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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 17.08.17

Criador de Impossíveis | o estranho e outras descobertas

Quatro canecas de chá estavam pousadas sobre a mesa da sala, fumegando. Miguel pegou numa delas, deu um gole e voltou a pousá-la. Três pares de olhos fitavam-no, expectantes.

– Estão a dizer-me que eu encontrei uma aldeia praticamente no topo do mundo, à parte de toda a civilização, cujos habitantes têm a capacidade de criar fogo com as próprias mãos e que, a cumprirem aquilo que era suposto, vocês deveriam ter-me matado?

Escarlate, Sora e Ignis acenaram com a cabeça, em uníssono; pouco a pouco o estranho que tinha aparecido à entrada de Aperos ganhara consciência e, pouco a pouco, tinham-lhe explicado o porquê de ele estar ali e o porquê de ainda não poder sair. De ninguém poder saber da sua presença ali.

Miguel tinha andado perdido pela montanha depois de meses numa expedição que correra mal. Os seus colegas tinham acabado por morrer de frio, por falta de comida e porque as bússolas e todas as formas que eles tinham de se guiarem pareciam ter deixado de funcionar a partir de uma certa altitude. De forma milagrosa, ele tinha sido poupado e sem lesões maiores. Sorte, era a única explicação que ele encontrava para isto.

– Os campos magnéticos foram alterados por nós, – explicara-lhe Escarlate – é uma forma de impedir que exploradores como vocês continuem a subir. Quando as pessoas não conseguem encontrar o Norte, normalmente voltam para trás e começam a descer. Temos uma torre criada especificamente para repelir bússolas e confundir radares e há demasiadas árvores para se conseguir ver o céu.

– Vocês não vão lá para baixo? Nunca saem daqui?

– Saímos, claro. – desta vez era Sora quem respondia e havia algo no tom de voz dela que fazia crer que falava por experiência – Mas também temos instrumentos que conseguem contornar a torre que controla os campos magnéticos.

Miguel reflectiu naquilo por momentos. Depois de o porem a par da história mais surreal que ele ouvira, e depois de ele ter aceitado o facto de que a história delas só podia ser verdade – há poucas formas de fingir o fogo que ele vira a sair das mãos delas – elas tinham prometido levá-lo de volta para baixo, tinham prometido protegê-lo se ele confiasse nelas e se prometesse, por sua vez, nunca falar sobre Aperos e sobre as suas gentes. Se prometesse nunca voltar. Só queriam viver em paz, deixá-lo ir em paz, também. Ele concordara. Era uma história tão rebuscada, de qualquer forma, e não tinha intenções de criar problemas a ninguém. Já perdera mais do que a conta: falhara nos seus objectivos pessoais e profissionais; o frio, o cansaço e uma série de outros azares tinham-lhe levado os seus melhores amigos e companheiros de aventura e nem tivera sequer tempo de chorar por eles. Queria voltar a casa e ficar por lá durante muito, muito tempo. Sabia que voltaria a seguir em direcção ao topo de outras montanhas um dia – estava-lhe no sangue – mas precisava de fazer o luto, precisava de perder o medo e a culpa que o perseguiam desde que abandonara os corpos dos amigos a decomporem-se sobre a neve branca, porque a outra opção teria sido tornar-se mais um corpo, como eles. Perdera a noção de quanto tempo andara à deriva pela montanha, tentara tomar notas escritas durante semanas, mas à medida que subia e os dias passavam, os dedos deixavam de conseguir escrever e perdera a lucidez para tomar notas mentais.

Elas tinham combinado levá-lo de volta dali a uma semana. Escarlate pediria permissão à aldeia para visitar a terra lá em baixo, e nesse dia Sora e Ignis estariam novamente de guarda. Sairiam os dois de noite, com provisões e acessórios para várias semanas, assim que elas tomassem a guarda da entrada de Aperos. Se fossem cuidadosos, o plano tinha tudo para correr sem percalços.

