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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 01.02.18

Histórias de Arte | à margem da Bienal - parte 1

“A arte de hoje, em face dos conflitos e tumultos do mundo, testemunha a parte mais preciosa da humanidade, num momento em que o humanismo está precisamente em perigo. Ela é o lugar de excelência da reflexão, da expressão individual e da liberdade, e também das questões fundamentais. Mais do que nunca, o papel, a voz e a responsabilidade do artista são por isso cruciais no contexto dos debates contemporâneos.”

Christine Macel, Curadora da 57ª Exposição Internacional de Arte / Bienal de Veneza

 

 

A Bienal de Veneza é uma das instituições mais antigas, importantes e prestigiadas do mundo artístico. A história da Bienal recua a 1895, data em que foi realizada a primeira Exposição Internacional de Arte, e apesar de desde os anos 30 terem vindo a ser criados pela instituição vários festivais e exposições especificamente dedicados a áreas artísticas diversas (música, cinema, dança, teatro, arquitectura), a Exposição de Arte continua a ser o evento mais frequentado, comentado e artisticamente influente de todos, registando actualmente mais de 500 mil visitantes ao longo dos seus vários meses de duração. A deste ano teve início em 13 de Maio e encerrou portas no domingo passado, 26 de Novembro; apresentou trabalhos de 120 artistas convidados oriundos de 51 países, 103 dos quais participaram nesta Exposição pela primeira vez, além de 23 eventos colaterais e vários outros projectos especiais e paralelos.

Mas há mais, muito mais. Em Veneza, uma cidade onde se respira arte, a influência da Bienal estende-se por todo o lado como os tentáculos de um polvo, pelas ruas e ilhas, pelos jardins, pelos palazzi, pelas igrejas. São incontáveis as obras expostas ao público, isoladamente ou em grupo, de artistas vindos dos quatro cantos do mundo. Um verdadeiro vendaval de arte que revolve a cabeça de qualquer visitante da cidade nos anos em que se realiza a Bienal. É precisamente de alguns desses projectos que aqui vou falar.

 

 

Support / Lorenzo Quinn

A obra que se tornou o ex libris da Bienal deste ano não estava nos recintos típicos da exposição mas sim junto ao hotel Ca’ Segredo: duas mãos, brancas e descomunais, emergindo do Grande Canal para suportarem o edifício. Nas palavras do artista, “Veneza é uma cidade de arte flutuante que tem inspirado culturas desde há séculos, mas para continuar a fazê-lo necessita do suporte da nossa geração e das futuras, porque está ameaçada pelas alterações climáticas e pela decadência provocada pelo tempo”.

 

 

 

Ve(s)tige/Ve(r)tige / Enki Bilal

Bilal é um nome grande daquela a que já se convencionou chamar “nona arte”: a banda desenhada – e eu assumo desde já que é o meu criador favorito de BD. Com incursões esporádicas noutras áreas conexas à sua arte principal (como por exemplo o cinema), no Museu Arqueológico de Veneza esteve exposta uma instalação da sua autoria, através da qual Bilal propunha ao visitante um experiência que misturava transparência, reflexão e vibrações sonoras. Expostos como se se tratassem de achados arqueológicos (fazendo assim a ponte com o próprio espaço expositivo em que estavam inseridas), os objectos/desenhos que ilustram as várias fases do trabalho do artista materializam uma cartografia da vertigem, onde jogam os reflexos do plexiglass do módulo que contém a instalação.

 

 

 

Ritratto continuo mod. 3.375.020.000 / Francesca Montinaro

O número que faz parte do título desta instalação em vídeo é o total aproximado da população feminina em todo o mundo. Todas as mulheres que foram filmadas para este trabalho estiveram sentadas numa mesma cadeira, a qual esteve também em exibição na forma dos seus componentes, completamente desmanchada. A artista pediu a cada mulher que reflectisse sobre a sua identidade e o seu papel, e que resumisse tudo isso num gesto simbólico – sujar as mãos e escrever nelas uma mensagem, que ficará registada para as gerações vindouras. Um testemunho da convicção de que as mulheres são uma força vital e podem ter uma influência positiva no futuro da humanidade e do mundo.

 

 

 

 

Diaspora Pavilion

Esta exposição, apresentada pelo International Curators Forum (ICF) e pela University of the Arts London (UAL) no Palazzo Pisani, foi concebida como um desafio à habitual prevalência de pavilhões nacionais na estrutura da Bienal, e juntou 19 artistas etnicamente diversos mas que trabalham essencialmente no Reino Unido, cujas obras falam eloquentemente das infinitas complexidades da ideia de nacionalidade, ao mesmo tempo que sublinham a importância que a realidade vivida da diáspora continua a ter nos nossos dias para a construção de um sentimento de identidade.

De entre os trabalhos expostos, o de “maior fôlego” é a instalação “British Library” de Yinka Shonibare: uma divisão forradas de estantes com livros, em que cada volume está embrulhado em tecidos batik concebidos pela artista e tem no dorso, em letras douradas, o nome de alguém (uns mais famosos, outros menos) que foi imigrante no Reino Unido e contribuiu para enriquecer a cultura britânica. No centro da divisão existe uma secretária onde estão instalados tablets que os visitantes podem usar para pesquisar os nomes impressos nos livros e conhecer melhor a vida e a carreira dessas pessoas.

No espaço térreo do palazzo esteve exposto o novo trabalho do escultor Hew Locke, “On The Thethys Sea”: uma flotilha de embarcações penduradas por fios, como que dirigindo-se na nossa direcção, cada barco decorado com uma mistura de ícones culturais e talismãs místicos – como se fosse um desfile de festa – numa clara alusão às inúmeras embarcações de refugiados que todos os dias cruzam o Mediterrâneo.

Nas paredes da escadaria para o piso superior, destaque para “Transcended”, desenhos a carvão de Barbara Walker baseados em fotografias de soldados voluntários do Regimento Britânico da Índia Ocidental durante a 1ª Grande Guerra – homens que se voluntariaram para combater na Europa com os Aliados mas se viram relegados para simples postos de apoio e se revoltaram contra essa discriminação.

 

 

 

The dish ran away with the spoon. Everything you can think of is true / Robert Wilson

Deixei propositadamente para o fim deste artigo a exposição que foi para mim a mais deliciosa das que vi – e não, não foi por ser patrocinada por uma marca de café…

A Colecção de Arte da conhecida marca Illy iniciou-se em 1992 com a chávena concebida por Matteo Thun, e desde essa altura já mais de 100 artistas prestigiados criaram desenhos para decorar esta chávena. Este ano a Illy celebrou o 25º aniversário da sua Colecção de Arte durante a Bienal com uma exposição absolutamente arrebatadora, criada pelo artista americano Robert Wilson e dividida em sete espaços que combinavam uma ampla variedade de estilos artísticos. Uma viagem que convocava todos os nossos sentidos, cada espaço com o seu próprio ambiente onírico de grande impacto visual e emocional, povoado por animais e referências ao imaginário das canções e histórias infantis, e terminando inesperadamente numa “Wunderkammer” onde a imagem de uma menina de vestido esvoaçante, segurando numa chávena de café, se fundia num cenário nocturno marítimo e idílico, num ambiente sonoro de riso cristalino, como que convidando à tranquilidade necessária para apreciar um bom café e aludindo à satisfação que esse acto pode trazer.

 

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 11

Ana CB autora do blog  Viajar. Porque sim.

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