo Richard Wollheim considerou, no seu já aqui referido artigo “Minimal Art”, que o sistema de negação inerente aos “Black Paintings” (as quase indiscerníveis tiras verticais e horizontais pintadas sobre o fundo negro) era na realidade uma característica identificável do nível ínfimo de “artistry” destas obras, o que os torna objectos materiais mínimos que podem ser considerados como arte – no fundo, sublinhando aquilo que outros mais tarde acabariam por considerar como sendo o carácter conceptual do minimalismo.

 

 

Os “Black Paintings” de Ad Reinhardt são intencionalmente enigmáticos e desafiam os limites da visibilidade. Foram concebidos para resistir à interpretação e para representarem uma nova forma de ver e pensar sobre a arte. Entre muitas outras hipóteses, eles questionam se existirá algo que seja absoluto mesmo no negro, que muitos consideram nem sequer ser uma cor. Por isso mesmo, a obra de Reinhardt permanece como um marco de viragem na evolução do Expressionismo Abstracto dos anos 50 para os movimentos minimalistas e conceptuais das décadas subsequentes.

 

 

 

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Publicado em     Inominável nº 10

Ana CB autora do blog  Viajar. Porque sim.

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