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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 22.06.17

E afinal, fizemos ou não fizemos?

E afinal, fizemos ou não fizemos?

Fonte - Internet

 

Os últimos dias têm sido marcados por uma tragédia sem precedentes. 64 pessoas (números à data de hoje) perderam a vida num dos maiores incêndios de sempre em Portugal. A esse número podemos acrescentar mais duas centenas de feridos, aldeias evacuadas, mais de 26 mil hectares ardidos, várias frentes ativas, centenas de operacionais e civis envolvidos quer no combate ao incêndio quer no apoio aos desalojados.

Ainda o incêndio real não está extinto e o fogo cruzado das palavras já começou, com várias polémicas e dúvidas que podem nunca ter resposta.

Afinal, fizemos ou não o que podemos? Os bombeiros foram ou não coordenados como deve ser? Os sistemas de comunicação funcionaram ou não? Fogo posto ou um “azar natural”? Fecharam-se as estradas que era necessário ou foram poucas?

Há perguntas que irão ficar sempre sem resposta. Porque é que, quem ia nos carros, escolheu uma estrada em vez de outra? Porque é que aquele cão, preso por uma corda, se salvou quando tudo ardeu à volta dele e outros morreram sem hipótese?

Não sou bombeira. E não tenho a veleidade de pensar ou afirmar que os bombeiros podiam ter feito melhor. O que sei é que os bombeiros saem do sossego dos seus lares, faltam ao trabalho, recebem mal, ficam feridos e às vezes morrem, ali mesmo, no teatro de operações a apagar o fogo que eu apenas vejo na televisão, em casa, sentada debaixo do meu ar condicionado, sem correr qualquer risco. Como é que eu os poderia criticar? Aliás, só tenho é de lhes agradecer pelo sacrifício que fazem, pago às vezes com a própria vida.

A Judiciária e o IPMA dizem que a causa foram as trovoadas secas e eu acredito neles. Primeiro porque nenhuma das entidades ganharia alguma coisa em estar a mentir. Depois porque eu não sou especialista e porque ainda no sábado à noite vi algures no facebook uma imagem de um mapa das descargas elétricas na zona centro. Bom, e se isso não bastasse, ainda por estes dias foi partilhado até à exaustão o vídeo de um relâmpago em Leiria que provocou um pequeno incêndio.

E, provavelmente, seria disso mesmo que estaríamos a falar, de um pequeno incêndio, não fossem os ventos ciclónicos que se levantaram na zona ao fim do dia e que tornaram o fogo completamente incontrolável e surpreenderam, pela negativa, quem estava no terreno. E quem estava nas suas casas ou mesmo nos carros. E acham mesmo que um guarda-florestal teria feito a diferença? Porque iria parar o vento? Sim, provavelmente teria alertado mais cedo as autoridades da existência de um pequeno incêndio. Mas na altura em que ele – o fogo – se descontrolou por culpa do vento, pouco ou nada teria sido feito.

Ter-se- á feito tudo o possível no momento do incêndio? Não sei. Possivelmente fez-se o que se pôde e que, dada a imprevisibilidade dos ventos, não foi o suficiente. Ninguém no seu perfeito juízo pode achar que – conscientemente – não foi feito o melhor que se podia. O resultado pode não ter sido perfeito (e daí as mortes) mas, se calhar, se fossem tomadas outras decisões, as mortes podiam ter sido ainda mais.

E antes do incêndio? Bem, aqui sim, há imensas falhas humanas. A falta de limpeza dos terrenos dos particulares (e temos de perceber, de uma vez por todas, que a grande maioria da nossa floresta – e se calhar estamos a falar de uma percentagem superior a 70% - pertence a particulares e não ao Estado) é uma das causas mais vulgares para a propagação dos incêndios. Limpar os terrenos não dá lucro e a grande maioria dos proprietários não o faz, para poupar. A mira do lucro chega também às plantações. O eucalipto é a espécie mais plantada por ser de fácil manutenção e venda garantida. E é também a que arde mais depressa, se bem que desta última parte ninguém quer saber.

Depois do incêndio é hora de refletir. Não de acusar. De aprender e de não voltar a cometer os mesmos erros. Não queremos perder mais floresta, não queremos mais mortos e não queremos mais feridos. Queremos uma floresta ordenada e limpa sem nos esquecermos de que, no fim, é a mãe natureza que tem a última palavra. E uma mãe tem de ser respeitada (coisa que, realmente, nos últimos anos não temos feito lá muito bem).

 

 

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por Magda L Pais, autora do blog Stoneartportugal

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