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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 24.07.17

Criador de Impossíveis | três cúmplices

Criador de Impossíveis | três cúmplices

 

Enquanto a música continuava a fazer-se ouvir ao fundo elas arrastavam o desconhecido, ainda inconsciente, pela neve. Deixavam um trilho que Sora apagaria mais tarde.

Sora abriu a porta de casa de Escarlate com a chave que ela lhe confiara há tanto tempo e, já cansadas, deixaram o corpo cair cuidadosamente no chão da sala.

Escarlate estava sentada no cadeirão de baloiço, com um livro em mãos, mas levantou-se prontamente quando as viu arrastando um corpo pela casa adentro.

- Vocês não deviam estar a guardar a entrada? Quem é este?

Sora sentou-se numa cadeira para tomar fôlego, mas logo se levantou. Era preciso voltar à entrada antes que alguém desse pela falta delas. Numa noite de festa como esta era pouco provável que alguém o fizesse, mas não podiam arriscar de todo. Ignis poria Escarlate a par dos acontecimentos, e se alguém aparecesse na entrada ela só tinha de dizer que Ignis se sentira indisposta. Ninguém colocaria isso em questão. Além do mais, elas não tinham a certeza se o homem, quem quer que ele fosse, tinha chegado a Aperos sozinho.

- Ignis, ficas aqui com a Escarlate até de manhã. Não deixem ninguém vê-lo. Assim que o meu turno terminar eu regresso. – virou-se depois para Escarlate – Ela conta-te o que aconteceu. Eu tenho de ir.

Deu-lhe um beijo rápido nos lábios e Escarlate deixou-a ir, sobrolho franzido de preocupação. Sora estava com medo, havia um desconhecido inerte no chão da sua sala e Ignis, dobrada sobre si mesma, parecia estar com poucas condições para relatar fosse o que fosse, tendo apenas acenado a Sora antes de esta partir.

Ignis acabou por se ajoelhar no chão, cedendo ao cansaço, e encarou-a.

- Ele apareceu na entrada. Vindo lá de baixo.

Escarlate cruzou os braços, fitando-a.

- Vocês não o mataram?

Ignis abanou a cabeça e suspirou, colocando as mãos na testa. Sentia uma dor de cabeça a formar-se. Retirou as luvas e chamas irromperam das suas mãos. Tinha frio, mas não sabia se estava a tremer por isso ou se era da adrenalina que sentia. Provavelmente ambas as coisas.

- Eu acertei-lhe no peito com o cabo da minha faca e ele desmaiou. – olhou para Escarlate – Não podíamos matá-lo. Não conseguia, Escarlate.

Escarlate acenou.

- Não podemos deixá-lo aí. Anda, vamos levá-lo para o quarto do fundo.

Ignis queria contestar; estava cansada, não sabia se tinha forças para o carregar mais, mas a culpa de tudo tinha sido sua. Quando decidira atingi-lo com o cabo da faca, naquela fracção de segundo que levara para reagir ao aparecimento do estranho na entrada, estava certa da decisão a tomar. Tinha pensado muito sobre isso antes, sempre que imaginava alguém chegando a Aperos vindo lá de baixo. Agora as certezas iam-se dissipando com a noção daquilo que as suas acções significavam para todos. E se o descobrissem ali, vivo? Estaria a colocar em perigo a vida de Escarlate e de Sora por causa da sua falta de coragem. Tinha sido treinada para isto, tinha jurado proteger Aperos de intrusos, mesmo que isso significasse matar alguém.

Escarlate olhava-a.

Levantou-se e, tal como fizera com Sora, carregaram-no para o quarto de hóspedes. Ignis nem sabia por que Escarlate tinha um quarto de hóspedes, ela nunca recebia ninguém a não ser Sora, e Sora ficava no mesmo quarto que ela. Afastou o pensamento; as molas do colchão chiaram quando o pousaram sobre a cama.

Chamas irromperam agora das mãos abertas de Escarlate em direcção à lareira. O quarto começou a aquecer de imediato. Em Aperos, por razões óbvias, não faltavam lareiras nem fogo.

Ignis deixou-se cair ali ao lado; retirou o casaco, enquanto Escarlate foi buscar a caixa de primeiros socorros.

- Ele precisa de unguento. – colocou-lhe a mão sobre a testa - Está desidratado e provavelmente tem hipotermia, para cá ter chegado sozinho já deve andar há dias perdido. De certeza que foi por isso que desmaiou quando lhe atiraste com a faca.

Ignis deveria ter-lhe acertado com a parte afiada. Dali a nada ele acordaria e se alguém de Aperos o descobrisse estavam todos em maus lençóis. Fez o que pôde para se livrar destes pensamentos; agora estava envolvida na situação e a única coisa decente a fazer era impedir que aquele estranho ficasse incapacitado de sair dali por seu pé. Retirou-lhe as roupas, os sapatos e as luvas, os trapos que lhe cobriam o rosto quase por inteiro. Era jovem, mais jovem do que ela, mais velho do que Ignis. Colocou o unguento nas suas próprias mãos e espalhou-o pelo peito e pescoço do rapaz. Virou-o cuidadosamente e fez o mesmo pelo centro das costas, depois nas virilhas. Aquilo devia reestabelecer-lhe a temperatura. Se havia algo de que o povo de Aperos se podia orgulhar era de ter encontrado remédios para o frio de morte que ali sempre se fazia sentir. No final, cobriu-o com o cobertor mais quente que tinha.

Ignis continuava sentada no chão, braços a agarrar os joelhos. Escarlate ajoelhou-se ao seu lado, colocou-lhe uma mão no ombro.

- Não te preocupes, nós resolvemos isto.

Ignis olhou-a; queria pedir desculpa. Tinha sido cobarde, tinha colocado em risco as pessoas de quem mais gostava.

Da cama veio um gemido. O homem mexia os dedos, um movimento ligeiro. Depois, abriu os olhos lentamente e fitou o tecto branco.

 

 

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Publicado em Inominável nº 8
por Carina Pereira autora do blog Contador d'Estórias

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