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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Sex | 08.12.17

Cá por casa... o regresso das palavras

Cá por casa sou a única que gosta de escrever criativamente! Assim, os meus queridos homens divertem-se com o meu entusiasmo - mesmo que não o entendam muito bem - quando começo a rabiscar algo novo ou tenho uma ideia ou projecto ao qual dedicar o meu espírito inquieto. Ao aprender a ler e a escrever abriu-se um horizonte ilimitado na minha imaginação, e as palavras tornaram-se as melhores amigas numa infância solitária e de constantes mudanças.

 

Quando consegui organizar as ideias que me povoavam a mente transportei-as para o papel, e então começaram a nascer o que eu pensava serem obras literárias escritas em folhas de cadernos, atadas com as linhas da caixa de costura materna, e com direito a capas desenhadas pela minha mão: nascia assim o desejo de ser escritora quando fosse grande! A escrita foi um exorcismo de sentimentos, angústias e dúvidas, surgindo assim com naturalidade a poesia na minha pré-adolescência, de qualidade algo duvidosa à luz dos dias de hoje mas tendo um papel importante na expansão dos meus horizontes em termos de escrita. Aventurei-me também como “jornalista”, criando um jornal chamado “A gazeta do Fogueteiro”, na sua maioria com notícias fruto da minha imaginação, ilustrado e escrito à mão, e vendido porta à porta por vinte escudos, que gastava depois em pastilhas e pirulitos. Não me recordo da receita obtida, acho que só teve uma ou duas edições, e não fiquei com nenhum exemplar, infelizmente. Todas estas aspirações não eram partilhadas com a família, mas fazia-o com as colegas de escola, a quem dava a ler as histórias que escrevia, recebendo um feedback bastante positivo. Entretanto, esses anos tenros foram ensombrados por uma doença no seio da família, que culminou em morte passados seis anos e veio marcar o meu percurso de vida; perante as dificuldades inerentes, abriu-se uma gaveta para nela encerrar por muitos anos os sonhos de menina; sentia-me incapaz de escrever, consumida por um caminho atribulado que em nada se assemelhava ao que eu idealizara para a minha vida. Volvidos esses anos, recorri às palavras e, numa espécie de terapia caseira, reatei relações com a minha mais velha amiga: renasceu a escrita em mim, num parto natural que me devolveu os sonhos, devagarinho. Dei passos tímidos, duvidei de mim e da qualidade do que escrevia, numa auto-crítica feroz que nem as opiniões alheias apaziguavam. Incitada por uma amiga criei o meu blog – estava agora numa era muito diferente do meu mundo de cadernos e canetas da infância. Daí a criar uma página de facebook foi relativamente rápido e natural e, aos poucos, fui desabrochando, sentindo-me a menina cheia de sonhos novamente. Participei aqui e ali em passatempos de editoras, publicando em antologias e coletâneas, colaborei num projecto de poesia da escola do meu filho - que morria de vergonha ao ver a mãe a dar uma das aulas a par da professora! -  e iniciei projectos pessoais relacionados com a escrita que estão quase a ganhar forma concreta. Tudo isto com o velho sentido de auto-crítica intacto!

Desde que as palavras regressaram a mim a minha vida mudou bastante, acompanhando-me num período mais negro e de poucas esperanças, por tempos atribulados de mudanças, e também de tranquilidade e alegria. Ela própria, a escrita, mudou também: cresceu, tornou-se mulher, mas manteve a mesma energia de uma adolescente, onde o único limite que existe é aquele que eu quiser que seja. A participação na Inominável foi um dos presentes do Universo, um mimo em tempos de bonança, sendo a cereja num dos vários topos de um bolo feito de muitas camadas e sabores, numa receita eternamente em elaboração, onde a cada passo se junta um novo ingrediente.

 

 

 

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Publicado em  Inominável nº 11

por Inês Rocha, autora do blog Alquimia do Momento

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