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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 11.01.17

Glastonbury

No regresso das férias, e entre muitas coisas que fiz, há uma que merece destaque porque já falei aqui dela: a minha visita a Glastonbury! Uma pequena vila, no coração de Somerset, cujo nome talvez seja familiar aos amantes de festivais, uma vez que o festival de Glastonbury é internacionalmente conhecido como um dos melhores na esfera da música ao ar livre. 

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No caso de Inglaterra, música ao ar livre e também pés em galochas, devido ao nível de pluviosidade existente por terras de Rei Artur. Mas isso não impede que seja um festival concorrido o suficiente para já estarem esgotados online os bilhetes para o próximo ano, isto em menos de uma hora. Embora eu goste do cartaz, adore música (se bem que não tanto no meio da lama), o meu desejo de visitar Glastonbury prende-se por outros motivos. Em primeiro lugar uma amiga minha falou-me da localidade, já lá tinha ido e como entusiasta que é em relação a tudo na vida, fez-me uma descrição bastante apelativa. Comecei a ler algo sobre o local, as suas características e lendas também. 

 

Muito para lá de ser o centro de um festival esta pequena vila respira misticismo há séculos, desde o tempo (5 d.c)  em que um rei, de seu nome Artur, defendeu o seu povo dos saxões, e cujos restos mortais foram supostamente encontrados, com os da sua esposa Guinevere, em 1191 na abadia. Provavelmente foi uma estratégia de monges inteligentes à procura de financiamento real, mas tal descoberta não foi contestada, e Glastonbury foi reconhecida como Avalon, a ilha do encantamento de acordo com as lendas celtas, e assim se tornou parte da lenda de Rei Artur. 

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Dois marcos da vila são a abadia, já em ruínas mas com o misticismo intacto, erguendo-se as suas paredes resilientes com os resquícios de outrora. A cozinha da abadia pode ser visitada também, onde eram confeccionadas as refeições para os nobres e convidados dos monges, e onde nos podemos sentar à mesa que fica no centro de um edifício octogonal, e imaginar-nos num festim medieval, enquanto contemplamos as grandes panelas de ferro, as chaminés e o forno, numa verdadeira viagem no tempo.
Nesta minha visita também explorei a pequena vila, repleta dos típicos pubs e lojinhas alusivas de certa forma a temas místicos, com cheiro a incenso e montras decoradas com bruxas, dragões e duendes, e onde podemos até mesmo entrar e ler a sina nas cartas. As ruas pitorescas apelam ao passeio, e percebemos que elas são muito mais do que o palco da música dos nossos dias. Para o comprovar eis que ouvimos uma jovem, vestida a rigor nas suas vestes compridas, em frente à igreja, a brindar-nos com um cântico celta... delicioso!

Embalada nesta melodia de voz doce lá fui eu iniciar a escalada de 158 metros ao Tor (que significa monte em linguagem celta), outro marco importante da localidade. Foi uma escalada maravilhosa, a respirar um ar frio mas puro, saboreando a paisagem que cada vez mais se estendia aos nossos olhos, cruzando-nos com os animais pelo caminho que pastavam tranquilamente, alheios a todo este encanto pela história que os rodeava.

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Chegados ao topo foi de tirar o fôlego, não pelos passos que demos, mas pelo encanto das paredes seculares e imponentes da igreja de Saint Michael, indiferentes à erosão do vento que nos abraçava por todos os lados e parecia sussurrar pelos fios do meu cabelo despenteado. Talvez sussurrasse as lendas do local, uma vez que este está relacionado com o Holy Grail, supostamente levado por José de Arimateia após a crucificação de Jesus Cristo, rumo à Ilha de Avalon, ou seja, Glastonbury, enterrando a sagrada taça no sopé do Tor. Ou talvez sussurrassem os espíritos que povoam o local, talvez os mesmos que provocam os fenómenos de luz já registados nos anos oitenta e noventa...


A paisagem estendia-se em frente aos nossos olhos, num mar de verdes prados a perder de vista, e podíamos ver Avalon na nossa imaginação. Nesta paisagem existem sete círculos que circundam a colina, em perfeita simetria, não se sabendo se foram feitas por mão humana, tendo sido datados desde a época do neolítico. Muitos acreditam que estes círculos referem- se a algum ritual ou diagrama relacionado com a magia. Certo é que podemos sentir a energia do local, seja ou não verdade que é o ponto de encontro dos mortos, onde irão passar para um outro nível de existência. Quero voltar a subir o Tor, de preferência num dia de brumas, para me imbuir mais do espirito da lenda e renovar as minhas energias!

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Quase pronta a regressar, começo a ouvir vozes em uníssono num cântico celta, e vejo três mulheres, como que em transe, no centro da igreja (que não tem tecto), a cantar. A acústica da igreja, a par com o som do vento contribuiu para um momento mágico, embora houvessem olhares algo sarcásticos, que é como quem diz "olha as maluquinhas!". Mas não vi as coisas assim, considerei uma oferenda do destino, já que tanto demorei a fazer esta visita que desejava há muito tempo, e que já fora algumas vezes planeada. Ora estava a chover no dia pretendido, o que inviabilizava o passeio, ora não havia autocarro porque afinal era feriado na segunda, o que significa, em Inglaterra, que sábado não há circulação, não obstante eu me ter levantado às sete da manhã. isto não é coisa que se faça, não senhor! Até que chegou o dia em que decidi não planear mais o passeio, deixando ao sabor do destino... e ele entrou em acção!


Acabei por ir quando não esperava, e com quem nunca pensei ir. E, numa vila mística, com uma lenda romântica, acabei por fazer o passeio da minha vida, e descobrir que afinal a ficção se inspira mesmo na realidade no sentido em que há coisas que acontecem que por vezes não têm explicação, que certas coisas estão escritas na linha do tempo, e que nem tudo o que planeamos acontece como e quando queremos. E que isso, nem sempre, significa que não vamos ter exatamente aquilo que queremos, talvez apenas que o caminho pode ser mais longo e demorado, com umas lições no percurso. E, por vezes, tal como foi no meu caso, temos que sair da zona de conforto, largar tudo o que conhecemos e partir para o desconhecido, com pouca bagagem na mão... e muita fé no coração!

Outro passeio que fiz foi até Cardiff, capital do país de Gales, a apenas uma hora e meia de Taunton. Passamos uma fronteira e entramos literalmente num outro país, com uma linguagem completamente diferente, herança viking que perdurou até aos nossos dias. Felizmente não pagamos portagens como acontece no nosso país, o que nos dá a possibilidade de explorar mais e conhecer novos lugares. Nesta minha visita fomos até ao castelo, que fica literalmente no centro da cidade, o que é maravilhoso, e conhecemos o museu de história natural. Vi coisas lindíssimas, e vivi mais um dia fantástico desta minha nova vida, que tantas coisas positivas tinha guardadas para mim...mas este relato fica para a próxima edição, onde novamente irei partilhar as minhas experiências por terras de Rei Artur!

See ya soon!

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Publicado em Inominável nº 5
por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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