Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 25.12.17

Colunista Acidental | Quando o Pai Natal se apaixona, deverá haver quadra natalícia?

Colunista Acidental | Quando o Pai Natal se apaixona, deverá haver quadra natalícia?

 

Era uma vez…

Assim começavam as histórias que sempre ouvi e fazem parte do meu baú de recordações… Ora eram de reis, ora de piratas… ou então de meninos bem e mal comportados, com lição de moral no final do enredo… Por norma eram estes os protagonistas das histórias do antigamente.

Os tempos mudam e como tal também as narrativas evoluem e acompanham a fita do tempo. Os contextos são outros: a monarquia está moribunda, só há bons rapazes e piratas só existem nas Caraíbas, versão Johnny Depp.

Enfim, novos tempos em que as crónicas se adaptam às realidades actuais…

 

As histórias querem-se alegres, mesmo que de início reine a tristeza e esta, mais que uma história, é o relato de um dilema que vivo e a prova sentida de que não estamos a salvo de nada, nem das consequências de uma simples resposta a um anúncio para um curto emprego. A globalização tem destas coisas e uma ocupação para um país estrangeiro com direito a alojamento, refeições e ajudas de custo, não é de deitar prò borralho. Pode custar a habituação, mas um bom profissional não altera essa condição por uma simples mudança geográfica.

E cá estou eu, recém-chegado de Pikku-Poikela, pequeno lugar perto de Haaravaara bem no norte do mundo, na Lapónia finlandesa, em condições de preparar o trabalho para a última semana do ano. Alojado na Grande Casa de Cevide, na aldeia mais setentrional deste rectângulo de praia, é local bem discreto, tal como se pretende para a azáfama que me espera… ou esperava, direi. Tem apenas seis habitantes… e a Hanna.

A Hanna… a Hanna é o meu problema! Um grave problema que poderá pôr em causa o Natal em Portugal. Caso inédito seria…

Ser-se Pai Natal, sem barriga nem barbas, a título precário, deslocalizado para o país do sol, longe das neves e dos gelos, longe dos supermercados das renas e dos trenós, acreditem que não é fácil; agora ser Pai Natal e ter conhecido a Hanna é muito mais complicado... Incompatível, direi eu, pois o rigoroso e frio manual de instruções para Pais Natal é bem claro: proibido todo e qualquer tipo de paixões! É falta grave, e para além de perdermos a magia que nos orienta na noite-luz, o alarme soa na sede e desligam o Natal para o país onde estamos. Uma tragédia nunca sentida! Até entendo o regulamento - não pode haver distracções, atrasos ou presentes trocados. Concentração absoluta na função é brio.

Dizem que nos tempos idos era mais fácil, pois acreditava-se no Pai Natal e esperava-se pacientemente por qualquer presente, fosse ele de que espécie fosse. Os miúdos de agora já não perdoam, não esperam e são bastante exigentes. Mas o que mais me dói é ser Pai Natal por uma noite, uma vez por ano, e tão pouquíssimos acreditarem na causa. Cem horas de formação intensiva para ter um “ho-ho-ho” capaz, e ninguém nos leva a sério. Que mágoa!

A Hanna, filha da proprietária do meu alojamento, aos meus olhos é uma mulher doce, delicada, portadora de um olhar sorridente e penetrante, apaixonada, inteligente e misteriosa; tirou-me o chão definitivamente quando, após questionar se na Lapónia os elefantes voavam, e lhe ter respondido que a minha especialidade eram as renas e que achava que tais animais eram abundantes mas noutras latitudes, respondeu que voavam; aliás, todos voavam mesmo sem asas, pois o que faz voar é a mente, o espirito… a nossa cabeça. A falta de asas é apenas uma desculpa para quem não sabe ou não quer deixar voar; ninguém é prisioneiro, desde que sonhe - rematou.

 

Colunista Acidental | Quando o Pai Natal se apaixona, deverá haver quadra natalícia?

 

Estas palavras soletradas com o brilho dos olhos não me deixaram qualquer dúvida de que estava na presença do outro pedaço que tanto procurava. Eu não escondia esta condição e sentia que Hanna a saboreava - já passavam mais de oito dias de longas conversas, intensos olhares e sorrisos cúmplices - pois fazia questão de me convidar todos os dias para um longo e pachorrento passeio pelas margens do Trancoso e do Minho, realçando cada bucólico recanto e dando a conhecer toda a beleza do local, em harmonia com as transparentes e abundantes águas que cheias de vida alegremente corriam para a foz.

 

Colunista Acidental | Quando o Pai Natal se apaixona, deverá haver quadra natalícia?

 

Ontem, sobre a ponte de tábuas que os miúdos levantaram, tropeçou e caiu desamparada nos meus braços, que nem presente de Natal inesperado - pois, como sabem, ninguém oferece prendas ao Pai Natal. O beijo trocado num desejo mútuo e incontido foi como um grande laço… um laçarote indescritível, tal a sua beleza e a força que me prendeu a este alguém. Nesse momento, sem sonhos nem irrealismos, descobrir que esse alguém não pode ser de mais ninguém, tal como eu a mais outro alguém pertencia.

E agora?

Que faço eu, Pai Natal, que não posso apaixonar-me?

Irei partir, fugir… sei lá… sem olhar para trás, abandonando quem me faz sorrir? Será justo?

Liberto-me do peso da minha profissão e abarco o amor a dois, privando dez milhões da festa natalícia? Será justo?

Sinto-me mal, sem forças para tamanha empreitada!

Estarei doente?

Será que estou a morrer??? Será possível morrer… de amor?

Claro que não se morre de amor!!! Nunca se morreu de amor!!! Aliás, não conheço ninguém que tenha tido tal sorte, nem ninguém que conheça alguém.

No século da racionalidade, da tecnologia e do fundamentalismo, não se morre de amor. Morre-se de tudo, morre-se de nada, da desgraça, do cataclismo, da fome e da sede, do coração e do tabaco, da preguiça e do trabalho, mas de amor, morrer de amor é coisa das fábulas e dos contos que os meus avós desfiavam vezes sem conta, para que o ritual da sesta se cumprisse mesmo na metade do ano em que a luz não se despe.

É caso para dizer, coitado do coração… Bem precisa das campanhas de promoção e do Maio, para tentar reparar-se e valorizar-se.

Não imagino o coração a lutar contra a razão, pois normalmente o coração perde. Perde e perderá sempre. O coração não pensa, age. A razão equaciona e estimula. Actua com certezas refinadas, e por isso ganha, e ganhará sempre.

Bom é morrer de amor vezes sem conta e continuar bem vivo para usufruir e viver a história.

Que bonito, dirão todos. Sim… que bonito…

Não fora eu o Pai Natal e também entraria no coro…

Com a quadra a bater à porta, sem qualquer vontade de trabalhar, atafulhado num imenso rol de endereços que terei de visitar, de frente para a enorme montanha de prendas a embrulhar, apenas tenho pensamentos para a Hanna, mas o peso do compromisso assumido com a entidade patronal desassossega-me e tira-me lucidez.

Que faço eu, Pai Natal, que me deixei apaixonar?

E agora? Que faço?

A Hanna ou o Natal???

Um amor para duas vidas ou um Natal para um país?

O que vale mais?

Ajudem-me a decidir…

Afinal, só terão de optar pela harmonia de duas pessoas, ou por uma quadra festiva!

 

Grato,

Um Pai Natal desesperado

Colunista Acidental | Quando o Pai Natal se apaixona, deverá haver quadra natalícia?

 

 

__________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 11

por Eliseu Pimenta

Siga-nos no Bloglovin