Miguel terminou o chá e foi deitar-se; a altitude ainda continuava a deixá-lo tonto e com dificuldade em respirar. Quanto mais depressa pudessem tirá-lo dali, melhor, mas sabia que não podiam correr riscos.

Ignis sentou-se no chão da sala a ler um livro com mapas e pontos cardeais, traçando com o dedo o percurso que Escarlate e Miguel teriam de seguir. O mapa estava gasto, a linha vermelha que apontava o percurso parecia ter sido traçada há muito tempo, parecia até falhar em partes, como se um dedo semelhante ao de Ignis tivesse seguido lentamente a mesma linha vezes sem conta.

– Ignis, vamos para casa?

Sora chamou, a porta da rua entreaberta, e depois virou-se de novo para sussurrar um agradecimento a Escarlate, que lhe colocava um saco com pão fresco nas mãos.

Ignis fechou o livro, e quando se preparava para o colocar na estante, uma folha de papel caiu de entre as páginas. Sem saber bem porquê, não a abriu de imediato; em vez disso guardou-a no bolso, colocou o livro de volta na estante e, quando Sora chamou de novo, seguiu-a para casa.

Sora deitara-se logo, extremamente cansada. Os últimos acontecimentos pareciam tê-la afectado sobejamente.

Uns minutos mais tarde, Ignis espreitou pela porta entreaberta, certificando-se de que a guardiã dormia profundamente. Um leve ressonar deu-lhe a certeza de que precisava.

Fechou a porta do quarto, ligando a luz do candeeiro de cabeceira, e retirou do bolso a folha que caíra do livro de Escarlate. Abriu-a cuidadosamente - um papel amarelecido e fino, com palavras escritas à máquina sobre linhas negras. Estendeu-o sobre a cama. Era um certificado de nascimento. Perscrutou os dados com minúcia: a data de nascimento era a mesma que a sua. Levantou-se e trouxe o seu próprio certificado de nascimento para cima da cama, metendo os dois papéis lado a lado. Todos os dados, excepto o seu nome e o nome dos progenitores, eram idênticos. Até o local de nascimento, o que a intrigou. Naquele que encontrara em casa de Escarlate havia um pai e uma mãe, nomes completos e comuns da terra lá de baixo. No seu havia apenas um nome como progenitor, o da sua guardiã, e um carimbo de Aperos, embora o local de nascimento fosse um hospital e não um dos lugares onde as mulheres davam à luz na aldeia.

Ignis nunca tinha reparado nisto. Sabia que o seu certificado de nascimento estava guardado juntamente com várias fotografias suas de criança e outros documentos importantes, mas nunca tinha perdido muito tempo com ele. Gostava de ouvir Sora falar sobre o quão pequena era, ou sobre as peripécias que lhe tinham acontecido em criança, mas sempre assumira que nascera ali, na terra do gelo e do fogo.

Abanou a cabeça, não estava a pensar direito. O outro certificado não era seu, o nome era completamente diferente. A sua mãe, a sua guardiã - denominação usada em Aperos - era Sora e não os dois nomes estranhos que se estendiam sobre a outra folha. Tudo o resto era igual, no entanto, e ela sentiu uma pontada de suspeita, feita da mesma intuição que a levara a guardar sorrateiramente o papel no bolso quando este lhe caíra aos pés, em vez de o entregar a Escarlate ou de colocá-lo de volta ao lugar de onde tombara.

Olhou os dois papéis durante muito tempo, até os olhos lhe pesarem, dando voltas à cabeça para entender a semelhança: gémeos, foi a conclusão a que chegou, sentindo o coração a bater mais rápido. Antes de os seus olhos se fecharem involuntariamente, no entanto, um momento de lucidez tomou conta dela: gémeos não têm pais diferentes.

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 9
por Carina Pereira autora do blog Contador d'Estórias

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