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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 04.01.16

E quando nem tudo é bonito?

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Já todos sabemos a lengalenga do costume. O Natal é uma época de partilha, paz e felicidade. Não digo que é mentira, só digo que para alguns isso não é verdade.

O Natal é uma época muito bonita e familiar. É quando as famílias se juntam para conviver, comer e trocar prendas. Estejamos tanto a falar de família de sangue como de amigos que se vêem como família. É quando todos são amigos de todos, mesmo que tenham estado o ano inteiro de costas voltadas ou sem se lembrarem de que o outro existe; se o contacto está ali no telemóvel, então tem direito a receber pelo menos uma mensagem toda bonita e XPTO a desejar um Feliz Natal, como se fossem os melhores amigos e se falassem todos os dias. Ai, as mensagens… As mensagens podem dar uma grande dor de cabeça nesta época, é sempre difícil saber o que se vai escrever. Tem de ser um texto bonito, com aquele toque de magia natalícia, que deseje saúde, amor e paz a todo o mundo, tem de ter piada pelo menos numa frase, e por fim tem de ser uma mensagem geral. Tanto tem de dar para a mãe, como para a melhor amiga, como para aquela senhora que já foi nossa amiga em tempos mas que hoje em dia é referida por nós como “a vaca” ou outro animal qualquer de quatro patas do sexo feminino (excluindo as gatas). Como podem ver, há muitos critérios para se escrever um texto de Natal e por essa razão existem vários tipos diferentes de pessoas na hora de escrever mensagens. O primeiro tipo são aquelas pessoas que vão ao Google pesquisar as mensagens de Natal porque não têm criatividade para escrever uma mais original que a do ano anterior (que muito provavelmente também foi descoberta na internet). O segundo são as pessoas que esperam que alguém comece uma mensagem-corrente para reenviarem a mesma para todos os contactos – às tantas cada pessoa está a receber a mesma mensagem pelo menos 20 vezes. E o terceiro tipo são as pessoas que estão em minoria, vá-se lá saber como mas estas criam a sua própria mensagem sem recorrerem à criatividade de outras. Ah, já me esquecia de que existe um quarto tipo… Estes são aqueles casos em que as mensagens não são XPTO, são só a desejar um Feliz Natal e a dizer que têm de combinar qualquer coisa visto não se verem há muito tempo;  escusado será dizer que nunca mais se lembram de combinar nada, a não ser que passem na rua e voltem a falar no assunto, mas nem aí combinam.

Voltando ao tema principal… O Natal é uma época muito bonita, mas será para todas as pessoas? Aquelas pessoas que já não têm família acharão isto tudo assim tão bonito? E aqueles que tiveram de emigrar e estão longe da família, será assim tão bonito ver o Natal à distância através de um ecrã? Tenho quase a certeza de que não. Em relação ao último caso, acredito que a tecnologia facilite imenso e faça com que por momentos pareça que estão todos juntos, mas não é a mesma coisa. Falta o beijo suave, o abraço apertado. Sentem-se as saudades mais ainda do que no resto do ano. A família está ali toda reunida e nós sentados num sofá sozinhos com o tablet ou o smartphone à frente, a tentar participar na festa. Quando a chamada se desliga, a festa acaba muito mais rápido do que se estivéssemos presentes, fechamos os olhos e vêm as memórias dos outros Natais. De quando se era criança, adolescente e mesmo já adulto. Lembramo-nos de quem esteve presente em quase todos os Natais e hoje já não estava lá, ou estava mas de outra maneira. Lembramo-nos das perguntas feitas pelas tias quando éramos pequenos sobre os namorados e a escola. Lembramo-nos das prendas que recebemos e que demos, da mais engraçada à mais inesperada. Lembramo-nos daquele momento que ficou para a história porque o tio bebeu um bocadinho demais e ainda antes da meia-noite já dizia e fazia coisas sem nexo. Lembramo-nos das discussões que houve porque uma tia queria fazer tudo sozinha e a outra não deixava porque era muita coisa. Lembramo-nos de discussões familiares que houve e que quase iam arruinando uma noite de Natal, mas que ao fim de tantos anos percebe-se que se tratava de um pequeno pormenor e nos fazem rir. Rimo-nos sozinhos por um momento. Tantas recordações, tanto amor que sentimos. Depois abrimos os olhos e estamos sozinhos numa casa. Sem ninguém para abraçar, sem ninguém a quem agradecer por nos fazer tão feliz.

Será a época de Natal assim tão boa para estas pessoas que estão longe e desejariam tanto estar perto?

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texto d'A Miúda, autora do blog A Miuda e publicado na Inominável nº 1

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