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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 31.10.17

Criador de Impossíveis | Revelação

 

A vida em Aperos prosseguia, sem que houvesse suspeitas de que em casa de Escarlate um estranho passava os dias.

Ignis ouvira o tutor toda a manhã como se ele fosse uma estação de rádio mal sintonizada; felizmente, ninguém notara o seu ar distraído, e durante a tarde as aulas eram práticas.

Aprendiam todo o tipo de trabalhos manuais, aprendiam a conhecer máquinas, mesmo aquelas que não se viam a circular em Aperos. Ali não havia trabalhos fixos, toda a gente ajudava no que fosse preciso e de acordo com o que sabiam fazer melhor. Então, todos aprendiam um pouco de tudo.

Os dois certificados de nascimento tinham sido guardados separadamente: um continuava na antiga caixa de recordações; o outro fora espalmado dentro de um livro, na estante do seu quarto. Não tinha ainda tido coragem de perguntar a Sora o que aquilo significava. Por um lado, tinha medo da resposta. Por outro, analisara os dois papéis lado a lado vezes sem conta e não conseguia atribuir-lhes uma lógica.

Talvez Miguel a pudesse ajudar. Afinal, ele era de lá de baixo e o hospital onde ela nascera tinha de ser de lá de baixo. Não era da aldeia, isso era uma certeza.

O problema era conseguir estar sozinha com Miguel.

Felizmente, dois dias mais tarde Sora e Escarlate iriam partilhar uma das guardas diurnas de Aperos. Sora levava a chave de casa de Escarlate sempre com ela, mas Miguel estava lá. Ignis só tinha de encontrar forma de ele a deixar entrar depois de Sora e Escarlate saírem de casa. Dali a nada Miguel ia embora e depois ela não teria mais ninguém a quem perguntar.

Passar-lhe o recado, escrito num papel, fora arriscado. E se ele contasse a Escarlate? O que é que ela e a sua guardiã iriam pensar? Mas, para o bem ou para o mal, Miguel parecera alinhar no secretismo. Quando Ignis bateu três vezes à porta, esta abriu-se de par em par, o suficiente para a deixar entrar.

- Contaste a alguma delas?

Foi a primeira coisa que lhe perguntou. Pousou o casaco sobre o sofá e sentou-se. Tinha as pernas a tremer.

- Não. – disse ele – Disseste-me para não dizer nada. Fiquei à espera.

Ela acenou com a cabeça, tirou os dois papéis do bolso.

- Reconheces este sítio?

Ele olhou o nome que ela indicava, sentando-se ao seu lado.

- Sim. Não é exactamente perto de onde vivo, mas já visitei. – Olhou-a.

Ignis acenou, dobrou o papel e voltou a guardá-lo no bolso.

- O que é que se passa? O que é que o tem o papel?

- É o meu certificado de nascimento.

Ele reflectiu por uns minutos.

- Vocês não têm maternidade na aldeia? Não sabia que era normal nascerem onde nós – apontou para si mesmo – vivemos. Escarlate disse-me que vocês não se misturam, que raramente vão lá abaixo.

- Eu nunca fui. Mas sei que a Escarlate já lá viveu. – mostrou-lhe o outro papel. – Eu encontrei isto dentro de um livro, aqui em casa. Os dados são todos iguais, excepto o nome e os progenitores.

Miguel pegou no segundo papel e, tal como Ignis tinha feito dias antes, espalmou-os lado a lado.

- Hum, isto não faz sentido.

Não era o tipo de ajuda com que ela contara mas, a ser honesta, era o que deveria ter esperado. Miguel não ia saber, do nada, o que é que aquilo significava. Ela esperava que ele lhe dissesse que, às vezes, os certificados têm nomes diferentes, de outras pessoas associadas ao nascimento, que progenitores é mais do que um nome para “pais”. Mas ele não lhe dissera nada disso. Apenas olhara para os papéis, com tantas dúvidas quanto Ignis.

Ignis levantou-se, guardando os dois papéis.

- Eu tenho de ir embora. – encarou-o – Por favor não lhes contes nada. Quero ser eu a falar com elas primeiro.

Miguel aquiesceu e viu-a fechar a porta atrás de si.

Ignis caminhou sobre a neve, lentamente. O turno de Sora terminaria dali a umas horas. O que é que lhe podia acontecer ao encará-la? Tinha encontrado o segundo papel por acaso e Sora nunca lhe tinha escondido o primeiro certificado.

Quando Sora chegou a casa, Ignis estava sentada à mesa da cozinha, os dois papéis abertos sobre o tampo. Sora olhou-a.

- Tudo bem? – perguntou, tirando o casaco e as luvas.

Ignis não respondeu. Mostrou-lhe os papéis.

- Eu encontrei este em casa da Escarlate, caiu de um livro.

Sora aproximou-se para ver melhor e depois olhou para Ignis, de mãos a tremer.

Já lhe devia ter contado. Já lhe devia ter dito a verdade, em vez de esperar que fosse a melhor altura para lhe contar, porque em quase dezoito anos não tinha havido nunca uma melhor altura. Sentou-se, virada de frente para Ignis.

- Eu não sou tua mãe. – disse-lhe, bruta e directa, porque não sabia como lhe dizer isto de outra forma.

Ignis fitou-a; encostou-se contra a cadeira, como se quisesse afastar-se dali. Não tinha a certeza de querer fazer mais perguntas. De querer saber, ponto final. Quando é que a vida que conhecemos se transforma de repente numa mentira?

 

 

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Publicado em  Inominável nº 10

por  Carina Pereira  autora do blog  Contador d'Estórias

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