Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 30.05.17

Colunista Acidental | Luís Osório - A Liberdade

Pedem-me Abril.

Não sei dele, para onde fugiu. Reconheço os cravos, existem dentro do que sou, numa memória dentro da memória.

Contradições e paradoxos, o costume. 

Como o da liberdade individual se definir por pequenas coisas. Em criança lembro-me que me ardia o desejo de decidir por mim, sonhava com outros dias, dias em que pudesse comer o que me apetecesse em restaurantes onde carnes e peixes estariam à minha escolha. Hoje que o faço adoraria regressar à velha casa onde me sentava e comia o que me punham no prato. A liberdade em mim, cada vez mais, é uma via rápida de pensamento, não uma acção concreta.

É isso Abril?

É também isso. Mesmo o que me inquieta?

A inquietude de as saudades não serem apenas um tributo a quem se ama? Sim, é possível tê-las também por quem se odeia; são de uma outra espécie, indecifrável e dolorosa.

Salazar.

Já não são apenas os saudosistas do Império ou cegos de fascismos que as têm… Hoje, mais do que nunca, são os esfomeados de liberdade e os que arriscaram a sua vida pela Democracia a tê-las. Saudade do que corporizava todos os males, do que mandava torturar e assumia a miséria como virtude. Porque se ele existisse, se o pudéssemos olhar, saberíamos imediatamente onde estar e a que horas.

Mas não sabemos. E precisamos de saber onde nos poderíamos reunir para lá de todos os encontros que marcamos connosco próprios.

Tantos encontros que tenho comigo.

Tentativas.

Pensamentos que me saem, como o da liberdade de pensamento não estar ao alcance dos que não tentam ver mais além. Dos que têm aversão à falta de uma passadeira vermelha. Dos que não arriscam um milímetro com pânico de ficarem excluídos do banquete do gosto comum. Um livre-pensador só é livre se for pensador e só é pensador se for livre. É um lugar comum. Pornograficamente óbvio. Mas falha-nos o óbvio tantas e tantas vezes – sobretudo aos que vivem obcecados com o Santo Graal. 

Podemos ficar por aqui?

Pelas saudades também do que fui, de um outro tempo, um outro Abril em que sonhei ser jornalista e combater pela liberdade.

Porém.

Em Portugal não existe liberdade de imprensa. Não porque os políticos sejam diabólicos, os empresários antidemocráticos ou os jornalistas incompetentes ou moralmente corruptos – não há jornalismo livre porque os jornais, rádios de informação e canais noticiosos vendem pouco e dão prejuízo. Dependem do exterior e não da relação com os leitores, ouvintes e espectadores. Por isso, somos defensivos e cuidadosos. Preferimos a média, o centro, o não comprometimento, a cautela, os caldos de galinha, o tem-te que não cais. Não dividimos caminhos, não defendemos ideais e uma ideia de civilização. Somos contabilistas da actualidade, não combatentes da liberdade.

E mais coisas, somos muito mais.

Somos Abril. Cá no fundo, numa primavera outra vez primavera. Podemos resgatá-lo num dia que seja outra vez diferente de todos os outros.

 

Colunista Acidental | Luís Osório - A Liberdade

 

Outras obras de Luís Osório:

 

Colunista Acidental | Luís Osório - A Liberdade

 

Colunista Acidental | Luís Osório - A Liberdade

 

Colunista Acidental | Luís Osório - A Liberdade

 

 

____________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 7
por Luís Osório

Siga-nos no Bloglovin