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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 05.01.18

Criador de Impossíveis | 17 anos antes

Sora recusava agora encará-la, apesar das tentativas de Ignis, passado o choque inicial. Virada de costas para ela, de pé, fitava a parede da sala de estar. Falava, porque precisava de contar tudo a Ignis antes que perdesse a coragem que lhe fora arrancada pelas circunstâncias.

Ignis ouvia. Queria ficar zangada, queria acusá-la de lhe ter mentido, mas não conseguia. Sora era a sua guardiã, tinha-a criado e pouco importava se o seu sangue corria nas suas veias ou não. Fora com ela que aprendera o que é o amor de mãe, fora com ela que aprendera o conceito de família. Havia tanto ainda para assimilar, mas de uma coisa tinha a certeza: independentemente do que acontecesse, Sora seria sempre a sua mãe.

 

Já não era a primeira vez que Escarlate visitava a terra lá em baixo, mas era a primeira vez que não o fazia sozinha. Da última vez tinha demorado tanto a regressar que a tinham vindo buscar. Não queria deixar Aperos para sempre, mas queria conhecer o povo dali o melhor possível. Queria aprender a curar com as ervas medicinais que não cresciam naturalmente em Aperos. Queria levar algumas para as estufas deles e vê-las crescer. Queria fazer mais do que aquilo que tinha tempo para fazer.

Sora viera por curiosidade e para completar estudos, mas agora mostrava-se ainda mais reticente em relação ao povo. Dizia que eram estranhos, sádicos até, enquanto Escarlate insistia que eram apenas diferentes. Gostaria de lhe ter provado o quão errada estava, mas a situação que tinham presenciado uns dias antes inquietara ambas. Agora, Sora tinha desaparecido e Escarlate não sabia dela. Não havia nenhuma nota, pegadas, nada que pudesse guiá-la na direcção da outra, por isso tinha de esperar ali até ela regressar ou perder-se-iam uma da outra.

Sora chegou pouco depois da meia-noite. Guiara-se na escuridão com a ajuda de uma pequena chama que lhe brotava da mão; no outro braço, segurava o que parecia um emaranhado de trapos. Escarlate levantou-se e, mesmo sem ver na totalidade, soube logo.

- O que é que foste fazer?

Sora abanou a cabeça, não queria responder. Entrou na tenda, apagando o fogo da mão, e pousou o que carregava sobre o seu saco-cama. Deitou a mochila para o chão com cuidado. A tenda estava quente. Lentamente, desenrolou os trapos, e lá dentro um bebé dormia profundamente.

- Não posso deixá-la aqui assim. – levantou-se, encarando Escarlate – Não podemos deixá-la aqui assim. Tu viste as condições em que a mantinham. Se não fizermos nada, matam-na.

Escarlate agarrou-lhe o braço, um costume quando queria acalmá-la.

- Não podemos fazer isto. Temos de ir aos serviços sociais…

- Que serviços sociais, Escarlate? Tu já viste como é que eles funcionam aqui? Ela corre perigo. Eu não a deixo voltar para a família dela. Se queres ajudar-me, tudo bem, senão eu levo-a sozinha.

- Leva-la? Mas leva-la para onde?

Sora fitou-a, mas não respondeu. Não era preciso.

- Tu vais raptá-la?

- Escarlate, os pais dela deixam-na sozinha horas seguidas. Não a alimentam, olha – descobriu o torso do bebé com cuidado, tentando não o acordar – tem nódoas negras. Eu sei que não está certo levá-la assim, sem dizer nada, mas eles são perigosos e não querem cuidar de um bebé. Vão acabar por matá-la. A forma como os serviços sociais funcionam aqui… eu vim para cá para estudar exactamente isso, e está ali a conclusão a que chegamos. – apontou para uma capa, onde estavam guardados os vários relatórios que Sora tinha feito para apresentar mais tarde em Aperos – Ela vai comigo.

- E o que é que vais dizer lá em cima? Que raptaste um bebé?

- Não. – decidiu Sora, e Escarlate viu nela uma determinação que não sabia existir ali – Vou dizer que é minha.

- Mas… nós não ficámos sequer cá tempo suficiente para essa mentira…

- Vamos ficar. Eu vou, pelo menos. E se tu decidires ir contra isto, eu desapareço. Nunca mais regresso a Aperos.

Escarlate engoliu em seco. Entendia o lado de Sora, entendia o porquê da decisão dela, mas não concordava com o que estavam prestes a fazer. Sim, porque em todo o tempo em que tentara demover Sora da ideia, Escarlate sabia que no final faria exactamente tudo o que Sora lhe pedisse.

 

Criador de Impossíveis | 17 anos antes

 

 

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Publicado em Inominável nº 11

por  Carina Pereira  autora do blog  Contador d'Estórias

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